Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara acordou com o sol batendo em seu rosto, algo que nunca acontecia no quarto de hóspedes voltado para o sul. Mas hoje, ela não estava no quarto de hóspedes. Ela estava na suíte master, ocupando o centro da cama king size de Ricardo, cercada por lençóis de seda preta que cheiravam a sândalo e ausência.
Ao lado dela, no criado-mudo, havia um prato com migalhas de bolo de chocolate e uma taça de champanhe vazia. O café da manhã dos condenados.
Ela se espreguiçou, sentindo uma dor aguda na base do crânio, um lembrete constante de que seu tempo estava correndo. O relógio biológico não tiquetaqueava mais para a maternidade, mas para o fim.
— Oitenta e nove dias — ela sussurrou para o teto alto.
Ela se levantou e caminhou até o closet de Ricardo. Era um espaço imenso, organizado por cores, cheio de ternos italianos feitos sob medida que custavam mais do que a educação universitária de muita gente. Do outro lado, estava o espaço dela: uma fileira triste de vestidos bege, cinza e branco. Roupas de "esposa troféu", discretas, elegantes e completamente sem vida.
Clara passou a mão pelos tecidos neutros. Ela odiava bege. Bege era a cor da submissão.
— Lixo — ela disse, puxando um vestido de linho cru do cabide e jogando-o no chão. — Lixo. Lixo. Lixo.
Em um acesso de fúria metódica, ela arrancou todas as roupas do armário. Vestidos de gala, tailleurs de reuniões beneficentes, camisolas de algodão puritano. Tudo foi para o chão, formando uma montanha de tecido morto.
Ela ficou nua diante do espelho de corpo inteiro. Seu corpo era magro, pálido, mas ainda jovem. As curvas estavam lá, escondidas sob camadas de decoro.
Ela foi até o cofre embutido na parede. A senha era a data do casamento deles. Patético. Dentro, havia maços de dinheiro, passaportes e, brilhando como uma promessa de vingança, o cartão de crédito Black Centurion de Ricardo. O cartão sem limites. O cartão que ele usava para comprar empresas, jatos e silêncio.
Clara pegou o cartão. O metal era frio contra sua pele.
— Vamos ver o quanto você vale, Ricardo — ela murmurou, um sorriso perigoso curvando seus lábios.
Duas horas depois, Clara desceu de um Uber Black na frente do shopping mais exclusivo da cidade, o Cidade Jardim. Ela usava um jeans antigo e uma camiseta branca, a única coisa que salvou do expurgo. As vendedoras da Dior a olharam com aquele desdém treinado, avaliando suas roupas simples e julgando que ela não poderia pagar nem por um chaveiro.
— Posso ajudar? — uma vendedora perguntou, bloqueando sutilmente a entrada para a seção de alta costura. — A coleção de promoção fica no andar de baixo.
Clara não respondeu. Ela caminhou direto para um manequim que exibia um vestido vermelho sangue, de seda pura, com uma fenda que subia até a coxa e um decote nas costas que era um convite ao pecado.
— Eu quero esse — Clara disse. — E aquele preto de lantejoulas. E os sapatos de sola vermelha da vitrine.
A vendedora soltou uma risada anasalada.
— Senhora, essas peças são exclusivas. O vestido vermelho custa trinta mil reais. Talvez a senhora prefira…
Clara sacou o cartão Black do bolso traseiro do jeans e o segurou entre dois dedos, como uma arma carregada. O brilho do titânio fez os olhos da vendedora arregalarem. O desdém desapareceu instantaneamente, substituído por uma ganância servil.
— Ah, perdão, senhora Albuquerque! Não a reconheci! — A vendedora gaguejou, reconhecendo o sobrenome no cartão. — Por favor, sente-se. Champanhe? Água Perrier?
— Champanhe — Clara ordenou, sentando-se na poltrona de veludo. — E traga tudo o que tiver em vermelho, preto e dourado. Nada de bege. Se eu vir uma peça bege, eu vou embora e levo a comissão de vocês para a Chanel do outro lado do corredor.
Nas quatro horas seguintes, Clara não comprou roupas; ela comprou uma nova identidade. Vestidos que abraçavam cada curva, lingeries de renda francesa que custavam o preço de um carro popular, sapatos que eram obras de arte arquitetônicas.
Ela gastou duzentos mil reais em uma tarde.
Quando saiu da loja, vestindo o vestido vermelho sangue e os saltos agulha, deixando suas roupas velhas no lixo do provador, ela não era mais a esposa invisível. Os homens paravam para olhar. As mulheres cochichavam. Ela era poder puro.
O celular vibrou no bolso da bolsa nova. Uma notificação do banco. Mas não era Ricardo. Ele provavelmente tinha silenciado as notificações de gastos "pequenos".
— Ainda não é o suficiente — Clara pensou, olhando para o reflexo de uma mulher fatal na vitrine. — Preciso de algo que faça o celular dele gritar.







