Mundo ficciónIniciar sesiónDo outro lado do mundo, a doze mil metros de altitude, o jato executivo Gulfstream G650 cortava a escuridão do céu noturno sobre o Atlântico, iniciando os procedimentos formais de descida em direção à metrópole de São Paulo.
Dentro da cabine pressurizada de altíssimo luxo, Ricardo Albuquerque estava sentado em sua poltrona executiva de couro italiano, massageando as têmporas em um gesto de pura exaustão e irritação. Ele não deveria estar naquele avião. Aquele voo não estava nos seus planos. Ele deveria estar no topo de um arranha-céu em Tóquio, brindando com executivos asiáticos e selando o contrato do século para a holding da família.
Mas uma ligação histérica e descontrolada de sua mãe, recebida cerca de seis horas atrás, mudara o rumo de tudo.
"Ela enlouqueceu de vez, Ricardo! A garota simplesmente destruiu a cômoda francesa Luís XV de estimação! Me expulsou da mansão como se eu fosse uma invasora qualquer! Você precisa voltar agora mesmo e mandar internar essa louca em uma clínica!"
Os gritos estridentes e descontrolados de Elvira ainda ressoavam na mente de Ricardo como um zumbido incômodo. Por causa daquela crise doméstica absurda, ele fora forçado a pedir desculpas formais aos investidores japoneses, alegando uma "emergência familiar crítica e inadiável", e transferir o restante da reunião decisiva para uma videoconferência criptografada que conduzira durante o próprio voo.
Ricardo não estava retornando ao Brasil por amor, preocupação ou remorso. Ele estava voltando por controle.
Clara havia quebrado as cláusulas implícitas do contrato silencioso que mantinham há três anos: ser uma esposa invisível, dócil, obediente e perfeitamente polida perante a alta sociedade. Destruir antiguidades valiosas e colocar sua mãe para fora de casa era, na visão dele, apenas um pedido de atenção desesperado — uma birra infantil e patética de uma mulher solitária que ele precisava punir com frieza, lógica e autoridade antes que o escândalo vazasse e manchasse a reputação da família nos colunismos sociais.
— Senhor Albuquerque, pousaremos dentro de vinte minutos — a voz pausada do piloto ecoou suavemente através do sistema de interfone da cabine. — O sinal de rede celular e dados já deve estar disponível nas telas.
Ricardo soltou um suspiro pesado, pegou o smartphone de última geração sobre a mesa de mogno e desativou o Modo Avião.
O aparelho vibrou violentamente em sua mão, disparando uma enxurrada contínua de e-mails, chamadas perdidas e mensagens represadas que entraram de uma só vez. Ele ignorou sem hesitar as dezenas de recados histéricos da mãe e foi direto para as notificações de segurança do banco corporativo, que sempre tinham prioridade absoluta em sua rotina financeira.
O painel exibia uma sequência de compras aprovadas em valores absurdos, realizadas em estabelecimentos de alto padrão que ele nunca vira antes. Ricardo ergueu as sobrancelhas, considerando por um breve instante que o cartão adicional entregue à esposa tivesse sido clonado ou roubado por criminosos. Afinal, Clara era uma mulher tímida e comedida que jamais utilizara o limite do cartão sem pedir sua permissão prévia.
No entanto, seus olhos focaram na notificação seguinte do aplicativo bancário e, por um segundo inteiro, Ricardo esqueceu como respirar.
Banco Central: Transação Aprovada. R$ 20.000,00. Estabelecimento: Boate Pandora - Serviços de Acompanhante. Titular: Cartão Adicional (Clara Albuquerque).
O sangue nas veias de Ricardo gelou em um primeiro momento e, no segundo seguinte, ferveu em uma onda avassaladora de fúria.
Não era uma compra de roupas de marca, joias ou um carro importado. Não era um gasto em um spa de luxo. Era uma boate clandestina no centro decadente da cidade. E a descrição na fatura era explícita: "Serviços de acompanhante".
A imagem mental de Clara — sua esposa tímida, reservada, dócil e puritana — em uma boate suja e sombria, pagando com o seu próprio dinheiro por um homem, atingiu o ego colossal de Ricardo com a violência estilhaçante de um trem de carga em alta velocidade. A irritação fria e calculada que ele sentia pelas queixas da mãe desapareceu no mesmo instante, sendo completamente substituída por algo primitivo, escuro, possessivo e violento.
Os nós de seus dedos ficaram brancos pela força com que ele apertava o aparelho metálico na mão.
— Mude a rota do carro imediatamente — rosnou Ricardo para o chefe de sua segurança pessoal, que viajava sentado na poltrona à sua frente. — Nós não vamos para a mansão.
O segurança ajeitou a postura, surpreso com o tom sombrio na voz do patrão.
— Para onde o senhor deseja ir, senhor Albuquerque?
Ricardo olhou fixamente para a tela do celular, onde o nome Boate Pandora brilhava em letras garrafais.
— Para o centro. Para a Boate Pandora — disse ele, a voz baixa e tremendo de raiva contida. — Entre em contato com a equipe de escolta que está nos aguardando na pista. Quero quatro carros blindados nos seguindo e a equipe de segurança pronta para isolar a entrada do local. Eu vou entrar naquele inferno chutando a porta.
O jato executivo tocou a pista de pouso com um estalo seco dos pneus contra o asfalto. Apenas dez minutos depois, a frota de SUVs pretos de Ricardo cortava as avenidas da cidade em alta velocidade, furando sinais vermelhos e abrindo caminho na noite fria de São Paulo.
Dentro do banco traseiro do veículo principal, Ricardo ajustou os punhos do terno, o olhar fixo na janela enquanto observava as luzes da cidade darem lugar aos becos escuros e decadentes do centro urbano. Ele nunca pisara naquele tipo de bairro. A simples ideia de sua esposa estar dentro de um ambiente sórdido daquele, sendo tocada por outro homem e usando o seu sobrenome e seu cartão, fazia suas mandíbulas se contrairem até doer.
Ele não apenas traria Clara de volta para casa; ele destruiria qualquer um que tivesse ousado olhar para ela naquela noite.
Quando os SUVs pretos frearam bruscamente na ruela estreita e mal iluminada, os refletores dos carros iluminaram a fachada decrépita da Boate Pandora, onde letreiros em neon vermelho piscavam na escuridão.
Ricardo desceu do veículo sem esperar pelos seguranças, ajustou o paletó e caminhou com passos pesados em direção à entrada da boate, pronto para arrancar Clara daquele lugar antes que ela cometesse o erro de ir para a cama com outro homem.







