Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio que se seguiu à destruição foi mais pesado do que o barulho. Pedaços de cristal brilhavam no chão como diamantes falsos, misturados às lascas da madeira nobre que sobrevivera a guerras e revoluções, mas não sobrevivera à fúria de uma esposa cansada.
Dona Elvira estava paralisada, a boca aberta em um "O" perfeito, o rosto pálido sob a maquiagem pesada. A taça de xerez escorregou de seus dedos e caiu no tapete persa, manchando a lã clara de marrom escuro, mas ela nem notou.
— Você… — Elvira gaguejou, a voz tremendo de uma raiva incrédula. — Você destruiu… Você tem ideia de quanto isso custava? Ricardo vai matar você. Ele vai te expulsar desta casa com a roupa do corpo!
Clara respirava fundo, o peito subindo e descendo rapidamente. A dor de cabeça ainda estava lá, mas agora parecia distante, abafada pela onda de poder que corria por suas veias. Pela primeira vez em três anos, ela não sentia medo.
Ela caminhou por cima dos cacos, o som de vidro sendo esmagado sob seus saltos agulha ecoando como música. Ela parou a centímetros do rosto da sogra.
— Ele pode tentar — Clara disse, a voz baixa e letal. — Mas até ele voltar, quem manda nesta casa sou eu.
— Você? — Elvira riu, um som histérico. — Você não é nada! Você é uma agregada! Uma caridade que meu filho fez! Eu sou a matriarca desta família!
— Não mais — Clara respondeu. — Esta casa está no meu nome também, Elvira. Comunhão de bens, lembra? O acordo que seu filho fez para garantir que meu pai não abrisse a boca sobre as fraudes fiscais da empresa dele anos atrás?
Os olhos de Elvira se estreitaram. Era um segredo sujo que ninguém mencionava.
— Como você ousa…
— Eu ouso tudo agora — Clara a cortou. — E a primeira coisa que eu ouso é limpar o lixo desta casa. E não estou falando do pó.
Clara apontou para a porta principal, maciça e imponente.
— Saia.
Elvira piscou, confusa.
— O quê?
— Saia da minha casa. Agora. — Clara aumentou o tom de voz, que reverberou pelas paredes de pedra. — Pegue sua bolsa, seu xerez barato e saia. Se eu vir você aqui em dez minutos, vou quebrar a cristaleira da sala de jantar. Peça por peça.
— Você não pode fazer isso! Eu moro aqui! Ricardo quer que eu more aqui para vigiar você!
— Exatamente. E eu cansei de ser vigiada. — Clara pegou o celular do bolso. — Vou começar a contar. Um…
Elvira olhou para Clara, depois para os destroços da cômoda, e viu algo nos olhos da nora que nunca tinha visto antes: a ausência total de limites. O medo, pela primeira vez, mudou de lado.
— Você vai se arrepender disso, sua ingrata! — Elvira gritou, recuando em direção à porta, tropeçando no tapete. — Vou ligar para Ricardo agora mesmo! Ele vai internar você em um manicômio!
— Mande lembranças a ele — Clara disse, fria. — E diga a ele para não se apressar em voltar. Estou apenas começando a redecorar.
Elvira saiu batendo a porta com tanta força que as janelas vibraram.
Clara ficou sozinha no hall destruído. O silêncio voltou, mas agora não era o silêncio da solidão. Era o silêncio da vitória.
Ela olhou para o reflexo no espelho do corredor. O cabelo estava bagunçado, a maquiagem borrada, mas ela parecia mais viva do que nunca.
— Noventa dias — ela sussurrou para seu reflexo. — Vamos fazer valer a pena.
Ela pegou o telefone fixo da casa e discou o número da cozinha.
— Maria? — ela chamou a cozinheira chefe. — Sim, sou eu. Jogue fora a sopa de aspargos. E o jantar de hoje. Quero que você prepare algo diferente.
— O que a senhora deseja, Dona Clara? — A voz da cozinheira soava trêmula, provavelmente tendo ouvido os gritos.
— Lagosta. Champanhe. E traga aquele bolo de chocolate que o Ricardo proíbe de entrar na casa por causa da dieta dele. Vou comer o bolo inteiro na cama dele. E Maria?
— Sim, senhora?
— Se a Dona Elvira tentar entrar no portão, solte os cachorros.







