Capítulo 4

Por algum motivo, o dia estava ensolarado, tão diferente da neve torrencial que despencou da tempestade noite passada. Um cheiro amadeirado subia no ar, à medida que a neve nos galhos das árvores derretia.

Eu me sentia estranhamente feliz aqui, sozinha. Raios luminosos adentraram pela janela, em um dos dias mais iluminados do ano. Ryan deixou que eu me refugiasse em seu chalé, e eu tinha roupa quentinha e comida. Pela primeira vez, poderia me ocupar com as coisas que eu queria fazer, não com o que eu precisava.

Desci até a biblioteca e peguei alguns livros para lê-los enquanto tomava uma xícara de chá e biscoitos. Com os dias contatos, eu precisava conhecer mais deste mundo, pois conhecimento era fundamental para a sobrevivência. Terrenos, topografias, mapas, fenômenos naturais, fauna, agricultura...

Quando se completava dezoito anos, ocorria o despertar do lobo, sendo também a idade de dispensa do orfanato. Uma vez lobos, os órfãos eram considerados aptos a sobreviver no mundo exterior e suportar as temperaturas congelantes, já que a forma de lobo era mais resistente ao frio do que a humana. Além disso, lobos eram muito mais fortes e hábeis, podendo sobreviver da caça.

Havia algumas categorias na hierarquia que eram definidos pelo nascimento e o sangue. O imperador, também proprietário da região central possuía o poder de decisão não só sobre o seu domínio, mas sobre todo o continente. Contudo, com sua ausência, as terras centrais estavam tão gélidas que mesmo os lobos tinham dificuldades de suportar aquela temperatura, motivo pelo qual as terras imperiais se tornaram desabitadas.

Em torno da região central, alcateias comandadas pelos alfas, os lobos mais fortes, cujo sangue lhe conferia poder de conexão com seus subordinados e controle. Os alfas eram os governantes de seus clãs, cujas terras foram demarcadas territorialmente de acordo com seu número populacional e força. Os limites territoriais alteravam de tempos em tempos, pois os líderes continuamente travavam batalhas em busca de expansão. Felizmente, a alcateia em que me encontrava, a Lua Prateada, estava em acordo de paz com seus vizinhos, após várias baixas e perdas enfrentadas no início da crise climática.

Abaixo dos alfas na hierarquia, estavam os betas, guerreiros formidáveis com lobos poderosos, aquele que estava ao lado direito do alfa para a resolução de problemas devido ao seu intelecto desenvolvido e racionalidade. O beta também era o responsável por proteger e aconselhar o líder, pelo gerenciamento financeiro do clã, aplicando medidas legais e investindo os impostos para a infraestrutura, dos projetos que eram aprovados e assinados pelo alfa.

Ao lado esquerdo do alfa e não menos importante, estava o gama, um lobo poderoso com instintos apurados, responsável por gerenciar a defesa do clã. O gama era responsável por recrutar e supervisionar o treinamento de soldados lupinos, por manter a ordem dentro do clã e também o responsável por tomar a frente em casos de guerras e conflitos, sob o comando Alfa.

Todos abaixo dessa hierarquia eram considerados ômegas, lobos que deveriam se submeter aos seus líderes e servir seu clã. Dentre estes, havia uma hierarquia à parte, com diferentes níveis de domínio.

No topo dessa hierarquia dos ômegas estavam os nobres. Eram as famílias ricas e proeminentes, aqueles cujos ancestrais carregavam medalhas e honras e cujo sobrenome transmitido possuía o poder de se fazer ser respeitado. Era uma posição de nascimento, determinada pelo sangue ou raramente alcançado a muito custo pelos mais fortes através de feitos significativos.

Abaixo, a classe média, lobos trabalhadores, fortes, mas não o suficiente para entrar em posições de destaque na guarda e subir de posição. Eram os mais numerosos e, graças ao seu trabalho duro, a alcateia ainda estava de pé.

A classe baixa eram lobos fracos, os aleijados ou mesmo os que nasceram sem sorte. Mas abaixo delas, ainda havia uma pior; os tardios e os não despertos. Aqueles que não possuíam força mágica suficiente para despertar seu lobo na idade correta geralmente nem sobreviviam para compor a baixa classe, uma vez que o mundo era extremamente cruel com eles. Sem força, sem lobo e sem apoio, desfaleciam rapidamente de frio ou de fome.

Em poucos dias, eu seria classificada assim, a pior categoria possível, uma posição de desgraça e humilhação. Para a dispensa oficial do orfanato e obtenção de auxílio e oportunidades de trabalho, era necessário mostrar seu lobo para avaliação. No entanto, para um não desperto, o destino era o descarte, uma vez que o critério mínimo para ser contrato era ter um lobo. Pior que ser olhado com desdém por ser um órfão, seria ser olhado com nojo e ódio por ser um não desperto inútil. Aos descartados, cabia o abandono completo e uma morte solitária.

Se não fosse a certidão de nascimento pega erroneamente em meu abrigo anterior, todos já saberiam que já fiz dezoito há quase três semanas. Lembrava-me perfeitamente do dia em que nasci, assim como lembrava de tudo desde então. É devido a isso que eu sabia que meu verdadeiro nome não era Mia.

Mia se parecia comigo, brincávamos juntas mas ela morreu, junto com todos os funcionários e crianças do abrigo naquele grande massacre. Naquele dia, os soldados do alfa levaram o que sobrou de útil da aldeia massacrada, sendo documentos, itens de utilidade que ainda poderiam ser aproveitados e o menos importante, eu.

Eles não deram importância a coleta de documentos no abrigo, apenas identificaram pela minha aparente idade e descrição que eu deveria ser Mia. Eles não se importaram nem comigo, quanto mais em me perguntar a veracidade das informações recolhidas. Em silêncio fui recolhida, e em silêncio fui colocada no orfanato que se tornou meu inferno nos últimos treze anos.

Uma pessoa sem lobo não tinha o direito de ter companheiro, pois companheiros predestinados tinham suas almas ligadas entre si através de um vínculo mágico entre seus lobos. Ryan logo perceberia que sou uma fraude. Com isso em mente, perguntava-me se seria seguro continuar neste lugar.

Por vezes, pensava que deveria recolher o máximo de comida possível e tentar fugir o mais longe possível deste clã e dele, mas isso me causava uma dor invisível, e eu odiava sentir dor. Não sabia dizer se isso era tolice ou fraqueza, mas eu queria esperar, acreditar que ele realmente me amava e que não me deixaria.

— O que realmente devo fazer? — perguntei-me, pesando os prós e contras das minhas opções.

Eu ainda não estava preparada para uma jornada pelo mundo e trilhar o desconhecido, pois sabia que, em meu estado atual, as taxas de sobrevivência seriam mínimas. Além disso, a capacidade de rastreio de um lobo, ainda mais do calibre dele, era imbatível, sem mencionar a diferente absurda de velocidade de um lobo para um humano. Talvez, a única forma de seguir em segurança era se ele me deixasse ir.

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