Ponto de Vista: Leonardo
O som do mundo lá fora foi cortado no instante em que a porta do SUV blindado se fechou. O silêncio lá dentro era caro, estéril e carregado de um cheiro de couro novo que, naquele momento, me dava náuseas. Eu estava colado ao vidro, vendo a silhueta do casarão diminuir enquanto o carro acelerava pela estrada de terra, levantando uma poeira que logo seria sufocada pela chuva que começava a cair.
Eu queria gritar para o motorista parar. Queria abrir aquela porta, correr de volta e me enfiar debaixo do chuveiro com a Maya, pedindo perdão até que minha voz acabasse. Mas as travas eletrônicas e a mão firme do Marcos no meu ombro me diziam que o "Leonardo" tinha acabado de ser recuperado pela sua verdadeira dona: a indústria.
O carro cortava a rodovia em direção ao Rio, e o barulho da chuva no teto blindado parecia o som de tambores me julgando.
— Marcos, você não entende — falei, a voz embargada pela raiva e pela culpa. — Ela fugiu desse tipo de vida. Ela tem traum