Capitulo 5 - Colisão sob o Luar

O silêncio que se seguiu foi absoluto por três segundos. Asher e Yukio estancaram, encarando Callun com os olhos arregalados, estupefatos. A ideia de alguém, especialmente uma mulher desconhecida, usar um Alfa do calibre de Callun Veinar e simplesmente ir embora era quase impossível de processar.

De repente, Yukio não aguentou. Uma gargalhada alta e genuína explodiu de seu peito. Ele chegou a se curvar, rindo tanto que lágrimas começaram a surgir em seus olhos.

— Usado? — Yukio conseguiu dizer entre os risos. — O grande Alfa dos Lobos Negros foi usado como... como um brinquedo e largado na beira da estrada? Isso é histórico!

Callun soltou um rosnado gutural, profundo e perigoso, que fez as janelas do escritório vibrarem. Yukio parou de rir instantaneamente, limpando as lágrimas e pigarreando, assumindo uma postura de submissão imediata.

— Desculpe, Alfa. Eu perdi a linha. — murmurou Yukio, embora o brilho de diversão ainda estivesse em seus olhos, e o canto dos lábios dele tremessem ligeiramente, loucos para se abrirem em uma nova gargalhada fenomenal.

Asher pigarreou alto, tentando desesperadamente manter a compostura e salvar o clima antes que Callun decidisse punir o Gama ali mesmo.

— Como eu dizia... — Asher retomou, com a voz firme. — Vou expandir as buscas. Vou conferir os registros de todas as matilhas daquela área, e também darei ordens para monitorarem o mercado negro de escravos. Se ela for uma "desgarrada", é lá que acabará aparecendo.

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A alguns quilômetros dali, o som das correntes batendo contra as pedras era a única trilha sonora daquele pesadelo. Octávia caminhava com os pulsos em carne viva, cercada por um mar de miséria: crianças soluçando, jovens de olhar vazio e idosos que mal conseguiam sustentar o próprio peso.

À sua frente, um senhor de cabelos brancos tropeçou em uma raiz e desabou. Antes que pudesse tentar se levantar, o estalo do chicote cortou o ar, atingindo suas costas.

— Levanta, lixo! — gritou o carcereiro, chutando as costelas do homem. — Vocês não passam de escória. Estão aqui porque ninguém os quis. São restos que o mundo descartou!

As crianças choravam desoladas, mas Octávia mantinha o rosto baixo, as lágrimas escorrendo em silêncio. Ela aprendera rápido que qualquer sinal de rebeldia atraía a fúria daqueles monstros.

Horas depois, o grupo foi jogado em um acampamento improvisado no coração da floresta. Perto da fogueira, as vozes dos guardas carregavam uma crueldade casual.

— Este lote renderá bem. Mulheres bonitas para o mercado e crianças fortes para as minas. Mas os velhos... — um deles cuspiu no chão. — Não valem o pão que comem. Serão apenas adubo pelo caminho antes de chegarmos à cidade.

O pânico subiu pela garganta de Octávia. Foi quando sentiu uma mão seca e quente tocar a sua. Uma senhorinha, de olhos cansados, mas gentis, sussurrou.

— Acalme seu coração, pequena. Não deixe que eles vejam o seu medo.

Enquanto Octávia tentava controlar os soluços, algo estranho aconteceu. O ar ao seu redor pareceu vibrar e se dobrar. O guarda que vinha em sua direção parou, esfregou os olhos e gritou.

— Alerta! Fugitivo! Cadê a garota que estava aqui?!

A senhora arregalou os olhos, percebendo o que Octávia ainda não entendia, já que ainda sentia suas mãos nas dela. Enquanto, para a jovem loba ômega ela ainda estava bem ali, enquanto o guarda a procurava a plenos pulmões.

— Você... você nasceu sob uma das luas especiais — a velha sussurrou, maravilhada, apertando a mão invisível nas suas. — Você recebeu o dom da invisibilidade, criança. Esta é a sua chance. Fuja!

— Eu não posso deixar vocês! — Octávia sussurrou de volta, em pânico.

— Nós estamos velhos, menina. Mas você pode nos dar uma chance. Use sua invisibilidade e solte as cordas discretamente. O caos ajudará quem ainda tem pernas para correr.

Octávia tremia. Ela não fazia ideia de como fizera aquilo.

— Eu não sei como controlar isso...

— Seus sentimentos controlam seu dom — a senhora instruiu rapidamente. — Foque na sua vontade de viver. Seus sentimentos são a chave.

Assustada, Octávia sentiu as cordas afrouxarem em seus pulsos no exato momento em que o chefe dos carcereiros se aproximou da senhora, chutando o lugar onde Octávia deveria estar. Fazendo-a saltar cuidadosamente para trás, com os olhos arregalados.

— Onde ela está?! Ela sumiu no ar! — ele bradou.

Invisível e movida pelo puro instinto de sobrevivência, Octávia agradeceu à senhora com um olhar que só ela pareceu sentir. Discretamente, ela se aproximou da cintura de um guarda distraído e roubou sua faca. Com mãos trêmulas, mas precisas, ela passou de um por um, cortando as amarras e sussurrando.

