Ponto de Vista: Maya
Eu não sabia que o tempo podia ser uma substância tão densa e sufocante. Durante quarenta e oito horas, o mundo para mim se resumiu às quatro paredes do meu quarto e ao som da tempestade que parecia decidida a colocar Porto do Silêncio abaixo.
Fiquei trancada, alternando entre um sono pesado e sem sonhos e momentos de vigília onde o meu único foco era o barulho da chuva contra a janela. Eu não liguei a televisão. Não toquei no meu celular. Eu tinha pavor de ver o meu rosto em algum portal, pavor de ler o que estranhos estavam escrevendo sobre mim. Eu era apenas uma ferida aberta, esperando que o tempo começasse a cicatrizar o estrago que o Leonardo — ou melhor, a existência dele — tinha deixado na minha vida.
De vez em quando, eu ouvia batidas leves na porta.
— Menina... trouxe um caldo de peixe e um chá. Deixei aqui na bandeja, no chão. Come um pouquinho, por favor — a voz da Dona Fátima era um fio de carinho no meio do meu isolamento.
Eu não respondia. Esperava