Mundo de ficçãoIniciar sessãoMARIA JULIA RODRIGUES
Eu me esgueirei atrás do tecido, o coração batendo tão forte que parecia querer explodir. A chuva caía sem parar, encharcando minhas roupas e colando meus cabelo cacheado ao rosto. Tentei acalmar a respiração, mas era impossível. “Merda, merda, merda!” pensava sem parar. Dudu estava sozinho no apartamento apertado, esperando por mim. Ele devia estar com fome, assustado, desenhando o que mais amava “carros”. Eu não podia morrer, não hoje. Não desse jeito. Olhei desesperada ao redor, procurando uma saída. Vi uma casa velha com a porta da cozinha entreaberta. Luz amarela fraca escapava para o beco. Era minha chance. Corri abaixada, o mais silenciosa possível, mas meu pé tropeçou em um vaso de flores velho que estava no caminho. O vaso caiu e se espatifou no chão com um barulho alto que ecoou na noite. — Merda! — sussurrei. Imediatamente ouvi passos correndo. Dois soldados apareceram de um lado, o terceiro veio por trás. Eles me cercaram rápido como lobos. Tentei lutar. Dei uma cotovelada forte no estômago do mais próximo. O homem grunhiu de dor e se curvou, mas o terceiro me agarrou pelos cabelos com força brutal, puxando minha cabeça para trás. — Pegamos o garoto! — gritou ele, triunfante. Eu esperneava, chutava, mordia. Mas era inútil. Eles eram muito maiores, muito mais fortes. Me arrastaram de volta pelo beco molhado, meus pés mal tocando o chão. Meu casaco rasgado deixava a pele exposta à chuva fria. Eles me jogaram aos pés do homem de terno. Caí de joelhos na lama, as mãos tremendo. A luz fraca de um poste iluminou meu rosto. Eles devem ter percebido logo que apesar do meu cabelo curto. Os meus traços eram delicados demais, e o meu corpo era claramente feminino apesar das roupas largas. Um dos soldados piscou, surpreso. — Chefe… é uma garota. O homem — que eu ainda não sabia o nome me encarou, senti que ele era alguém importante — ele ergueu uma sobrancelha. E se aproximou devagar, com passos calculados. Agachou-se na minha frente. Sua presença era esmagadora. Alto, ombros largos, cabelo castanho-claro molhado pela chuva, olhos castanhos escuros profundos que pareciam ler minha alma. Ele segurou meu queixo com força, dedos firmes e quentes contrastando com a chuva fria, forçando-me a olhar para ele. — Uma simples ladra ou… uma espiã? — A voz dele era baixa, perigosa, grave como um trovão distante. — O que você viu, garota? Eu tremia inteira. Medo puro corria nas minhas veias, mas também algo mais. Uma atração estranha, proibida, que me envergonhava. Aquele homem tinha matado alguém na minha frente. E mesmo assim, o jeito como ele me olhava fazia meu estômago revirar. Cuspi no chão ao lado e respondi em italiano, com sotaque brasileiro forte, voz rouca de tanto correr: — Non ho visto niente, lo giuro, cazzo! Volevo solo la macchina. (Eu não vi nada, eu juro, cara! Só queria o carro.) Ele me encarou por longos segundos. O silêncio era pior que qualquer grito. Então, um sorriso lento e perigoso surgiu no canto dos lábios dele. Um sorriso que não chegava aos olhos. Um sorriso de predador que acabara de encontrar uma presa interessante. Eu sabia que estava ferrada. Meu corpo todo doía da corrida e da queda. A chuva continuava caindo, lavando o sangue do beco onde o homem havia morrido minutos antes. Eu pensava em Dudu sem parar. Se eles me matassem agora, o que seria dele? Ele era só uma criança. Meu irmão. Minha única família de verdade aqui na Itália. O homem soltou meu queixo, mas não se afastou. Ficou agachado, me observando como se eu fosse um enigma. Os três soldados esperavam ordens, armas ainda em punho. Um deles riu baixo, comentando algo sobre “ladra brasileira”. — Por favor… — murmurei, agora em português, a voz falhando. — Eu não sou ninguém. Só uma imigrante tentando sobreviver. Não vou contar pra ninguém. Ele inclinou a cabeça, ainda com aquele meio-sorriso. Seus olhos desceram pelo meu rosto, pararam brevemente no piercing no nariz, depois voltaram para os meus olhos. Havia curiosidade ali. E algo mais escuro. Desejo? Diversão? Eu não sabia dizer. A chuva caía mais forte agora, encharcando completamente meu cabelo. Eu me sentia exposta, vulnerável, ajoelhada aos pés de um assassino. Mas não baixei o olhar. Eu era Maju Rodrigues. Sobrevivi a coisas piores no Brasil. Sobreviveria a isso também. Ou pelo menos era o que eu tentava acreditar. O homem se levantou devagar, limpando as mãos no terno impecável como se nada tivesse acontecido. Ele trocou um olhar com os soldados. Eu prendi a respiração, esperando a sentença. Uma bala na cabeça? Ou algo pior? Ele finalmente falou, a voz calma e controladora: — Levem ela para o carro. Os soldados me ergueram pelos braços. Eu tentei me soltar mais uma vez, mas eles eram implacáveis. Enquanto me arrastavam de volta para o SUV luxuoso que eu havia tentado roubar, olhei para trás. Ruggero nos seguia com passos lentos, os olhos fixos em mim. Eu não entendia por que ele não tinha me matado ainda. E esse mistério me assustava mais que tudo. Porque algo me dizia que a morte teria sido mais fácil do que o que esse homem planejava fazer comigo.






