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CAPÍTULO 5: A LIGAÇÃO QUE MUDOU TUDO

RUGGERO D’ANGELO

Eu francamente não entendi a minha própria reação. Nem meus homens pareciam entender. Quando os soldados jogaram a ladra aos meus pés e a luz do poste iluminou seu rosto, eu senti algo que raramente sinto: surpresa misturada com desejo bruto.

A desgraçada era linda como um demônio. Ajoelhada ali na lama, com aquela cabelo castanho cacheado e curto grudado no rosto, piercing no nariz, traços delicados e aquela boca perfeita... Porra. Minha cabeça viajou direto para o pau. Imaginei aqueles lábios inchados ao meu redor, imaginei marcando aquela pele morena, dobrando aquele corpo pequeno e feroz. Ela era como uma pintura viva, selvagem, fora do lugar naquele beco sujo de Scampia.

Eu já pensava em dar um tiro na cabeça dela. Testemunhas não sobrevivem. Mas primeiro precisava matar aquele desejo que a putinha havia acendido em mim. “Só por isso”, repeti para mim mesmo, tentando me convencer. Depois eu a mataria. Primeiro, eu precisava disso.

Quando os soldados tentaram colocá-la dentro do SUV, ela começou a espernear como uma gata selvagem, chutando e se debatendo.

— Qual é, seus idiotas? Não dão conta de uma garota desse tamanho? — rosnei, irritado. Ela mal devia ter 1,65m.

— Me larga, seu idiota! Vocês não sabem com quem mexeram! Meu namorado é muito perigoso, ele vai acabar com todos vocês! — gritou ela, voz rouca de desespero.

Eu ri baixo, mas o som saiu frio. Segurei ela pelos cabelos curtos com força, puxando sua cabeça para trás e encostando o cano frio da pistola no seu rosto delicado e rosnei em italiano.

— Chiudi quella cazzo di bocca o te la chiudo io con un proiettile. (Fecha essa boca de merda ou eu fecho com uma bala.)

Ela parou de se debater por um segundo, os olhos castanhos cheios de fogo e medo. Eu pressionei o cano contra sua bochecha.

— Come ti chiami? (Como você se chama?)

Ela ficou calada de repente, respirando rápido. Isso me irritou ainda mais.

— Merda! Quando não é pra falar, você fala como um demônio. Quando eu pergunto, você se cala? Fale logo, porra! Qual é o seu nome?

— Maju. Eu me chamo Maju, seu maldito — respondeu ela com tanta petulância que quase ri. A garota tinha coragem, isso eu tinha que admitir. Estava ajoelhada, suja, cercada por homens armados, e ainda me enfrentava.

Foi quando ouvi a vibração fraca. O celular dela tocava dentro do bolso da calça jeans molhada. Eu tentei pegar. Maju se debateu violentamente, mesmo com os braços presos pelos meus soldados, a maldita mordeu meu antebraço como uma cadela raivosa.

— Não! Não toque! — gritou ela.

Aborrecido, dei um tapa forte no rosto dela. O som ecoou no beco. Sua cabeça virou para o lado e um filete de sangue escorreu do canto da boca. Eu odiei ter machucado aquele rostinho delicado. "Droga. Maldição. Por que eu me importava?"

Ela me encarou. Dessa vez, o medo no olhar dela era maior, mais profundo, como se eu tivesse tocado em algo muito pior que a morte.

Respirei com dificuldade. Limpei o sangue do canto da boca dela com a ponta dos dedos. Maju desviou o rosto, aborrecida. Peguei o celular do bolso dela e a tela acendeu.

Na foto de fundo, um menino sorridente de cerca de 7 anos, cabelos bagunçados, olhar inocente.

Eu atendi.

Maju se jogou contra mim com toda força, mesmo sendo segurada.

— Dudu! Corre! Se esconde! Eles me pegaram! — gritou ela desesperada.

A voz infantil desesperada saiu do telefone:

— Maju! Não! Não deixa eles te levarem! Corre deles! Vem me buscar!

Algo dentro do meu peito frio se mexeu. Uma criança. Uma criança de verdade. Não era filho dela, pelo menos não parecia. Mas o desespero na voz dela e o medo puro do menino me atingiram de um jeito que eu não esperava.

Eu arranquei o telefone da mão dela com facilidade.

— Quem é a criança? Seu filho? — perguntei, a voz mais rouca do que eu gostaria.

Só de imaginar que ela pudesse ter um filho pequeno, algo estranho revirou dentro de mim. Algo que eu não sabia explicar.

Ela se calou, lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Fala, porra! — gritei, perdendo a paciência.

— Por favor... ele é só meu irmão — implorou Maju, a voz falhando, lágrimas misturando-se à chuva. — Ele tem só sete anos. Não tem ninguém além de mim. Por favor, não faz nada com ele...

Eu fiquei em silêncio, observando-a ajoelhada na minha frente. O sangue no canto da boca dela, o olhar baixo misturado ao desespero materno, a forma como ela tremia mas ainda tentava proteger o irmão.

Meus homens esperavam ordens, confusos. Eu olhei para o celular, para a foto do menino chamado Dudu, e depois para ela.

Pela primeira vez em muito tempo, eu hesitei.

Matar ela agora seria fácil. Limpo. Rápido. Mas algo naquela garota — Maju — e naquela criança me impediu. Uma ladra brasileira linda de boca suja... estava mexendo comigo.

— Maledizione! (maldição)

Guardei o celular no meu bolso.

— Tragam ela e encontrem o garoto — ordenei aos soldados. — Os dois vêm comigo.

Maju começou a chorar mais alto, implorando, mas eu já tinha tomado minha decisão.

Ela agora me pertencia. E, pelo visto, o irmão também.

Esta noite tinha acabado de ficar muito mais interessante.

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