Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Katerina Sokolov
O relógio de pêndulo no fim do corredor marcava três da tarde quando a primeira onda de náusea me dobrou ao meio.
Eu estava no meu closet, separando os vestidos de grife que Victor havia comprado para mim ao longo dos anos, arrumando as malas com uma lentidão anestesiada. O mundo parecia estar submerso em água fria. Quando a tontura atacou, meus dedos soltaram a seda de uma blusa escura, e eu precisei me apoiar na ilha de vidro central para não desabar. O mármore sob meus pés nus irradiava um gelo que subia pelas minhas panturrilhas, mas meu corpo queimava em uma febre surda.
A gravidez não era mais apenas duas linhas em um teste plástico; ela agora exigia espaço, drenando minhas forças, sugando a vitalidade de uma mulher que costumava ser inquebrável. Respirei fundo, engolindo a saliva espessa, tentando acalmar o estômago que se contorcia violentamente.
Foi então que o som pesado dos pneus blindados esmagando o cascalho da entrada principal ecoou pela propriedade.
Meu coração falhou uma batida. Eu congelei, a mão instintivamente repousando sobre o ventre ainda plano. Ele havia chegado. Ele a havia trazido para a minha casa.
O som das pesadas portas duplas de carvalho se abrindo reverberou pelas paredes da mansão. Cada passo que ecoava no andar de baixo soava como o bater de um martelo em um caixão. O meu caixão. Ajustei a postura, forçando a espinha a se endireitar. Eu não me permitiria rastejar. Caminhei até a escadaria principal de mármore branco, meus passos silenciosos como os de um fantasma assombrando o próprio lar.
Do topo da escada, eu os vi.
Victor Vance estava no centro do saguão, o sobretudo negro pendendo dos ombros largos, a postura rígida de um imperador. E, agarrada ao braço dele, como uma hera parasita disfarçada de flor, estava Alice.
Ela era exatamente como as fotos que eu havia encontrado na gaveta trancada do escritório dele anos atrás. Cabelos loiros perfeitos, pele de porcelana imaculada, os olhos grandes e assustados de quem nunca precisou olhar para o cano de uma arma. Ela usava um vestido de grife em tom pastel, parecendo deslocada e frágil no meio da Nova Jersey brutal do Sindicato Vance.
Mas foi o cheiro que me atingiu primeiro.
Antes mesmo que eles me notassem, o perfume dela subiu pela escadaria. Uma mistura enjoativa de jasmim excessivamente doce com notas de baunilha artificial. O odor invadiu minhas narinas, impregnando o oxigênio ao meu redor, e o meu estômago vazio deu um salto violento. Fechei os olhos por uma fração de segundo, engolindo a bile amarga que subiu pela minha garganta.
Comecei a descer os degraus, lenta e deliberadamente.
O som do meu salto ecoou no mármore. Victor ergueu o olhar. Seus olhos escuros, que outrora me buscavam na escuridão para encontrar conforto, agora estavam duros, defensivos e irritados com a minha presença. Alice se encolheu contra o corpo dele, um movimento tão ensaiado e patético que me deu vontade de rir, se a dor no meu peito não estivesse me rasgando viva.
— Oh, Victor...
A voz dela era um sussurro trêmulo e agudo, desenhado para evocar pena. Os grandes olhos claros dela pousaram em mim, arregalados, brilhando com lágrimas que não chegaram a cair.
— Eu não quero causar problemas. A sua esposa... ela deve me odiar. Eu não deveria estar aqui, eu sou um fardo...
Ela se encolheu ainda mais, apertando o tecido do paletó dele. A falsa doçura pingava de cada sílaba, um veneno disfarçado de mel que qualquer pessoa treinada no submundo identificaria em um segundo. Mas Victor, o homem que lia mentes criminosas e desvendava conspirações antes do café da manhã, estava completamente cego. Ele colocou a mão protetora sobre os dedos dela, lançando-me um olhar de puro aviso.
Parei no último degrau, mantendo a elevação que me deixava na altura dos olhos do meu marido. O perfume de Alice agora era uma nuvem tóxica ao meu redor. Minha cabeça girou, o enjoo apertando minha garganta, mas eu me recusei a fraquejar.
— Você não é um fardo, Alice.
A voz de Victor soou firme, protetora, um tom que ele nunca usou quando eu costurava os próprios ferimentos à noite para não preocupar os médicos da casa.
— Esta é a sua casa agora. Ninguém vai incomodar você.
O sorriso triste e angelical que Alice direcionou a mim foi a gota d'água. Era um olhar de vitória disfarçado de submissão.
O sangue quente siberiano ferveu nas minhas veias. A dor de três anos de devoção cega colidiu com o nojo absoluto que eu sentia daquela cena. Olhei diretamente nos olhos claros e falsos da mulher que havia fugido para a Europa quando a guerra das máfias estourou, deixando Victor para morrer sozinho.
— Eu sou a sua substituta, não se preocupe.
A minha voz saiu letal, suave e banhada em sarcasmo puro, rasgando a tensão do saguão. Alice ofegou, dando um passo para trás.
— Eu esquentei bem a cama para você enquanto você fugia para salvar a própria pele. O colchão ainda tem a minha marca, mas tenho certeza de que ele manda trocar os lençóis hoje mesmo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem mesmo os seguranças armados nas portas ousaram respirar.
