Capítulo 5 – Cinzas de Prata

POV Katerina Sokolov

Dei as costas aos dois, passando por cima de uma caixa parda que continha as molduras de prata das nossas fotos de viagens — fotos que ele mesmo jogara no chão.

Meus pés descalços pararam abruptamente. O meu olhar desceu para o fundo do papelão. Ali, misturadas ao couro dos álbuns e aos registros de jantares de gala, estavam as fotografias do nosso casamento. O sorriso que eu exibia naquelas imagens parecia pertencer a uma estranha, uma garota tola, cega e que agora estava morta. O vidro de uma das molduras estava estilhaçado, rachando o rosto de Victor bem ao meio.

Virei o rosto lentamente na direção das três criadas que se encolhiam contra a parede do quarto. O ar ao meu redor despencou em temperatura, mas a minha presença irradiava uma ameaça absoluta. Elas tremeram, reconhecendo a fera que eu escondia sob a seda.

— Tragam o uísque do carrinho e fósforos. Queimem todas essas fotos. Principalmente as de casamento. Agora.

A minha voz saiu como um comando militar, inquestionável e letal.

As mulheres hesitaram por uma fração de segundo aterradora, os olhos arregalados buscando a permissão de Victor, mas o terror que a minha postura inspirava foi maior. Uma delas correu trêmula, destampou uma garrafa de uísque envelhecido e despejou o líquido âmbar sobre a caixa parda. A outra riscou um longo fósforo e o deixou cair.

O fogo subiu em um baque violento. As chamas alaranjadas e azuis lamberam o papelão grosso, derretendo o meu sorriso de noiva e escurecendo a prata cara. O calor bateu contra as minhas pernas nuas, mas eu não recuei um milímetro.

Ergui a minha mão esquerda em direção à luz do fogo. O diamante impecável e a faixa de ouro branco da minha aliança brilharam, zombando da minha lealdade. Agarrei o anel com os dedos da mão direita e o arranquei de uma vez, rasgando a pele do meu próprio nó do dedo pela força bruta. Sem piscar, atirei a joia diretamente no coração das chamas. A promessa de eternidade afundou no inferno que consumia a nossa história.

Girei o meu corpo nos calcanhares. A dor física e o enjoo sumiram, engolidos por uma fúria antiga e vulcânica. Eu deixei de ser a esposa submissa; eu me tornei o demônio implacável que a Bratva russa havia forjado no gelo. Fixei os meus olhos nas íris negras de Victor, que assistia ao fogo com o maxilar travado, momentaneamente paralisado pelo choque da minha rebelião indomável.

— Ah... e você me deve um tapa.

A minha frase cortou o som do fogo crepitando.

Não esperei que ele processasse a ameaça. Cruzei o espaço entre nós como um raio letal, saltando sobre a ponta da caixa em chamas. Eu não usei a palma da mão aberta. Eu fechei o punho, girei o quadril para canalizar todo o peso do meu corpo treinado, e desferi um soco devastador, direto e impiedoso contra o rosto dele.

O som do osso da minha mão colidindo contra a mandíbula dele ecoou como um tiro no quarto.

A força brutal do impacto jogou o rosto de Victor violentamente para o lado. Ele cambaleou para trás, os sapatos caros arrastando no piso de madeira enquanto ele lutava para não cair. O lábio inferior dele, a mesma boca que eu tanto amava, a boca que por mil noites me fez suspirar na escuridão, rasgou-se profundamente contra os dentes. O sangue arterial, espesso e escarlate, jorrou imediatamente, manchando o queixo forte e pingando no colarinho imaculado da camisa dele.

Alice soltou um grito estridente e aterrorizado da poltrona, encolhendo-se e cobrindo os ouvidos.

Victor levou a mão ao rosto, os olhos arregalados em pura incredulidade perante o próprio sangue molhando os seus dedos.

Agarrei a gola da camisa dele antes que ele pudesse recuperar o equilíbrio, puxando o rosto dilacerado dele para perto do meu. O cheiro ferroso do sangue dele alimentou o monstro escuro que despertava dentro do meu peito.

— Espero que valha a pena matar a única mulher que te amou a ponto de se sacrificar por você!

Eu sussurrei, as sílabas rasgando a minha garganta, o meu hálito quente batendo contra o rosto pálido dele.

Empurrei o corpo grande dele para trás com um solavanco de nojo. Victor tropeçou novamente, a respiração pesada, os olhos escuros ardendo, mas completamente mudo diante da mulher letal que ele mesmo havia libertado.

Virei o pescoço lentamente na direção da poltrona. Alice tremia incontrolavelmente, os grandes olhos azuis transbordando de lágrimas de pânico real, apertando o meu roupão contra o peito. Um sorriso sombrio, quebrado e afiado como vidro, curvou os meus lábios.

— Cuidado para ele não fechar os olhos e imaginar o meu corpo na cama quando estiver com você, querida.

Dei as costas aos dois. O fogo ardia violentamente atrás de mim, enchendo o ambiente com o cheiro da destruição, reduzindo todas as memórias, sorrisos e alianças a cinzas escuras.

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