Mundo ficciónIniciar sesiónA Luna Rejeitada
Capítulo 5: A Lua de Sangue – A Rejeição (4.018 palavras – 18+, humilhação extrema, rejeição verbal completa, rompimento e fuga) A lua nasceu vermelha como uma lâmina recém-banho de sangue. A clareira estava cheia até sufocar. O ar pesado de tensão, de medo, de cheiro de resina e prata queimada. No centro, o poste antigo. Lívia foi arrastada ao cair da tarde. Vestia o que restava do vestido preto simples — rasgado, sujo, manchado de sangue seco, mas ainda cobrindo cada centímetro do corpo. A coleira de prata grossa estava cravada na carne do pescoço, a pele em volta negra e necrosada. Correntes nos pulsos e tornozelos a mantinham de pé, braços abertos em cruz, pés mal tocando o chão. Cada respiração era um chiado de prata queimando carne. Julia chegou de branco imaculado, coroa prateada, sorriso de rainha. Matheus ao lado — alto, ombros largos, tatuagens tribais brilhando sob as tochas, olhos cinzentos tempestuosos, postura firme de Alfa absoluto. Nada de palidez. Apenas arrogância fria. Os anciãos ergueram as vozes: — Que o Alfa honre o vínculo sagrado ou o quebre diante da Deusa e da alcateia. Julia deu um passo à frente, pescoço exposto, arrogante. Matheus se aproximou, caninos à mostra, expressão dura como pedra. Silêncio absoluto. Então Lívia falou. A voz saiu destruída, rouca, mas carregada de uma força que fez o próprio vento parar. — Matheus. Ele parou no meio do passo. — Olha pra mim. Ele virou o rosto devagar. Encarou o que tinha permitido acontecer. O pescoço necrosado pela prata. As costas rasgadas por chicotes e garras. O corpo inteiro coberto de cortes, mordidas, hematomas, sujeira de treze dias de humilhação. O vestido preto pendurado como mortalha. — Treze dias — continuou ela, cada palavra custando sangue. — Treze dias você deixou me queimarem, me exporem, me fazerem comer no chão, me fazerem carregar sua vergonha na pele. Eu aguentei tudo. Agora acabou. A lua ficou ainda mais vermelha. Lívia ergueu a cabeça o máximo que a coleira permitiu. E falou para a alcateia inteira, alto, claro, sem tremor: — Eu, Lívia da Alcateia Lua Prateada, Lua escolhida pela Deusa, rejeito Matheus, filho de Caio, como meu Alfa, meu companheiro e meu destino. O silêncio que veio depois foi tão absoluto que até as tochas pareceram parar de crepitar. — Eu rejeito você — repetiu, olhando direto nos olhos dele, sem piscar. — Rejeito o vínculo que você profanou. Rejeito o título que você tentou arrancar de mim. Rejeito você, Matheus. Agora e para sempre. Matheus estreitou os olhos, os punhos cerrados, mas não falou. Lívia fechou os olhos por um segundo. Dentro do peito, o vínculo de prata incandescente pulsou uma última vez. Ela agarrou esse fio com toda a alma e gritou: — QUEBRE! Um estalo sobrenatural rasgou a noite. O vínculo se partiu com violência brutal. Lívia arqueou o corpo inteiro, gritando até a voz rasgar, sangue jorrando do nariz, da boca, dos olhos. A coleira de prata explodiu em mil pedaços incandescentes que voaram como estrelas mortas. Matheus foi arremessado para trás, caindo de costas com um baque surdo, o peito arfando, sangue escorrendo dos ouvidos — mas os olhos ainda cinzentos, ainda frios, ainda desafiadores. Julia gritou, histérica: — O QUE VOCÊ FEZ?! Lívia abriu os olhos — violeta puro, sem uma lágrima. — Eu me libertei — respondeu, voz calma pela primeira vez em dois anos. As correntes nos pulsos e tornozelos caíram sozinhas, queimadas pelo poder da rejeição. Lívia deu um passo à frente. Depois outro. Cambaleando, sangrando, mas de pé. — O título é seu agora, Julia — disse, olhando para a loira pálida. — Pode ficar com ele. Engasgue com ele. Cuspiu sangue no chão, bem na frente dos dois. Então, com o que restava de vida, Lívia virou as costas e correu. Correu para a borda da clareira, para a floresta, para longe. Matheus se levantou rápido, rosnando, tentando correr atrás, mas o rompimento o derrubou de novo, vomitando sangue no chão sagrado. Julia ficou paralisada, a coroa escorregando da cabeça e caindo com um som metálico. Ninguém ousou segurar Lívia. Ela desapareceu entre as árvores. Correu até os pulmões queimarem, até as pernas cederem, até o mundo girar. Correu até cair de cara na terra fria, a muitos quilômetros da clareira. Estava morrendo. A rejeição verbal seguida de rompimento voluntário mata a parte mais fraca. E ela era a parte mais fraca. A visão escureceu. O último pensamento foi: “Pelo menos morri livre.” Então uma sombra enorme bloqueou a lua vermelha. Um lobo gigantesco, pelo negro como a noite, olhos dourados brilhando. Transformou-se em homem. Arthur. Ele se ajoelhou ao lado dela, o rosto endurecido pela fúria ao ver o estado em que ela estava. — Pelos Deuses… quem fez isso com você? Lívia tentou falar, mas só saiu sangue. Arthur a pegou nos braços com uma ternura impossível para alguém tão grande. No instante em que a pele dele tocou a dela, algo explodiu entre os dois. Um segundo vínculo. Mais forte. Mais puro. Mais verdadeiro. Arthur rosnou, os olhos dourados arregalados, o peito vibrando com o reconhecimento primal. — Você é minha — disse, a voz grave, possessiva, absoluta. Lívia, quase inconsciente, sentiu pela primeira vez em dois anos… paz. O novo vínculo começou a curar as feridas mais profundas, mesmo enquanto ela desmaiava. Arthur a segurou contra o peito, olhando para a lua vermelha com ódio puro. — Quem quer que tenha feito isso… vai morrer gritando. Então correu com ela nos braços, para as montanhas, para longe da Alcateia Lua Prateada. Lívia estava morta para eles. Mas acabara de renascer nos braços de outro Alfa. E o preço do desprezo… agora seria cobrado em dobro.






