A sombra da inveja

O amanhecer trouxe uma calmaria falsa.

Livia abriu os olhos e ainda sentia o cheiro de Matheus impregnado no casaco que ele deixara sobre ela. Por um segundo, quase acreditou que ele tinha ficado a noite inteira ali, velando seu sono. A ilusão durou até ouvir a risada cristalina de Julia do lado de fora — aguda, triunfante, cortando o ar como vidro quebrado.

Ela se levantou com dificuldade. Cada músculo doía, mas o pior era o vazio latejante no peito onde o vínculo deveria estar cantando. Tomou um banho frio para afastar a febre e vestiu a roupa mais simples que encontrou: calça preta surrada e uma blusa larga de lã. Nada que chamasse atenção. Nada que desse a Julia mais munição.

Quando saiu da cabana, a alcateia já estava reunida no pátio central para o café da manhã comunitário. Matheus estava no centro, como sempre, mas hoje Julia estava literalmente sentada no colo dele, as pernas cruzadas sobre as dele, os braços em volta do pescoço do Alfa. Ele ria de algo que ela sussurrava no ouvido dele — um riso que Livia não ouvia direcionado a ela há quase dois anos.

O estômago de Livia revirou.

Julia percebeu sua chegada imediatamente. Os olhos verdes da irmã brilharam com malícia pura.

— Olha quem resolveu aparecer — disse Julia alto o suficiente para todos ouvirem. — A princesa rejeitada finalmente saiu da cama. Achei que ia passar o dia inteiro se lamentando, como sempre.

Alguns lobos riram. Outros desviaram o olhar, constrangidos. Matheus apenas apertou a cintura de Julia com mais força, como se marcasse território.

Livia respirou fundo e caminhou até a mesa de comida. Pegou uma maçã e fingiu que não estava tremendo.

— Bom dia pra você também, mana — respondeu com voz firme.

Julia desceu do colo de Matheus com graça felina e caminhou até ela, balançando os quadris. Parou a poucos centímetros, o perfume doce demais invadindo as narinas de Livia.

— Sabe o que eu descobri ontem à noite? — sussurrou Julia, baixo o bastante para que só Livia ouvisse. — Enquanto você chorava sozinha na sua cabana fedorenta, o Matheus me contou um segredinho. Ele disse que, quando finalmente me marcar, vai fazer questão de que você esteja na primeira fila. De joelhos. Pra você nunca mais esquecer quem é a verdadeira Luna daqui.

Livia apertou a maçã com tanta força que a casca se partiu.

— Você está doente, Julia.

— Não, querida. Eu estou ganhando — retrucou Julia, sorrindo. — E você está perdendo. Como sempre.

Então, alto o suficiente para toda a alcateia ouvir, Julia continuou:

— Ah, quase esqueci! Trouxe uma coisinha pra você. — Tirou do bolso um pedaço de tecido vermelho. Era o vestido que Livia usara na cerimônia da Lua Cheia, dois anos atrás, quando fora declarada a Luna destinada. Agora estava rasgado, manchado de terra e… cheirava a sexo. — Matheus disse que não precisava mais. Que era só lixo do passado. Então eu usei ontem à noite. Na floresta. Sabe como é… ele gosta de rasgar.

Um murmúrio percorreu a multidão. Algumas fêmeas cobriram a boca, chocadas. Outras riram. Matheus apenas observava, os olhos frios fixos em Livia, como se a desafiasse a reagir.

Livia sentiu o sangue sumir do rosto.

A maçã caiu da sua mão e rolou pelo chão.

— Você é patética — disse ela, a voz baixa, mas carregada de veneno. — Tudo isso… só porque você nunca foi escolhida pra nada na vida.

O sorriso de Julia vacilou por meio segundo.

Então voltou, mais afiado.

— Escolhida? — Julia riu. — Eu não preciso ser escolhida pelos Deuses, Livia. Eu conquisto. Eu pego. E você? Você só chora e espera que o destino te salve. Notícia: o destino cansou de você.

Julia se virou para Matheus, teatral.

— Amor, posso contar pra eles? Por favorzinho?

Matheus ergueu uma sobrancelha, mas assentiu.

Julia bateu palmas como uma criança empolgada.

— Então! Decidimos a data! A marcação oficial vai ser na próxima lua cheia, daqui a treze dias. E eu vou ser a nova Lua da Alcateia Lua Prateada. Os anciãos já aprovaram. — Virou-se para Livia com olhos brilhando. — E você, minha querida irmã… vai entregar o título pessoalmente. Em público. Com um discurso bonitinho e tudo. Vai ser lindo.

O silêncio que caiu foi sepulcral.

Livia sentiu o chão sumir debaixo dos pés.

Entregar o título?

Publicamente?

Era o fim.

Era a humilhação final.

Matheus finalmente falou, a voz grave cortando o ar:

— É o melhor pra todo mundo, Livia. Aceite de uma vez.

Ela olhou para ele — realmente olhou.

E pela primeira vez em meses, não viu nem um pingo de dúvida nos olhos dele. Apenas frieza. Determinação. Alívio.

O vínculo dentro dela gritou.

Um grito tão alto que ela quase caiu de joelhos.

Mas não caiu.

Ergueu o queixo, os olhos violeta faiscando com algo que ninguém esperava: ódio puro.

— Vocês dois — disse ela, a voz firme como aço — vão se arrepender disso. Cada segundo. Cada respiração. Eu juro pela Lua que me escolheu.

Virou-se e saiu andando, sem correr, sem chorar.

Caminhou com a coluna reta até desaparecer entre as árvores.

Julia riu alto.

— Viu? Drama. Sempre drama.

Mas Matheus ficou olhando o lugar por onde Livia sumira.

E pela primeira vez em semanas, sentiu um arrepio que não era desejo.

Era medo.

Naquela tarde, Julia não perdeu tempo.

Convocou as fêmeas mais influentes da alcateia para um “chá da tarde” na casa principal — a casa que um dia seria de Livia como Luna. Espalhou bolos, vinho de mirtilo e, principalmente, veneno.

— Ela está louca — disse Julia, com lágrimas falsas nos olhos. — Ontem à noite ela invadiu meu quarto enquanto eu dormia. Disse que ia me matar se eu não saísse da vida do Matheus. Eu tive que gritar pra ele vir me salvar.

As fêmeas engasgaram.

— Ela fez o quê?!

— Eu tenho medo dela — continuou Julia, a voz trêmula. — Medo do que ela pode fazer com a alcateia inteira. Ela não aceita a vontade do Alfa. Isso é traição.

Em menos de duas horas, a história já tinha virado:

Livia era perigosa.

Livia era instável.

Livia precisava ser contida.

Quando Livia voltou da floresta ao entardecer, dois guardas a esperavam na porta da cabana.

— Ordens do Alfa — disse o maior deles. — Você fica confinada até a lua cheia. Por segurança.

Livia olhou para a casa principal, no alto da colina.

Julia estava na varanda, acenando com um sorriso doce.

E pela primeira vez, Livia sorriu de volta.

Um sorriso frio.

Perigoso.

Promissor.

Porque Julia acabara de cometer o maior erro da vida dela:

Achou que tinha vencido antes da guerra começar.

Naquela noite, sozinha na cabana trancada, Livia escreveu numa folha de papel velha:

“Dia 1 de 13.

Ela acha que me quebrou.

Ela só me acordou.”

Guardou o papel debaixo do colchão.

Fechou os olhos.

E começou a planejar.

Porque o preço do desprezo é a morte.

E Julia estava prestes a descobrir exatamente o que isso significava.

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