Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Katerina Sokolov
O zumbido contínuo e rítmico de um monitor cardíaco foi a primeira coisa que perfurou a escuridão espessa da minha mente. O cheiro de álcool etílico e éter substituiu a nuvem sufocante do perfume de Alice. Quando finalmente consegui afastar o peso de chumbo das minhas pálpebras, a luz branca e estéril da ala médica subterrânea da mansão queimou as minhas retinas.
Eu estava deitada na maca de aço estofado. Um acesso intravenoso perfurava as costas da minha mão direita, bombeando soro e vitaminas diretamente para as minhas veias secas. Virei o pescoço lentamente, os músculos rígidos protestando contra o movimento.
O quarto estava mergulhado em um silêncio sepulcral. A cadeira de couro ao lado da minha cama, o lugar onde um marido preocupado deveria estar sentado segurando a minha mão, estava vazia. Intocada.
Doutor Elias, o cirurgião clandestino que trabalhava exclusivamente para o Sindicato Vance, estava de costas para mim, lavando as mãos na pia de metal. Ele era um homem velho, de ombros curvados e olhos que já haviam visto mais cadáveres do que qualquer agente funerário. Eu já havia salvado a vida do neto dele em uma extração na fronteira russa dois anos atrás. Nossa dívida de sangue era a única lealdade na qual eu ainda podia confiar dentro daquela casa.
O som do meu peito puxando o ar fez com que ele desligasse a torneira e se virasse rapidamente.
— Você acordou. Graças a Deus.
A voz dele soa aliviada e baixa, um sussurro respeitoso.
Eu tentei me sentar, mas o mundo girou perigosamente por um segundo. A minha mão esquerda voou para o meu ventre em um espasmo de puro terror. Quatro meses. O volume era imperceptível sob roupas largas devido à minha musculatura treinada, mas a vida pulsava ali.
— Meu filho...
A minha voz não passou de um ruído rasgado e patético no fundo da garganta.
Doutor Elias se aproximou a passos rápidos, segurando os meus ombros e me forçando a deitar novamente contra os travesseiros duros. Os olhos dele, cheios de compaixão afiada, encontraram os meus.
— O bebê está bem. Os batimentos estão fortes. Mas o seu corpo está no limite, Katerina. O estresse extremo, a pressão arterial despencando... Você quase sofreu um colapso total.
Soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo. Um soluço seco rasgou o meu peito, e eu cobri os olhos com o antebraço livre, sentindo a umidade quente das lágrimas que eu havia jurado não derramar nunca mais. Meu filho estava vivo. A única coisa pura que restava na minha vida miserável ainda estava a salvo debaixo do meu coração.
Abaixei o braço, encarando o teto branco. O lado esquerdo do meu rosto latejava ritmicamente, o calor da bofetada de Victor ainda marcado na minha carne.
— Onde ele está?
A pergunta saiu dos meus lábios antes que eu pudesse contê-la, uma traição do meu próprio cérebro que ainda ansiava, por um instante patético e doentio, que o meu marido tivesse me carregado escada abaixo em desespero.
Doutor Elias desviou o olhar. Ele pegou a prancheta de metal aos pés da cama, ajustando os óculos no nariz para evitar contato visual. Aquela pequena ação foi a resposta mais cruel que eu poderia receber.
— Ele a trouxe até aqui?
Eu insisti, a minha voz engrossando, o gelo voltando a rastejar pela minha espinha.
— Os guardas a trouxeram. — Ele responde afinal, o tom carregado de um pesar cauteloso. — O Sr. Vance ordenou que a deixassem aqui sob os meus cuidados. Ele precisou subir para... acalmar a Srta. Grace. Ela estava tendo uma crise nervosa por causa do vestido sujo e do... susto.
Uma risada sombria, oca e completamente desprovida de sanidade escapou da minha boca.
A crise nervosa dela. O susto dela. O vestido dela.
Eu havia desmaiado na escada da minha própria casa. Eu carregava o filho do homem que jurou proteger os seus. E enquanto eu jazia apagada, vulnerável no mármore frio, Victor Vance estava no andar de cima consolando a mulher que havia fugido, secando as lágrimas de crocodilo dela porque o tecido de grife havia sido arruinado.
Eu não era uma esposa. Eu era lixo. Eu era o tapete manchado de sangue sobre o qual ele e Alice caminhariam rumo ao felizes para sempre.
Apertei os lençóis com as mãos até os meus nós dos dedos ficarem brancos. O ódio borbulhou no meu estômago, um ácido muito mais corrosivo do que qualquer enjoo matinal. A dor lancinante do amor estilhaçado deu lugar a uma frieza mecânica, a mesma frieza que me tornara a assassina mais letal que a Bratva russa já havia treinado.
— Ele não sabe sobre a criança, Elias.
Eu não perguntei, eu afirmei. A minha voz mudou. O timbre quebrado da esposa rejeitada sumiu, substituído pela lâmina afiada da Rainha da Máfia.
O médico engoliu em seco, assentindo lentamente.
— Os exames de sangue que fiz para checar a hidratação confirmaram a gestação. Mas eu não coloquei no prontuário oficial do sistema do Sindicato. O Sr. Vance não desceu nenhuma vez para checar o seu estado, então ele não fez perguntas. Eu arquivei o desmaio como exaustão severa e desnutrição emocional.
Sentei na cama, ignorando a tontura. Arranquei o esparadrapo da minha mão e puxei a agulha do soro com um movimento seco. Uma gota de sangue carmesim brotou na minha pele pálida, e eu a limpei com o polegar.
— Mantenha assim. Se uma única palavra sobre esse bebê chegar aos ouvidos de Victor, eu garanto que você não viverá para ver o seu neto se formar.
A ameaça era real, e ele sabia disso.
— O seu segredo está seguro comigo, Katerina. Mas você precisa sair desta casa. Ele vai destruí-la aos poucos.
Olhei para as minhas mãos manchadas de sangue e sorri. Não foi um sorriso bonito. Foi o repuxar de lábios de um demônio que acabou de abrir os portões do inferno.
— Eu vou sair. Mas não antes de olhar nos olhos dele quando a coroa cair.







