Capitulo 6 - O Herdeiro do Desconhecido

O estalo foi imediato. Asher esticou o braço e deu um tapa certeiro na nuca de Yukio.

— Qual é, Asher! — resmungou o Gama. — Vai dizer que não sentiu o cheiro? O carro tá parecendo uma doceria de tanto mel! Ela é a nova Luna, admite logo!

— Cala a boca, Yukio — rebateu Asher, mantendo a postura fria. — Nem sabemos quem ela é. Como você pode chamá-la de Luna se ela estava amarrada como gado há cinco minutos? Pode ser uma espiã, uma infiltrada!

— O destino é poético, Asher. O Alfa salva a mocinha dos vilões. E olha a cara do Alfa Callun... ele tá segurando ela como se fosse um pote de ouro. – Yukio apontou rindo.

Callun a apertou um pouco mais contra si, protegendo-a dos solavancos. Ele fixou os olhos nos pulsos dela, onde a pele estava em carne viva pelas cordas, e sua mandíbula se travou.

“- Quem fez isso com você? - o pensamento atravessou sua mente. O instinto de Alfa, misturado ao trauma da irmã, criava uma tempestade em seu peito.

— Chega — Callun cortou a discussão, sua voz saindo como um trovão baixo. — Fiquem quietos. Yukio, pare de fantasiar e mande uma mensagem para o Dr. Silas. Quero ele nos esperando no portão principal. E Asher, se você olhar pelo retrovisor mais uma vez procurando algo onde não tem, eu mesmo assumo o volante.

O silêncio caiu sobre o carro. Yukio pegou o celular, digitando rápido enquanto lançava um olhar vitorioso para Asher.

— Ordem cumprida, Alfa. Silas já está a postos — informou o Gama, voltando-se para a frente, mas sussurrando — Dez pratas como ela fica no quarto do Alfa e não no de hospedes.

Asher apenas bufou, enquanto Callun vigiava cada respiração da mulher em seus braços durante o resto do trajeto.

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O despertar foi lento, como se Octávia estivesse emergindo de águas profundas e escuras. O teto branco e o cheiro de limpeza eram estranhos; não havia o odor de mofo de seu quarto na Lua de Prata, nem o cheiro de terra úmida da floresta. Ela tentou se mexer, mas seu corpo parecia feito de chumbo.

— Calma, criança. Não tente levantar ainda.

A voz era calma e pertencia a um senhor de óculos redondos e aparência bonachona. Ele era gordinho, com um sorriso que tentava transmitir paz enquanto anotava algo em uma prancheta.

— Quem... quem é o senhor? Onde eu estou? — A voz dela saiu rouca, quase um sussurro.

— Sou o Dr. Silas. E você está segura na sede da Matilha do Lobo Negro — ele respondeu, aproximando-se para verificar a temperatura dela.

“-Lobo Negro.” - O nome atingiu Octávia como um soco. Em um impulso de puro pânico, ela tentou se sentar, mas o quarto girou violentamente.

— Ei, ei! — Silas a segurou suavemente pelos ombros, forçando-a a deitar. — Eu disse para ir com calma. Você passou dois dias apagada. Gastou uma quantidade absurda de energia vital, estava severamente desidratada, desnutrida e cheia de feridas. Precisa de repouso absoluto, ou colocará a vida do seu filhote em risco.

Octávia congelou e o ar pareceu sumir de seus pulmões. Ela encarou o médico como se ele tivesse acabado de falar em uma língua alienígena.

— O quê? — ela gaguejou erguendo as sobrancelhas, o coração martelando contra as costelas. — O senhor... o que disse? Pode repetir?

Silas suspirou com compaixão, ajustando os óculos no nariz.

— Você está grávida, querida. De pouco tempo, mas o feto já exige muito de um corpo que sofreu tanto quanto o seu.

“-Grávida.”

A mente de Octávia viajou instantaneamente para aquela noite. O estranho no carro... o toque dele, a urgência, a forma como ela se entregou sem pensar em nada além de aliviar sua dor.

“- Como isso é possível? Uma única noite com um estranho cuja face eu mal vi direito na penumbra...” - O nervosismo a paralisou. Ela sentia um frio glacial percorrer sua espinha. – “Se o Alfa Axel souber... se a matilha descobrir que carrego um bastardo de um desconhecido enquanto fui recentemente rejeitada pelo Alfa...”

Ela calou seus pensamentos, os olhos fixos em um ponto qualquer da colcha luxuosa. O medo era um nó apertando em sua garganta.

— Não precisa se preocupar com a sua higiene — Silas continuou, tentando distraí-la do choque. — A governanta da mansão cuidou de você, limpou suas feridas e trocou suas roupas e bandagens enquanto você dormia. Você está em boas mãos.

Ele se afastou e pegou uma bandeja que exalava um aroma delicioso.

— Trouxe vitaminas e uma sopa de legumes. Cheguei com ela há pouco, ainda está quente. Você vai comer tudo, sem discussões.