-Espere o meu sinal.

Quando o último nó foi cortado, Octávia soltou um grito que pareceu vir do fundo de sua alma.

— CORRAM! AGORA!

Foi quando o acampamento explodiu. Dezenas de pessoas se levantaram e correram em direções opostas como loucos. Os carcereiros gritavam, perdidos no meio do turbilhão de corpos que se tornavam lobos e fugiam em disparada. Octávia tentou puxar a velha senhora, mas a mulher torceu o pé em um buraco e caiu.

— Vá, menina! Siga sem mim! — a senhora ordenou, empurrando-a.

Octávia sentiu o dom falhar; seu corpo ficou parcialmente visível, as lágrimas de desespero quebrando sua concentração. A senhora segurou seu rosto uma última vez.

— Não chore por mim. Eu vou segurá-los o quanto puder. Agora, corra e não olhe para trás! Não importa o que houver. Não volte!

Com o coração estilhaçado e a alma em carne viva, Octávia obedeceu. Ela se embrenhou na mata fechada, correndo como se os cães do inferno estivessem em seus calcanhares. Ela não sabia para onde ir, mas a imagem daquela boa senhora ficando para trás ficaria gravada em sua mente para sempre, alimentando um novo tipo de fogo em seu peito.

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Não muito longe dali, o SUV preto de Callun cortava a estrada de terra em direção ao setor onde os mercadores de escravos costumavam transitar. Callun estava no banco de trás, o olhar perdido na paisagem árida, mergulhado em um silêncio sombrio até que o mundo ao redor pareceu entrar em colapso.

Vultos começaram a atravessar a pista freneticamente, correndo entre as árvores como animais acuados. Asher pisou no freio com força, fazendo os pneus cantarem no cascalho.

— Mas que diabos é isso? Uma debandada de lobos? — Yukio exclamou, debruçando-se sobre o painel para enxergar melhor. — São escravos? Asher, por que eles estão correndo por aqui?

— Eu não sei, parece um motim ou uma fuga em massa. — Asher respondeu, os olhos atentos em cada movimento, a mão em garras, por reflexo. — Mas não faz sentido, os mercadores não deixariam um lote inteiro escapar assim no meio do nada. Será uma emboscada?

— Emboscada de lobos assustados e famintos? — Yukio rebateu, confuso. — Olha o estado deles! Estão fugindo de algo... ou de alguém. Asher, se a gente atropelar um desses fugitivos, o Alfa Callun vai te matar.

— Meu problema é com os mercadores, Yukio, e com a segurança desses licanos na estrada. — Asher retrucou, tenso. — Alfa Callun, o que você quer fazer? Estão vindo mais deles!

Callun não respondeu. Seus sentidos de Alfa haviam acabado de captar algo que tornava aquela confusão irrelevante. O ar dentro do carro foi subitamente invadido por um suave perfume que ele reconheceria em qualquer lugar. Mas para a agonia de seu lobo, agora misturados ao cheiro metálico sangue, medo e exaustão. Ele ignorou o debate dos dois na frente e virou o rosto para a janela lateral.

Foi quando ele a viu.

A morena surgiu entre os arbustos, agora completamente visível sob a luz do luar. Suas roupas estavam rasgadas e sua pele suja de terra. Ela tropeçou nos próprios pés descalços, caindo exausta a poucos metros do carro, bem no momento em que o som de gritos, uivos e botas pesadas começavam a ecoar vindo da mata.

Callun abriu a porta antes mesmo do veículo parar totalmente, fazendo Asher pisar no freio com mais força. Em dois passos largos, ele alcançou o corpo frágil no chão, pegando-a nos braços com uma possessividade que o surpreendeu.

— Asher, meta o pé na tábua! Agora! — rugiu Callun, voltando para o carro.

Asher não discutiu e acelerou, deixando os mercadores para trás em uma nuvem de poeira. Dentro do veículo, a tensão era palpável. Enquanto Callun acomodava a mulher em seu colo, Yukio se virava no banco do passageiro, com os olhos arregalados.

— É ela? — Yukio perguntou em um sussurro.

Callun o calou com um olhar, quando a mulher em seus braços arfou erguendo o olhar para ele antes de desmaiar em seus braços.

Yukio se virava no banco do passageiro novamente, voltando a sussurrar para Asher.

— É ela? A mulher que fez o nosso Alfa parecer um adolescente perdido no escritório hoje cedo?

Asher deu de ombros, focando sua atenção ao volante. Assim como Callun, que ignorou a provocação de Yukio. Ele olhava para a mulher em seu colo, sentindo o peso leve e frágil de seu corpo contra o peito.

“- Ela está mais magra? Como ela foi parar ali?”- ele se perguntava, os dedos involuntariamente limpando uma mancha de terra da bochecha pálida dela.

— É ela. — confirmou Callun, com a voz baixa e tensa.

Yukio soltou um assobio longo.

— Ora, ora... parece que a nossa futura Luna é realmente linda. Mesmo toda maltratada, a mina é uma gata! Já consigo até ver os filhotes de cabelos negros ou platinados correndo pela mansão.

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