5. Pilar

— Primeira noite, amor?

A gerente da Velvet Club pergunta, aproximando-se do balcão. Ele se senta em um banco alto, dando-me as costas para apreciar o espetáculo de homens sensualizando no palco, enquanto um grupo de mulheres gritam exageradamente sob as luzes rosadas e uma energia eletrizante. As risadas femininas ecoam pelo salão, misturadas à música e ao tilintar dos copos.

É um mundo totalmente novo para mim, onde as mulheres são as donas da noite, e os homens, apenas seus entretenimentos.

— Sim — respondo, entregando mais um copo para uma cliente, que mal consegue se manter de pé.

— E está gostando?

Fora a roupa curta demais e os salto altíssimos, isso aqui é um parque de diversões para mulheres. Penso.

— É.

Minha resposta, o faz olhar para trás.

— É? — Ele se vira de frente para mim. — Me diz, onde você vai encontrar um emprego como este? Bom salário, horário flexível e… — Ele se vira outra vez. — Grandes espetáculos todas as noites.

Me pego sorrindo.

— Você está certo.

Um furacão de glitter e confiança, b**e palmas quando o um dos homens arranca suas roupas, revelando um par de coxas grossas, abdômen definido e um par de peitos firmes, reluzindo com o óleo que brilha sob sua pele.

— Lembre-se, sorria sempre. Mantenha um olhar firme e sem derramar nada. — Ele diz, ficando de pé.

— Pode deixar.

— Boa sorte, novata. — Meu chefe pisca um olho e desaparece entre as mesas.

O primeiro show termina, e eu tento manter o foco nos drinques, mas devo confessar que é quase impossível não olhar para os homens lindos, dançando sob os gritos e aplausos da mulherada. É tão sensual e divertido ao mesmo tempo. Contudo, é libertador também.

— Me vê uma daquelas bebidas coloridas? — Alguém pede e em um misto de agitada e receosa, começo a preparar.

— Olha só, carne nova.

Um homem se encosta no balcão, com uma expressão calma demais para um ambiente vibrante como este. O seu corpo parece dominar o próprio espaço. Encaro o olhar firme e o sorriso sutil, quase perigoso. Sua camisa preta tem os primeiros botões abertos. As mangas estão dobradas até a metade do seu braço. E a barba por fazer trás um ar que mistura confiança e mistério.

— Olá! — digo, tentando parecer profissional. — O que você vai querer?

— Que tal se você me surpreendesse?

— Ok. — Sinto-me encorajada a aceitar seu desafio.

— Meu nome é Eduardo.

— Pilar.

— Pilar. — Ele experimenta. — Que nome lindo!

Pego a coqueteleira. Respiro fundo e deixo os movimentos fluírem. Gelo, suco, um toque de hortelã… e, um pouco da minha recente autoconfiança. E quando termino, deslizo o copo na sua direção. Com o seu olhar cravado no meu, ele segura o e bebe devagar.

Um sorriso se curva nos seus lábios.

— Forte, mas suave no final. Isso me diz muito sobre você, Pilar.

Arqueio as sobrancelhas.

— Vamos, Eduardo, é a nossa vez. — Alguém grita. Ele larga o copo sobre o balcão.

— Essa dança é para você, gata.

— Estou de calcinha molhada. — Desperto com a voz de Olga, que está com os olhos vidrados em cima do homem que acabara de sair daqui.

— Que, que isso, papai? — Laís sibila fascinada. — Quantos quilos eu posso levar para casa?

Não seguro o riso. Contudo, meneio a cabeça em um não divertido e decido deixá-las à vontade para focar no meu trabalho.

***

No dia seguinte…

O som insistente do despertador me faz gemer em frustração. Contudo, reviro na cama, sentindo cada músculo do meu corpo reclamar a noite anterior. A primeira noite no Velvet Club foi um teste de resistência física, emocional e, principalmente, mental.

Empurro o lençol para o lado e fico alguns segundos encarando o teto. O cabelo despenteado e a mente ainda turva. O apartamento está silencioso, e pela primeira vez em muito tempo, esse silêncio é confortável.

Respiro fundo.

Sinto o perfume leve de lavanda vindo de um difusor e o sol se filtrando pelas frestas da cortina. O Rio de Janeiro já acordou e faz tempo. Eu, nem tanto.

— Vamos lá, Pilar — murmuro para mim mesma, sentando-me na beira da cama.