Apesar de se sentir enjoada e com a alma pesada, Octávia não teve forças para protestar. Silas era persistente. Ele a fez tomar cada colherada, quase a fazendo colocar os bofes para fora de tanto que a incentivava a comer, mas o medicamento que ele misturara à bebida ajudou a acalmar seu estômago e a náusea persistente.

“- Grávida de um lobo que eu nem conheço... no território da matilha mais poderosa da região...” - Os pensamentos rodopiavam. – “E o homem que me resgatou? Por que ele me trouxe para cá? Por que justo essa matilha?”

— Agora, descanse. — Silas disse, recolhendo a bandeja com um aceno satisfeito. — Seu corpo precisa de mais tempo para processar os nutrientes e o choque. Durma mais um pouco.

Octávia queria fazer mil perguntas, queria saber quem a trouxera e o que aconteceria agora, mas a fraqueza era maior que a sua curiosidade. E assim que o médico apagou a luz principal, deixando apenas um abajur suave aceso, ela sentiu o peso do cansaço vencê-la novamente.

Ela fechou os olhos, a mão descendo instintivamente para o ventre ainda plano, e apagou por mais um dia inteiro, mergulhando em um sono sem sonhos, mas cheio de incertezas.

No dia seguinte, a luz suave da manhã filtrava-se pelas cortinas de seda, mas para Octávia, a claridade trazia apenas mais ansiedade. O Dr. Silas entrou no quarto com o mesmo sorriso gentil de antes, trazendo uma nova bandeja e alguns frascos de remédio.

— Bom dia, querida. Vejo que a cor está voltando ao seu rosto — disse ele, ajudando-a a se sentar para tomar o medicamento. — Hora das vitaminas e de mais um pouco de sopa. Seu pequeno precisa de sustento.

Octávia aceitou a colherada, mas sua mente estava em outro lugar. Ela precisava saber quem era seu salvador.

— Doutor... o senhor disse que eu estava na Matilha Lobo Negro. Mas, quem me encontrou? Quem me trouxe até aqui?

Silas limpou o canto da boca dela com um guardanapo, agindo como um avô zeloso.

— Foi o próprio Alfa Callun que a resgatou. Ele a encontrou na estrada e a carregou nos próprios braços até aqui. E ele não permitiu que ninguém mais a tocasse até que eu chegasse. O que sinceramente é algo raro vindo dele, nos últimos anos.

Octávia sentiu o sangue fugir do rosto. O nome ecoou em sua mente como um sino fúnebre.

— Callun? — ela sussurrou, a voz trêmula. — Qual Callun? Por acaso é... Callun Veinar?

— Sim, ele mesmo. — Silas confirmou com orgulho. — E não acredite no que dizem sobre ele. Ele é o Alfa mais justo e poderoso que já liderou esta matilha.

O mundo de Octávia desabou.

“- O Alfa Callun Veinar... O tio do Alfa Axel. O irmão mais novo do meu padrinho o Alfa Elion. Ele era o homem de quem o Alfa Axel falava com uma mistura de medo e inveja. O Alfa supremo da linhagem dos Veinar, e tio do homem que acabara de me rejeitar como companheira, me humilhar e me vender como escrava. Se o Alfa Callun descobrir quem eu sou, ele me devolveria para o Alfa Axel? Ou pior, me mataria por carregar o filhote de um estranho enquanto ainda estava ligada ao sobrinho? Ai minha Deusa, por que tenho que passar por isso?!”

— E onde... onde ele está agora? — ela perguntou, as mãos escondidas sob o cobertor para que o médico não visse o quanto tremiam.

— Infelizmente, nosso Alfa tem estado muito ocupado. Houve uma série de roubos nas fronteiras da matilha logo após ele chegar, e isso o manteve afastado da ala médica. Mas não se preocupe — Silas sorriu, tentando acalmá-la — ele me informou que virá vê-la pessoalmente esta tarde, agora que as coisas se acalmaram.

A sopa pareceu virar cinzas na boca de Octávia.

“-Ele vem aqui. Hoje à tarde.”

— Agora, tente descansar mais um pouco enquanto as vitaminas fazem efeito — Silas disse, recolhendo as coisas e saindo do quarto.

Assim que a porta se fechou, Octávia sentiu o pânico sufocá-la. Ela olhou ao redor do quarto luxuoso, que mais parecia uma prisão de ouro. Ela não podia estar ali quando o temido Alfa Callun Veinar atravessasse aquela porta. Se ele fosse qualquer coisa parecido com o sobrinho, ela estava condenada.

“- Eu preciso sair daqui” - ela pensou, a respiração ficando curta.- “ Não importa se estou fraca, não importa se não tenho para onde ir. Eu prefiro a floresta do que ser entregue de volta ao Alfa Axel ou enfrentar a fúria do temido Alfa Callun Veinar.”

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