Mundo de ficçãoIniciar sessão
ELENA SOFIA BIANCHI
O silêncio daquele hotel tinha uma aura doentia. Não era o silêncio refinado que os lugares luxuosos tentavam vender como exclusividade. Era algo distinto. Uma contenção. Como se todo o edifício estivesse segurando a respiração para evitar que algo se escapasse das suas paredes. O Hotel Vasari parecia estar isolado do restante de Milão, distante do tumulto da cidade e das pessoas apressadas que corriam sob a chuva. Lá dentro, tudo era excessivamente controlado para parecer autêntico. Mármore escuro refletindo luz dourada. Lustres italianos lançando um brilho acolhedor sobre corredores desabitados. Funcionários habilitados a desaparecer no instante em que eram notados. A influência do dinheiro verdadeiro tornava tudo discreto, silencioso e incrivelmente impecável. Passei a ponta do pincel sobre uma fina rachadura da tela diante de mim e aproximei o rosto alguns centímetros para observar a tinta sendo absorvida. Apreciava aquele momento específico. O instante em que algo quebrado aceitava ser salvo sem desmoronar completamente em minhas mãos. Talvez porque eu nunca tivesse aprendido a fazer o mesmo comigo. O aroma de verniz antigo dominava a suíte presidencial, misturado ao perfume sutil de couro, whisky e flores brancas espalhadas espalhando-se pelo ar condicionado. O luxo sempre trazia um cheiro de conforto fabricado. Como um abraço falso. Minhas costas já doíam depois de horas inclinada sobre a pintura, meus dedos estavam novamente manchados de tinta escura e o celular vibrava desde às oito da noite, insistindo em me lembrar que pessoas normais deixavam o trabalho antes da madrugada. Ignorei todas as notificações. Preferia trabalhar quando o hotel dormia. Durante o dia havia homens demais circulando por aqueles corredores. Homens de ternos impecáveis, relógios absurdamente caros e sorrisos ensaiados que nunca chegavam aos olhos. À noite, a encenação desaparecia. Restava apenas a verdadeira essência do lugar. Fria. Controlada. Predatória. A pintura retratava uma mulher segurando uma carta fechada contra o peito enquanto observava o mar através de uma janela aberta. O tempo havia destruído metade do rosto dela, mas não a tristeza. Achei isso cruelmente humano. A tinta desaparecia. A dor permanecia.“Passamos a vida inteira tentando salvar coisas quebradas.” A voz do meu pai ecoou na minha cabeça tão claramente que meus músculos se endureceram de imediato. Afastei o pensamento no mesmo instante. Não gostava de pensar nele depois da meia-noite. Algumas memórias pareciam ganhar força na madrugada. Um costume tolo. Quase como uma lenda… Mas que por algum motivo eu ainda o mantinha. Inclinei o corpo para trás na cadeira e pressionei os dedos contra os olhos cansados quando ouvi uma voz masculina perto da porta. — Você vai acabar dormindo aqui. Levantei a cabeça rapidamente. Giovanni estava parado na entrada, segurando duas xícaras de café. O uniforme preto continuava impecável apesar da hora tardia, mas seus olhos pareciam tensos. Não cansados. Tensos. — Achei que você já tivesse ido embora. Ele entrou devagar, fechando a porta atrás de si com mais cuidado do que o necessário. — Trabalho para milionários. Eles encaram três da manhã como se fosse o fim da tarde. Soltei uma risada baixa. — Isso explica a quantidade absurda de antidepressivos nesse prédio. Um canto da boca dele virou por um segundo, mas desapareceu logo após. Giovanni me entregou uma das xícaras e caminhou até a grande janela da suíte. Milão brilhava do lado de fora, coberta pela chuva. As luzes vermelhas dos carros cortavam o vidro molhado como feridas abertas na cidade. — O pessoal da segurança está estranho hoje — comentou com uma casualidade excessiva. Ergui os olhos de imediato. — Mais estranho que o normal? — Muito. A resposta veio seca, curta, sem espaço para brincadeiras. Algo apertou dentro do meu estômago. — Aconteceu alguma coisa? — Giovanni deu de ombros, mas o movimento saiu tenso. — Recebi ordens para deixar esse andar vazio após a meia-noite. Olhei ao redor da suíte silenciosa antes de voltar os olhos para ele. — Mesmo assim… Aqui está você — arrisquei brincar, a voz caindo alguns tons. Ele me encarou por alguns segundos antes de responder. — Você ainda estava aqui. Aquilo deveria soar gentil. Mas