Arrasto os meus pés até a cozinha, prendo meus cabelos em um coque e coloco a água para ferver. Enquanto o cheiro do café fresco se espalha pelo ambiente, lembro-me dos olhares da noite passada e das luzes vermelhas do clube. Das risadas femininas ecoando pelo salão.

Tomo um gole do café preto e amargo, do jeito que eu gosto.

O relógio marca nove e meia da manhã e decido que preciso tomar um pouco de sol. Talvez um banho de mar e de um pouco de paz também. Portanto, minutos depois, pego uma bolsa de palha, escolho um biquíni colorido e uma canga florida. Passo um pouco de protetor no rosto, coloco os óculos escuros e encaro meu reflexo no espelho.

— Essa é uma nova fase, Pilar. Uma nova vida — falo para o meu reflexo no espelho e sorrio de leve.

Não demora e eu fecho a porta atrás de mim. Do lado de fora do prédio de um bairro de periferia, o calor da manhã me abraça. O vento tem um cheiro de liberdade, e por um instante, sinto que posso começar tudo de novo.  Enquanto caminho pela calçada, levo os fones aos meus ouvidos. A voz de Dean Lewis, cantando, Whit You me faz esquecer o barulho da cidade grande.

 Logo sinto o cheiro familiar do mar. Escuto os sons das suas ondas. E anseio para sentir a areia fina e branca debaixo dos meus pés. No entanto, ao chegar no meio da faixa de pedestres, vejo Rute vir na minha direção e imediatamente giro nos meus calcanhares, para voltar para o apartamento.

— Pilar? — Ela grita o meu nome, mas eu não paro. — Pilar, espera! — Sua voz soa ofegante, desesperada.

Finjo não a ouvir.

— Pilar, por favor!

E antes que eu consiga escapar, sinto a sua mão segurar no meu braço. Giro com brusquidão. O olhar faiscando de raiva.

— Me solte! — rosno baixo e irritada.

Ela tira a sua mão de cima de mim. Lança-me um par de olhos marejados. O rosto abatido.

— Eu… precisava te ver.

Não digo nada.

— Precisava te pedir perdão.

Rio, amarga.

— Perdão? Você mentiu pra mim. Dormiu com o homem que eu ia me casar. E isso por… quanto tempo? Uma semana? Um mês? Um ano? Quantas vezes se deitou com o Pedro, Rute?

Seus lábios se tremem, mas ela não me responde.

— Meu Deus! — ralho puta da vida.

— Eu quis parar…

— Ah, você quis? Nossa quanta consideração, amiga? Quanto tempo, Rute?

— Seis meses.

— SEIS… meses?! — Seguro um grito animalesco, porque não quero chamar a atenção das pessoas na rua. — Você destruiu anos da nossa amizade.

 — Eu sei — ela sussurra com voz embargada. — Eu fui horrível, Pilar. Eu não sei o que deu em mim. Eu estava confusa, me sentindo sozinha, e o Pedro…

— O Pedro é um canalha, e você sabia disso. — A corto. — Mas você é ainda pior do que ele.

Ela soluça.

— Eu me arrependi amargamente de cada dia. Você era minha irmã para mim, Pilar…

— Você tem razão, eu era — A interrompo, firme. — Agora você é apenas uma lembrança do que eu perdi.

Por um momento, vejo em Rute a mesma garota com quem compartilhei meus segredos, meus sonhos e risadas. E percebi o tamanho do vazio que ela deixou dentro de mim.

Ajeito os óculos escuros e dei um passo para trás.

— Um dia. Talvez. Quem sabe eu te perdoe? Mas hoje eu só quero matar vocês. Então vê se fica bem longe de mim.

Passo por ela, sentindo as lágrimas quentes escorrer pelo meu rosto. E com passos largos, caminho na direção da praia. Em cada passo, sinto o peso diminuir sobre os meus ombros. É como se cada lágrimas levasse tudo que me destrói para bem longe de mim. Na areia morna me livro da bolsa, das poucas roupas e da rasteirinha, e mergulho fundo na água salgada. 

Sinto-me flutuar. Ser roubada pela paz de que tanto preciso. É como se lavasse a minha alma e o meu corpo se fortalecesse. E quando me sinto melhor, retorno para a areia, forro a canga e me deito, encarando o céu azul através das lentes escuras.

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