CAPÍTULO 2: A LADRA DAS SOMBRAS

MARIA JULIA RODRIGUES

A coisa que mais odeio nessa vida é depender de homem. Especialmente de um verme como o Filipo.

Eu acabara de entregar o terceiro carro da noite para o desmanche dele, e mais uma vez saí com migalhas no bolso. Três carros bons, roubados com risco de vida, e o desgraçado reclamando que as peças eram ruins, que o mercado estava saturado, que ele mal conseguia lucrar. Mentira. Eu sempre conseguia os melhores carros — os que os outros ladrões nem ousavam tocar. Mesmo assim, ele pagava uma miséria que mal dava para botar comida na mesa e pagar o aluguel atrasado. Senhor Gianni já tinha mandado recado duas vezes essa semana: mais um mês e ele nos colocaria na rua.

A chuva fina caía sobre Nápoles enquanto eu caminhava com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco surrado. Meu coração ainda batia forte da adrenalina. Aos 24 anos, imigrante ilegal, brasileira perdida na Itália, eu vivia no limite. O lado bom era que minha aparência “exótica”, ajudava a espantar os idiotas que ousavam se aproximar.

Eu tinha a pele morena, os cabelos castanhos cacheado, que eu insistia em usar curto nas laterai e raspados nas têmporas. E adora meus piercing especialmente o que usava no nariz. Quanto a tatuagem de dragão nas costas, tudo que podia dizer era que, ardia como um lembrete de quem eu fui um dia — e do que eu fugi.

Parei na entrada do prédio decadente onde morávamos, em um dos cantos mais pobres de Scampia. O cheiro de mofo e comida velha subia pela escada. Não consegui entrar. Não ainda. Dudu, meu irmãozinho de sete anos, estava lá em cima, sozinho. Eu só tinha conseguido comprar um almoço simples hoje. Eu mal via o menino durante o dia. E ele não podia frequentar escola — nossa situação ilegal não permitia. Dudu ficava o dia inteiro trancado naquele apartamento apertado, inquieto, desenhando carros e perguntando quando poderíamos voltar para o Brasil. Eu não tinha coragem de contar que “ele” talvez tivesse nos encontrado.

Recentemente, tive a impressão de estar sendo seguida. Sombras nos cantos, passos que paravam quando eu parava. Se “ele” tivesse achado nosso rastro... não. Eu não queria nem pensar.

Respirei fundo, sentindo o peso do mundo nos ombros. Por uma força que nem eu saberia explicar, dei meia-volta. Não ia subir de mãos vazias. Precisava de dinheiro hoje. Talvez conseguisse algo melhor nas ruas e, quem sabe, confrontar aquele maldito Filipo de uma vez.

Foi quando um carro luxuoso passou devagar pela rua molhada, a poucos metros de mim. Faróis discretos, pintura preta brilhante mesmo sob a chuva. Ele estacionou há poucas quadras, quase na entrada de um beco. O homem que desceu era alto, imponente, terno escuro. Ele sumiu nas vielas escuras com passos decididos.

Meu instinto de ladra acendeu. “Esse carro vai resolver nossos problemas por meses”, pensei.

Fui me aproximando devagar, escondida nas sombras. Era um SUV blindado, luxo puro. Eu sabia como desligar qualquer rastreador. Tinha o aparelho no bolso — um pequeno scanner que localizava e neutralizava os sinais. Com ele, carros que ninguém mais ousava roubar viravam meus.

Olhei ao redor. Ninguém. A chuva leve abafava meus passos. Com a ferramenta fina, trabalhei na fechadura. Com um clique suave. A porta se abriu lentamente. Entrei rápido, fechando-a atrás de mim. O interior cheirava a couro caro e um perfume masculino marcante, forte, dominante. Algo que fez minha pele arrepiar sem motivo.

Sentei no banco do motorista e liguei o aparelho. A tela piscou, detectando dois rastreadores. Comecei a desativá-los, com dedos ágeis e o coração acelerado. “Só mais um minuto...”

Foi quando ouviu um barulho.

“Tiros?”

Eu me assustei tanto que derrubei o scanner no chão do carro. Outro tiro. Meu sangue gelou. Virei a cabeça e vi tudo pelo para-brisa embaçado: um homem caído na lama, sangue misturando-se à chuva. E o dono daquele carro — o mesmo que havia descido mais cedo — guardando uma pistola com uma frieza assustadora. Alto, cabelo castanho-claro, olhos escuros que pareciam perfurar a escuridão. Três homens com ele.

“Merda”

Saí do carro pela porta do passageiro, o mais silenciosa possível, mas tenho certeza que eles já tinham me visto. Corri abaixada, o coração martelando no peito. Atrás de mim uma voz grossa gritou em italiano:

— Tem alguém ali! Peguem!

Eu me escondi atrás de um contêiner enferrujado, respirando rápido. Passos pesados se aproximavam. A chuva molhava meu rosto, misturando-se ao suor frio. Dudu. Eu não podia morrer aqui. Não podia deixar meu irmão sozinho.

Quando os passos chegaram perto, eu corri. Disparei entre os becos sujos de Scampia, pulando caixas, virando esquinas estreitas. Os soldados vinham atrás, rápidos e determinados. Uma bala passou raspando por uma parede próxima.

“Corre, Maju. Corre!”

Eu era boa em fugir. Tinha prática. Mas desta vez, algo me dizia que o homem daquele beco não era como os outros. Ele não ia parar.

E eu tinha acabado de tentar roubar o carro errado, na noite errada.

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