A nevasca acabara na madrugada. O silêncio que veio depois era tão absoluto que até o coração parecia fazer barulho demais. Quando o sol finalmente rompeu as nuvens, a aldeia inteira pareceu respirar aliviada. A neve chegava à cintura em alguns lugares, aos ombros em outros. Crianças corriam gritando, lobos adultos já estavam em forma humana, pás nas mãos, abrindo caminhos que pareciam túneis brancos.
Lívia saiu da cabana nova com as bochechas queimando de frio e o cabelo ainda úmido do banho. Vestia calças de lã grossa, botas forradas e o casaco de pele cinza que Arthur deixara pendurado no cabide “sem querer” na noite anterior. O cheiro dele estava impregnado no tecido: pinho, lenha queimada e algo que ela aprendera a reconhecer como simplesmente Arthur.
Freya apareceu voando (literalmente) em forma de loba cinzenta, pulando montes de neve como se fossem brinquedos. Transformou-se de volta ao tocar o chão, já rindo.
— Bom dia, bela adormecida! — gritou, jogando uma pá para Lívia.