Mundo de ficçãoIniciar sessãoMARIA JULIA RODRIGUES
— Chefe, o que fazemos com ela? A voz do soldado cortou o ar pesado do beco como uma lâmina. Eu ainda estava ajoelhada na lama fria, o corpo tremendo da chuva, da corrida e do tapa que aquele homem havia me dado minutos antes. Meu rosto ardia no lugar onde ele havia me acertado. O canto da boca ainda tinha gosto de sangue. Eu levantei o olhar devagar. Olhando para o maldito homem de terno escuro — ele me encarava com o mesmo olhar frio que eu o tinha visto, encarar, o corpo daquele homem após executa-lo a sangue frio — me observava com aqueles olhos castanhos escuros profundos. E aparentemente não tinha pressa. Parecia estar decidindo meu destino como se fosse um Deus cruel. E talvez fosse. Para mim, naquele momento, ele era. Meu coração martelava tão forte que eu mal conseguia respirar. Dudu. Meu irmãozinho estava sozinho naquele apartamento apertado, esperando por mim. Ele devia estar com medo, talvez chorando baixinho como fazia quando eu demorava demais. E agora esse monstro queria trazê-lo para isso? O homem me encarou por longos segundos. A chuva escorria pelo cabelo castanho dele, mas ele não parecia se importar. Seu terno caro estava molhado, colado ao corpo forte, marcando os ombros largos e o peito definido. Ele era perigosamente bonito. O tipo de beleza que escondia o diabo por dentro. — Tragam ela — disse ele finalmente, a voz grave e autoritária. — E o garoto também. As palavras caíram sobre mim como uma sentença de morte. — Não! — gritei, a voz saindo rouca e desesperada. Tentei me levantar, mas um dos soldados me empurrou de volta para o chão. — Deixa ele fora disso! Ele é só uma criança! Por favor! Ele não viu nada, não sabe de nada! Eu faço o que você quiser, mas deixa o Dudu em paz! Minha voz falhou no final. Lágrimas quentes misturavam-se à chuva fria no meu rosto. Eu me sentia impotente, pequena, quebrada. Havia fugido do Brasil exatamente para proteger meu irmão de monstros como esse. E agora eu tinha entregado nós dois de bandeja para um deles. Ele se aproximou devagar. Cada passo ecoava no beco molhado. Os outros três homens ficaram em silêncio, apenas observando. Quando ele parou na minha frente, agachou-se novamente e segurou meu queixo com aqueles dedos firmes, forçando-me a olhar para ele. Seu rosto estava perto demais. Eu sentia o cheiro dele — perfume masculino caro. Ele aproximou a boca do meu ouvido e sussurrou, a voz baixa e perigosa, enviando arrepios por toda a minha espinha: — Você viu o que não devia. Agora me pertence. O hálito quente dele contrastava com a chuva fria. Por um segundo, meu corpo traiu minha mente. Um calafrio desceu pela minha nuca, misturado a algo mais antigo, mais profundo. Uma necessidade que eu odiava admitir. Fazia muito tempo que um homem não me tocava. Fazia muito tempo que eu não permitia que ninguém se aproximasse. E agora esse desconhecido, esse assassino, despertava algo dentro de mim que eu pensava ter enterrado junto com meu passado no Brasil. Os homens riram atrás dele. Risadas baixas, cúmplices, cheias de segundas intenções. Um deles murmurou algo sobre “a nova diversão do chefe”. Meu estômago revirou. Eu ainda não sabia o nome dele. Não sabia quem ele era. Mas pelo jeito como me olhava — como se eu fosse uma presa que ele queria devorar devagar —, eu podia imaginar exatamente o que ele queria de mim. E isso me aterrorizava... e, de uma forma doentia, me excitava também. Meu corpo reagia contra a minha vontade. Os mamilos endureceram sob a blusa molhada. Um calor traiçoeiro se espalhou entre minhas pernas. “Que merda é essa, Maju? Esse homem matou alguém na sua frente!” Tentei me afastar, mas ele segurava meu queixo com força. Seus olhos desceram para minha boca machucada, depois para o piercing no nariz, e continuaram descendo pelo meu corpo. Eu me sentia nua apesar das roupas molhadas. — Por favor... — sussurrei, a voz fraca. — Meu irmão é tudo que eu tenho. Ele é inocente. Eu roubo carros pra gente sobreviver, só isso. Eu não sou espiã, não trabalho pra ninguém. Eu juro pela minha vida. Ele não respondeu imediatamente. Apenas me observava. Havia algo diferente no olhar dele agora. Não era só desejo. Havia curiosidade. Quase... interesse humano. Um dos soldados pigarreou: — Chefe, o garoto está no apartamento dela, a poucas quadras daqui. Vamos buscá-lo? Ele assentiu sem tirar os olhos de mim. — Tragam o menino. Vivo e ileso. Se alguém tocar um dedo nele, eu mesmo arranco a mão. As palavras deveriam ter me acalmado, mas só aumentaram meu pânico. Eles iam levar Dudu. Meu irmãozinho ia ser arrastado para o mundo desse homem. Um mundo de sangue, poder e escuridão. Enquanto os soldados me levantavam e me arrastavam em direção ao SUV, eu olhei para ele uma última vez. Ele se levantou, ajustando o terno como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de destruir duas vidas. Eu não sabia o que o futuro reservava. Mas uma coisa eu tinha certeza: a partir daquela noite, eu não era mais livre. Eu pertencia a ele. E isso me assustava mais do que qualquer bala. Enquanto me empurravam para dentro do carro, eu fechei os olhos e fiz uma promessa silenciosa. Eu ia sobreviver. Ia proteger Dudu. E, de alguma forma, ia encontrar uma maneira de escapar desse homem... mesmo que uma parte traidora de mim já quisesse descobrir até onde ele iria me levar.






