Ponto de Vista: Leonardo
O ar condicionado da sede da gravadora, no centro do Rio de Janeiro, soprava um gelo seco que parecia queimar minha pele. Era um frio artificial, estéril, que não tinha nada a ver com o frescor da maresia ou com a umidade viva da chuva que eu sentira nos últimos dias. Eu estava sentado em uma cadeira de couro que custava uma pequena fortuna, cercado por executivos que me olhavam como se eu fosse um milagre financeiro que acabara de ser resgatado de um naufrágio. Naquele momento, eu me senti uma mercadoria valiosa que estava sendo limpa e reembalada para ser recolocada na prateleira.
Na minha frente, sobre uma mesa de vidro polido, estavam pilhas de papéis: contratos de imagem, termos de confidencialidade e planos de contingência de crise. E, bem no centro de tudo, o meu caderno de couro — o receptáculo de tudo o que eu realmente era — aberto como se fosse uma peça de autópsia sob a luz impiedosa das lâmpadas de LED.
— Os advogados já enviaram a equipe para Por