13 dias de sangue e vergonha

A Luna Rejeitada

Capítulo 4: Os Treze Dias de Sangue e Vergonha (2.687 palavras – 18+, sofrimento intenso, humilhação pública, mas Livia nunca se cala nem se dobra)

Dia 1 – A Corrente
Pela manhã, Matheus apareceu com quatro guerreiros.
Trouxe uma corrente de prata fina, encantada pelos anciãos.
Colocou no pescoço dela na frente da alcateia inteira.

— Até a lua cheia você usa isso — anunciou, voz fria. — Prata queima a transformação. Você não vai virar loba. Não vai fugir. Não vai lutar. Vai ficar aqui, quieta, e aprender seu lugar.

A prata queimou na pele de Livia assim que tocou.
Um chiado.
Fumaça.
Dor lancinante.

Mas ela não gritou.

Ergueu o queixo, os olhos violeta faiscando, e falou alto:

— Pode queimar minha pele, Matheus.
Não queima minha voz.
Eu ainda sou a Lua que a Deusa escolheu.
E você vai ouvir isso todos os dias até a lua cheia.

A alcateia viu a marca vermelha se formando no pescoço dela.
Julia sorriu.
Matheus apertou a corrente com mais força antes de trancar a ponta na parede da cabana.

Dia 2 – A Marca Falsa
Julia organizou uma “festa de noivado” no pátio.
Mandou pendurar lanternas, tocar música, servir hidromel.

Convidou toda a alcateia.
E obrigou Livia a ficar sentada num banquinho ao lado da mesa principal, com a corrente de prata visível, vestindo um vestido cinza de serva.

Durante o brinde, Julia ergueu a taça:

— À nova Lua que finalmente vai tomar o lugar da antiga!

Todos aplaudiram.
Livia foi obrigada a servir as taças.

Quando chegou a vez de Julia, a loira falou alto:

— Ajoelha quando me servir, rejeitada.

Livia se abaixou lentamente, o metal queimando o pescoço, e encheu a taça.

Então olhou direto nos olhos de Julia e disse, alto o suficiente para todos ouvirem:

— Beba bastante, mana.
Vai precisar de força pra aguentar o que vem depois da lua cheia.
Porque o vínculo não mente.
E ele ainda é meu.

Um silêncio gelado caiu.
Julia derrubou a taça de raiva.
Matheus a puxou para dançar, mas o clima estava quebrado.

Dia 3 – O Banho Público
Mandaram Livia lavar as roupas da alcateia no riacho, acorrentada.

A corrente era longa o suficiente para chegar à água, mas não para se esconder.

Julia apareceu com três amigas.

— Tira a roupa — ordenou. — Ninguém quer ver trapos sujos de rejeitada no riacho sagrado.

Livia tirou a blusa devagar.
Mostrou as costelas marcadas, a pele pálida, as veias azuladas do vínculo morrendo.

Então falou, sem gritar, mas com voz que carregava:

— Olhem bem.
Isso é o que acontece quando um Alfa rejeita a Lua escolhida.
Guardem essa imagem.
Porque um dia vocês vão ter que explicar pros filhos de vocês por que deixaram isso acontecer.

As três amigas de Julia ficaram brancas.
Julia mandou jogar água gelada nela.

Livia ficou lá, tremendo, pingando, mas com a coluna reta.

Dia 5 – A Humilhação da Mesa
No jantar comunitário, colocaram uma tigela no chão, ao lado da cadeira de Matheus.

— Rejeitadas comem no chão — disse Julia, rindo.

Livia se sentou no chão, de frente para a mesa inteira, e comeu com as mãos, devagar.

Enquanto comia, falou:

— Sabe o que é engraçado, Matheus?
Você senta aí com ela no colo, mas à noite o vínculo te acorda gritando meu nome.
Eu sei.
Eu sinto.
Todo mundo aqui vai sentir quando você desabar.

