Mundo de ficçãoIniciar sessãoMARIA JULIA RODRIGUES
Eu corria como se o diabo estivesse atrás de mim, os pulmões queimando, os tênis velhos ensopado das poças sujas de Scampia. O beco que cortava em direção ao meu prédio decadente. E ele apareceu à frente como uma saída possível. Mas parei de repente, encostando o ombro em uma parede úmida qualquer. “Não. Não posso ir pra casa. Se eu levar esses monstros até lá... Dudu...” Fiquei indecisa, o coração martelando tão forte que parecia querer sair do peito. A chuva fina escorria pelo meu rosto, misturando-se ao suor. Meu cabelo grudava na testa. Eu sabia, não podia arriscar. Não podia levar a morte direto para o meu irmão. Foi quando um disparo cortou a noite, tão perto que o som explodiu nos meus ouvidos e ricocheteou na parede ao meu lado, jogando pedaços de reboco no meu ombro. Eu congelei. O tempo pareceu r parar. De longe, sob a luz fraca de um poste piscando, vi ele. O maldito homem de terno escuro guardava a pistola com uma calma assustadora, como se tivesse acabado de acender um cigarro em vez de atirar em mim. Ele era bem mais alto do que pensei. E Mesmo de longe, seus olhos castanhos escuros pareciam perfurar a escuridão e me encontrar. Nossos olhares se cruzaram. Por um segundo, o mundo inteiro parou. Só existiam eu e ele. Senti algo estranho, um frio na barriga misturado com um calor perigoso. Era como estar hipnotizada — um coelho diante de uma cobra que deseja devorá-la lentamente. Havia morte naquele olhar. Poder. E algo mais que eu não conseguia nomear. “Porque ele não continua atirando?”, pensei, sem entender nada. Meu corpo tremia, mas meus pés pareciam colados no chão molhado. Então eu vi os três capangas saindo das sombras, armas em punho, correndo na minha direção sob as ordens dele. — Peguem ele! Peguem o maldito garoto agora! — rugiu o homem, a voz grave e autoritária cortando a chuva como um chicote. Ele me confundiu com um rapaz por causa do cabelo curto e as roupas largas pensei. O pânico me acordou do transe. Eu saltei para o lado e corri novamente como nunca corri na vida. Os passos pesados dos soldados ecoavam atrás de mim, cada vez mais perto. Virei em um beco estreito, pulei por cima de caixas de lixo empilhadas, quase escorregando na lama. Uma bala deles passou raspando acima da minha cabeça, fazendo meu coração quase parar. “Merda, Maju! Pensa!” Eu conhecia Scampia como a palma da minha mão. Sabia onde havia frestas nas cercas, onde os telhados baixos permitiam escalar, onde os moradores deixavam portas entreabertas. Mas esses homens eram profissionais. Treinados. E o homem que os comandava... ele não parecia do tipo que deixava testemunhas vivas. Enquanto corria, flashes do que vi voltavam à minha mente: o homem ajoelhado implorando, o tiro seco, o sangue misturando-se à água da chuva. Eu tinha visto um assassinato. Pior: tinha visto o rosto do assassino. Pulei uma cerca baixa, rasgando a manga do casaco. A tatuagem de dragão nas minhas costas parecia queimar, como se me lembrasse de que eu já tinha fugido de monstros antes. “Ele” — o fantasma do meu passado no Brasil — não podia ser melhor que isso. Ou podia? Ouvi um dos soldados gritar: — Ele virou ali! Não deixa escapar! Eles ainda achavam que eu era um garoto. Talvez isso me desse alguns segundos a mais. Meu peito ardia, as pernas pesavam, mas eu não parava. Dudu precisava de mim. Eu era tudo que ele tinha. Virei mais uma esquina e entrei em um pátio interno escuro, cheio de varais de roupa molhada. Me escondi atrás de um lençol pendurado, tentando controlar a respiração ofegante. Os passos se aproximavam. Ouvi vozes baixas conversando em italiano rápido. — O chefe quer vivo. Ele viu tudo. Vivo. Por enquanto. O que esse homem planejava fazer comigo? Me usar como exemplo? Ou algo pior? Meu corpo todo tremia. Não de frio, mas de algo mais profundo. Quando nossos olhos se encontraram, senti uma conexão estranha, quase elétrica. Medo puro misturado com uma atração proibida que me envergonhava naquele momento terrível. Como podia achar aquele monstro atraente? Ele tinha acabado de matar um homem a sangue frio e estava mando três homens me pegar para me matar também. Os passos estavam muito perto agora. Um soldado apareceu no pátio, arma em punho. Eu prendi a respiração. Então, outra voz — a dele — ecoou de mais longe, calma e controladora: — Tragam o garoto pra mim. Inteiro. Eu sabia que minha sorte estava acabando. Não havia mais para onde correr.