não soou. E uma pontada de desconforto atingiu meu estômago. Homens não desobedeciam ordens dessa natureza sem motivo. Aprendi cedo demais que a maioria das tragédias começa quando alguém decide desobedecer por uma razão que não quer explicar. Tomei um gole do café. Forte. Amargo. Quente o suficiente para queimar a língua. Perfeito. — Obrigada. Giovanni assentiu lentamente. — Vá embora logo, Elena. Depois saiu sem esperar resposta. A porta fechou atrás dele com um clique baixo, e o silêncio voltou ainda mais carregado. Fiquei encarando a pintura por alguns segundos, mas a minha concentração havia evaporado por completo. Algo naquela madrugada parecia deslocado. Não de uma forma óbvia. Era mais sutil. Como entrar em um quarto segundos antes de uma briga começar. O ar fica denso, como um sussurro de prelúdio. Levantei da cadeira devagar e comecei a guardar meus materiais na bolsa de couro. Pincéis separados por tamanho. Solventes fechados. Luvas descartáveis. Tudo organizado de uma forma quase obsessiva. Controle. Era assim que eu lidava com meus pensamentos. Quando fechei a bolsa, ouvi o elevador do corredor se abrir. O som foi baixo, mas naquela quietude parecia brutal. Franzi a testa imediatamente. Giovanni tinha dito que aquele andar deveria estar vazio. Então vieram os passos. Mais de uma pessoa. Lentos. Pesados. E antes que me desse conta, estavam ditando o ritmo dos meus batimentos cardíacos. Todo o meu corpo ficou alerta antes mesmo da minha mente entender o porquê. Instinto, talvez. A porta da suíte estava apenas encostada. Aproximei-me devagar, tentando não fazer barulho. A curiosidade sempre foi meu pior defeito. Olhei pela abertura estreita. O corredor parecia vazio por um segundo. Então ouvi uma voz masculina… — Você mentiu para mim. Baixa. Fria. Controlada daquele jeito que apenas homens realmente perigosos conseguiam ser. Meu coração desacelerou em vez de acelerar ainda mais. Como se o corpo entendesse que precisava se vestir no completo silêncio, para garantir sua sobrevivência. — Matteo... escuta…— Outra voz surgiu logo depois, trêmula e desesperada. O nome atravessou minha memória imediatamente. Matteo… Claro. Matteo Vasari. Mesmo quem não fazia parte daquele mundo conhecia o sobrenome. Empresário. Herdeiro. Fantasma. Existiam rumores suficientes sobre ele para alimentar jornais durante anos, mas ninguém nunca provava nada. Mesmo assim, toda vez que aquele nome surgia em uma conversa, as pessoas abaixavam o tom sem perceber. A porta da suíte ao lado estava parcialmente aberta. A luz dourada atravessava o corredor escuro em uma linha fina. E antes que meu cérebro pudesse mandar meu corpo recuar, eu olhei. Erro… Grande erro. Vi primeiro suas costas. Alto. Terno preto perfeitamente alinhado. Ombros largos ocupando espaço demais. Uma das mãos no bolso. A outra segurando uma arma apontada para o homem ajoelhado diante dele. Ele parecia calmo demais, carregava em suas mãos o que iria ditar o destino do homem aos seus pés. Mas não parecia entender o peso disso. Ou ao menos não o sentir, como deveria. Meu estômago virou com tanta força que precisei apoiar a mão na parede. O homem no chão chorava. Sangue escorria pelo canto da boca enquanto ele tentava falar rápido demais, como se a velocidade pudesse salvá-lo. Um ato de puro e claro desespero. — Eu consigo resolver isso. Por favor. Só preciso de mais tempo. Matteo não se moveu. Não havia raiva visível nele. Nem violência teatral. Nem prazer. Apenas cansaço. Um cansaço pesado, antigo, profundamente humano. — Você vendeu nomes da minha família para políticos federais — disse ele em voz baixa. — Sabia exatamente o que estava fazendo. — Eu não tinha escolha. Matteo inclinou a cabeça minimamente. — Todo mundo tem escolha. E você fez a sua. Ficar contra mim. O homem começou a chorar de verdade. Meu corpo travou na mesma hora. Lágrimas começaram a brotar em meus olhos sem que eu consiga sequer entender o porquê. Reflexo das lágrimas do homem? Medo? Eu devia sair dali. Devia correr. Devia fingir que nunca tinha visto nada. Atravessar o restante do corredor, me enfiar no elevador, ir para casa e fingir que nada aqui aconteceu. Que foi só mais uma ilusão da minha mente cansada. Mas o medo às vezes transforma pessoas em pedra. E eu estava completamente imóvel.






