Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Katerina Sokolov
Caminhei pelos corredores subterrâneos e subi a escada de serviço. A cada degrau, o meu corpo doía, mas a minha mente afiava como uma lâmina. Eu precisava ir para o meu quarto. Precisava do meu espaço, do cheiro das minhas coisas, de um momento para reunir os pedaços estilhaçados da minha dignidade.
Mas quando alcancei o corredor da ala leste, o meu santuário, o caos já estava instaurado.
As pesadas portas de carvalho da suíte principal, o quarto que dividi com Victor por mil e noventa e cinco noites, estavam escancaradas. O som de fita adesiva sendo rasgada ecoava de forma cruel e mecânica. Três empregadas da casa, mulheres que até ontem abaixavam a cabeça com reverência e medo quando eu passava, agora empacotavam os meus vestidos de grife, os meus livros e os meus sapatos em caixas de papelão grosseiras.
O cheiro de papelão velho misturava-se ao odor amadeirado do quarto. Era o cheiro de um descarte. De lixo sendo jogado fora.
Parei na soleira da porta, os meus dedos agarrando o batente de madeira com tanta força que as unhas branquearam.
No centro do quarto, Victor estava de pé, vestindo apenas a calça social negra e uma camisa de botões dobrada até os cotovelos. Ele apontava para a minha penteadeira, instruindo uma das criadas a esvaziar as gavetas.
Mas não foi a ordem de despejo que quebrou as minhas pernas. Foi o que vi sentada na poltrona de veludo ao lado da lareira apagada.
Alice.
Ela segurava uma xícara de chá fumegante. As pernas finas estavam cruzadas, e ela balançava o pé no ar, cantarolando uma melodia estúpida e feliz enquanto assistia ao apagamento da minha existência. E ela estava vestindo o meu roupão.
Um roupão de seda preta, longo, com renda francesa nas bordas. O mesmo roupão que Victor havia me dado no nosso primeiro aniversário de casamento, dizendo que o contraste da seda escura com a minha pele pálida o enlouquecia. O tecido que deslizou pelos meus ombros nas noites em que ele me tomava com uma fome feroz e possessiva. Agora, envolvia o corpo frágil da mulher que havia fugido.
O sangue sumiu do meu rosto. Uma lâmina invisível perfurou o meu peito e foi arrastada lentamente para baixo, eviscerando qualquer resto de humanidade que eu ainda guardava por aquele homem.
Victor virou a cabeça e congelou ao me ver na porta.
O olhar escuro dele varreu o meu corpo pálido, a marca roxa e amarelada florescendo na minha bochecha esquerda, o cabelo desgrenhado, a postura levemente curvada pela exaustão. Por um microssegundo, vi um relance de culpa no fundo das íris negras dele. Mas o instinto de orgulho e a presença de Alice endureceram as suas feições imediatamente.
— Você deveria estar na ala médica.
A voz dele soa autoritária, fria, ecoando pelo quarto cheio de caixas. As empregadas pararam o que estavam fazendo, encolhendo-se contra a parede.
Eu não respondi a ele. Os meus olhos estavam cravados em Alice. O ódio borbulhava no meu estômago com uma força vulcânica.
— Tire isso.
A minha voz saiu num sussurro letal e arranhado. O som fez a espinha de todos naquele quarto gelar. Dei um passo para dentro.
Alice arregalou os enormes olhos azuis, encolhendo-se na poltrona e puxando as abas do meu roupão com mais força contra o peito, como se eu fosse um monstro prestes a atacá-la.
— Victor... ela está me assustando...
Ela choraminga, a voz esganiçada e trêmula, olhando para o meu marido em busca da proteção que eu havia garantido a ele com balas e sangue durante três anos.
Victor deu um passo rápido, entrando na minha linha de visão e me bloqueando, como um escudo humano para a vagabunda sentada na minha poltrona.
— Basta, Katerina. Eu mandei limpar as suas coisas e levá-las para a ala oeste. O quarto de hóspedes do fim do corredor foi preparado para você até que o prazo do divórcio expire no fim da semana.
Ele fala baixo, um rosnado de advertência.
Eu ergui o queixo, recusando-me a recuar diante da proximidade dele. O calor do corpo dele emanava na minha direção, o mesmo corpo que me aqueceu na noite em que o meu filho foi concebido, agora agindo como a muralha do meu inimigo.
— Eu disse para ela tirar a porra do meu roupão, Victor.
A minha voz subiu uma oitava, a raiva destilando em cada sílaba.
— Você pode empacotar a minha vida em caixas de papelão, pode me jogar no quarto de hóspedes que fede a mofo, mas não vai colocar a puta que te abandonou usando as roupas que você tirou do meu corpo.
O maxilar de Victor travou com tanta força que ouvi o osso estalar. O olhar dele desceu para a marca no meu rosto, um flash de tensão cruzando seus olhos antes de endurecerem em puro gelo.
— É apenas um pedaço de seda. Eu compro dez melhores para você depois. Alice sentiu frio e as malas dela ainda não foram desfeitas. Não faça um escândalo por causa de roupas, Katerina. Você está se humilhando mais uma vez.
Ele me chamava de humilhada.
Enquanto a mulher que quase engasgou no próprio vômito na escada assiste ao marido colocar a amante na cama deles. A dor no meu peito foi tão grande que perdi a capacidade de respirar por dois segundos.
Olhei sobre o ombro dele. Alice estava sorrindo. Era um repuxar de lábios mínimo, sutil, escondido atrás da xícara de porcelana, mas eu vi. Ela não estava com frio. Ela estava marcando território. Ela estava vestindo a minha pele, bebendo o meu chá, roubando o meu marido, e ele era cego demais, orgulhoso demais, desesperado demais por aquela ilusão do passado para perceber que estava trocando ouro maciço por lixo cintilante.
— Fique com a seda.
Eu disse, a voz de repente esvaziada de toda a raiva, substituída por um vazio assustador e monótono. A mudança abrupta do meu tom fez Victor piscar, confuso.
— Fique com as roupas. Fique com a cama. Fique com o quarto. O cheiro de vocês dois juntos já apodreceu este lugar.
Apertei as unhas nas palmas das mãos para impedir o meu corpo de tremer. Olhei profundamente nos olhos escuros do homem pelo qual eu vivi. O homem pelo qual eu matei.
— Espero que ela corra rápido da próxima vez que as sirenes tocarem, Victor. Porque eu não estarei aqui para parar as balas por você.
A ameaça silenciosa pairou no ar, densa e letal. Victor não respondeu, mas a respiração dele ficou pesada.
Dei as costas aos dois, passando por cima de uma caixa parda que continha as molduras de prata das nossas fotos de viagens — fotos que ele mesmo jogara no chão.