Matheus quebrou a taça na mão.
Sangue escorreu pelos dedos.

Dia 7 – O Teste dos Anciãos
Os anciãos vieram “avaliar” se Livia ainda era digna do título.

Fizeram-na ficar de pé, acorrentada, no centro do círculo sagrado, enquanto Julia respondia perguntas sobre leis, linhagem e deveres de Luna.

Julia respondeu tudo errado de propósito, rindo.

Um ancião virou-se para Livia:

— E você, rejeitada? Ainda sabe o que é ser Lua?

Livia, com a corrente queimando, voz rouca de dor, respondeu sem hesitar:

— Ser Lua é sangrar por quem não merece.
É ficar de pé quando todos querem você de joelhos.
É carregar o peso do vínculo sozinha quando o Alfa foge.
Eu sei exatamente o que é ser Lua.
Vocês é que esqueceram.

O ancião mais velho baixou a cabeça.
Ninguém ousou rir.

Dia 9 – A Noite da Chuva
Choveu forte.
A corrente estava fixada do lado de fora da cabana.

Livia passou a noite inteira na chuva, encolhida, tremendo de febre, o pescoço em carne viva.

De manhã, Julia apareceu com um guarda-chuva, seca e aquecida.

— Dormiu bem, mana?

Livia, com os lábios roxos, olhou para cima e respondeu:

— Dormi sentindo o vínculo queimar você também.
Você sentiu, né?
Às três da manhã.
Você acordou gritando meu nome sem saber por quê.

Julia empalideceu.
Porque era verdade.

Dia 11 – A Marcação de Mentira
Julia convenceu Matheus a fazer uma “cerimônia antecipada” só para os amigos mais próximos.

Mandaram Livia assistir, acorrentada a um poste no centro do salão.

Matheus se aproximou de Julia com os caninos à mostra, pronto para marcar.

No exato segundo em que os dentes dele tocaram o pescoço dela, Livia gritou — não de dor, de poder:

— VOCÊ NÃO PODE!

O vínculo explodiu.
Matheus foi jogado para trás como se tivesse levado um soco invisível.
Sangue escorreu do nariz dele.
Julia gritou de dor, como se tivesse sido queimada.

O salão inteiro viu.

Matheus se levantou, pálido, olhando para Livia com verdadeiro medo pela primeira vez.

Dia 13 – Véspera da Lua Cheia
Livia mal conseguia ficar de pé.
A prata tinha aberto feridas profundas no pescoço.
Estava com febre alta, delirando, o corpo coberto de hematomas e cortes.

Mas quando Matheus entrou na cabana à meia-noite, ela ainda estava acordada.

— Amanhã eu marco Julia — disse ele, voz trêmula. — Amanhã isso acaba.

Livia riu.
Um riso rouco, quebrado, mas cheio de fogo.

— Você ainda acha que manda no vínculo, Matheus?
Olha pra mim.
Olha o que você fez.
E ainda tem coragem de achar que amanhã vai ser fácil?

Ela se levantou, cambaleando, a corrente tilintando.

— Amanhã você vai ter que escolher na frente de todo mundo:
Me matar com as próprias mãos…
Ou me aceitar de volta e encarar que passou dois anos destruindo a própria alma.

Deu um passo à frente, o sangue escorrendo do pescoço.

— Eu vou estar lá, acorrentada, sangrando, morrendo.
Mas vou estar de pé.
E vou olhar nos seus olhos enquanto você decide se vale a pena matar a Lua que a Deusa te deu…
só pra ficar com uma mentira loira.

Matheus saiu correndo da cabana.

E pela primeira vez em treze dias,
Livia chorou.

Não de fraqueza.
De fúria pura.

Porque ela tinha sofrido tudo.
Tinha sido humilhada, queimada, exposta, reduzida a nada.

Mas nunca, nem por um segundo,
tinha se calado.

E amanhã…
amanhã a alcateia inteira ia lembrar quem ela realmente era.

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