O rosto de Victor escureceu. Uma tempestade violenta tomou conta das feições dele. A veia em seu pescoço saltou, e antes que o meu cérebro treinado pudesse registrar a ameaça, a mão pesada de Victor Vance cortou o ar.
O estalo foi ensurdecedor.
A força do tapa jogou meu rosto para o lado com uma violência brutal. O impacto estalou no meu maxilar, a dor explodindo na minha maçã do rosto e irradiando até a nuca. O mundo perdeu o foco por um segundo inteiro. O gosto metálico e quente de ferro inundou a minha boca quando os meus dentes rasgaram a parte interna da minha bochecha.
Eu pisquei, atordoada. Meu rosto queimava sob a marca vermelha e vibrante dos dedos do meu marido.
Eu já havia levado tiros. Já havia sido esfaqueada protegendo o território dele. Já havia apanhado de interrogadores de sindicatos inimigos sem derramar uma única lágrima. Mas aquele tapa... Aquele tapa desmoronou as últimas paredes do meu coração.
Virei o rosto lentamente de volta para ele.
Victor estava com a respiração ofegante, a mão ainda erguida no ar, os olhos arregalados por uma fração de segundo antes que a frieza retornasse. Ele parecia chocado com a própria ação, mas a presença de Alice ao seu lado cimentou o orgulho estúpido dele.
Cuspi uma gota de sangue no chão de mármore imaculado, bem aos pés de calçados caros dele.
— Três anos na sua cama... — A minha voz saiu rouca, trêmula pela fúria crua e pela dor devastadora que rasgava a minha alma em tiras. As lágrimas queimaram atrás dos meus olhos, mas eu as forcei a recuar. — Salvando a sua vida... Levando os tiros que eram para você. Como você ousa bater em mim por essa vagabunda que te abandonou na primeira oportunidade?
O rosto de Alice ficou escarlate. Ela abriu a boca, soluçando dramaticamente e escondendo o rosto no peito de Victor.
— Como você ousa falar com ela assim? — Victor rosnou, dando um passo em minha direção, os punhos cerrados. — Você não é nada além de um contrato, Katya. Olhe para você! Agindo como um animal raivoso!
Ele não via a mulher que o amava. Ele não via a mãe do filho dele. Ele via um cão de guarda que havia saído da coleira.
O esforço de gritar, a dor esmagadora do coração partido, o estresse insuportável no meu corpo exausto e, acima de tudo, o perfume repugnante de baunilha de Alice, finalmente venceram a minha resistência de ferro.
O meu estômago deu um solavanco violento e incontrolável.
Eu tentei virar o rosto, tentei engolir, mas o enjoo da gravidez bateu com a força de um caminhão desgovernado. Antes que Victor pudesse dar mais um passo ameaçador, a bile ácida subiu pela minha garganta e eu vomitei.
O líquido caiu espirrando violentamente, sujando não apenas o chão brilhante, mas também os sapatos de camurça italianos de Victor e a barra do vestido pastel impecável de Alice.
Um grito agudo de horror escapou dos lábios da rival. Ela pulou para trás, balançando as mãos no ar como se tivesse sido banhada em ácido.
— Victor! Meu vestido! Ela... ela é nojenta!
Ela choramingou, o sotaque doce desaparecendo sob o tom estridente de repulsa.
Eu limpei a boca com as costas da mão, ofegando, o corpo inteiro tremendo enquanto o suor frio ensopava a minha nuca. A sala girava ao meu redor, as luzes do lustre de cristal fundindo-se em manchas brilhantes.
A expressão de Victor não era de preocupação. Era de puro nojo e ódio gélido.
— Você perdeu completamente a cabeça. — Ele sibilou, os olhos escuros fuzilando a minha figura pálida e curvada. Ele acreditava, com toda a convicção de sua mente distorcida, que eu havia feito aquilo de propósito. Como uma criança mimada intimidando a nova convidada. — Limpe essa sujeira e saia da minha frente. Você me dá nojo.
O golpe invisível foi mil vezes pior do que o tapa físico. Você me dá nojo. As palavras ecoaram dentro da minha cabeça, batendo contra as paredes do meu crânio. Eu não tentei explicar. Não gritei que estava carregando a semente dele. Eu apenas olhei para ele, os meus olhos vazios, mortos, refletindo o cadáver da mulher apaixonada que acabou de ser sepultada ali, naquele saguão.
Dei as costas a eles.
Ergui o pé direito, pisando no primeiro degrau da escadaria. A perna pareceu pesar cem quilos. O suor escorria pelo meu rosto gelado, misturando-se com o resquício das lágrimas que eu havia recusado derramar.
Tentei dar o segundo passo.
O ar desapareceu dos meus pulmões. Um zumbido agudo e elétrico tomou conta da minha audição, abafando os protestos estridentes de Alice e os comandos secos de Victor aos empregados. A escuridão invadiu a minha visão periférica, fechando-se como uma cortina de veludo negro.
Minha mão perdeu a força no corrimão de mogno. Os meus joelhos cederam de uma vez. O impacto do corpo contra a dureza do mármore foi a última coisa que senti antes que o vazio absoluto e misericordioso me engolisse por completo.







