Capitulo 4 - Descartada como Lixo

- Ela parecia dopada. – Comentou Asher e Callun confirmou.

- E estava.

O silêncio durou três segundos, depois Yukio explodiu numa gargalhada alta, curvando o corpo e batendo na mesa.

— Espera… espera…

Disse entre risos com lágrimas escorrendo dos olhos.

— Você tá falando sério? Uma fêmea dopada te usou, te fodeu até não aguentar mais e depois fugiu? O grande Callun Veinar, o Alfa mais temido do mundo, foi abandonado no banco do carro como um macho qualquer?

Yukio ria tanto que mal conseguia respirar.

— Eu pago pra ver a cara dela quando descobrir quem você é. Estou passado!

Callun soltou um rosnado profundo e perigoso, que fez as janelas do escritório vibrarem, fazendo Yukio parar de rir instantaneamente, limpando as lágrimas, pigarreando, assumindo uma postura de submissão.

— Desculpe, Alfa. Eu perdi a linha.

Murmurou Yukio, embora o brilho de diversão ainda estivesse em seus olhos.

Asher pigarreou alto, tentando desesperadamente manter a compostura e salvar o clima antes que Callun decidisse punir o Gama ali mesmo.

— Como eu dizia...

Asher retomou com a voz firme.

— Vou expandir as buscas e conferir os registros de todas as matilhas daquela área. Também darei ordens para monitorarem o mercado negro. Se ela for uma "desgarrada", é lá que acabará aparecendo.

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A alguns quilômetros dali, Octávia caminhava com os pulsos em carne viva, cercada por um mar de miséria.

Crianças soluçando, jovens de olhar vazio e idosos que mal conseguiam sustentar o próprio peso.

Era incrível como haviam alguns de cabelos negros e olhos roxos, a fazendo perceber que ela não era a única.

À sua frente, um senhor de cabelos brancos tropeçou em uma raiz e desabou.

Antes que pudesse tentar se levantar, o estalo do chicote cortou o ar, atingindo suas costas.

— Levanta, lixo!

Gritou o carcereiro, chutando as costelas do homem.

— Vocês não passam de escória. Estão aqui porque ninguém os quis. São restos que o mundo descartou!

As crianças choravam desoladas, mas Octávia mantinha o rosto baixo, com suas lágrimas escorrendo em silêncio.

Ela aprendera rápido que qualquer sinal de rebeldia atraía a fúria daqueles monstros.

Horas depois, o grupo foi jogado em um acampamento improvisado no coração da floresta.

Perto da fogueira, as vozes dos guardas carregavam uma crueldade assustadora.

— Este lote renderá bem. Mulheres bonitas para o mercado e crianças fortes para as minas. O senhor M vai gostar de saber. Mas os velhos...

Um deles cuspiu no chão.

— Não valem o pão que comem. Serão apenas adubo pelo caminho antes de chegarmos à cidade.

O pânico subiu pela garganta de Octávia.

Foi quando sentiu uma mão seca e quente tocar a sua discretamente.

Era uma senhorinha de olhos cansados, mas gentis, que sussurrou.

— Acalme seu coração, minha pequena. Não deixe que eles vejam o seu medo.

Enquanto Octávia tentava controlar os soluços, desejando desaparecer, algo estranho aconteceu.

O ar ao seu redor pareceu tremular.

O guarda que vinha em sua direção parou, olhou, contou, esfregou os olhos e gritou.

— Alerta! Fugitivo! Cadê a garota que estava aqui?!

A senhora arregalou os olhos, percebendo o que Octávia ainda não entendia que que acabava de acontecer, ainda sentindo em suas mãos as dela.

— Você... você nasceu sob uma das luas especiais.

A velha sussurrou feliz.

— Você recebeu o dom da invisibilidade, criança. Esta é a sua chance. Fuja!

— Eu estou invisível?

- Sim. – a velha senhora confirmou com carinho.

- Mas não posso deixar vocês.

Octávia sussurrou de volta, em pânico.

— Nós estamos velhos, menina. Mas você pode dar uma chance aos mais jovens. - Orientou - Use o seu dom e solte as cordas discretamente e deixe que o caos ajudará quem ainda tem pernas para correr.

Octávia tremia encarando sua própria mão, sem vê-la. Ela ainda não entendia e não sabia como fizera aquilo.

— Eu não sei como controlar isso...

— Seus sentimentos controlam o seu dom.

A senhora instruiu rapidamente.

— Foque na sua vontade, seus sentimentos são a chave.

Assustada, Octávia sentiu as cordas afrouxarem em seus pulsos, saltando suavemente para trás, no exato momento em que o chefe dos carcereiros se aproximou da senhora, chutando o lugar onde ela deveria estar.

— Onde ela está?! Ela não pode ter sumido no ar! - ele bradou.

Invisível e movida pelo puro instinto de sobrevivência, Octávia agradeceu à senhora com um olhar que só ela pareceu sentir, e discretamente, ela se aproximou da cintura de um guarda distraído, roubando suas chaves e sua faca.

Com mãos trêmulas, mas precisas, ela passou de um por um, cortando as amarras de quem estava amarrado e abrindo as algemas de quem estava algemado enquanto sussurrava para que esperassem seu sinal.

E quando o último nó foi cortado, Octávia soltou um grito que pareceu vir do fundo de sua alma.

— CORRAM! AGORA!

Nessa hora, o acampamento pareceu explodir.

Dezenas de pessoas se levantaram e correram em todas as direções como loucos.

Os carcereiros gritavam, perdidos no meio do turbilhão de corpos, atirando para o alto para tentar para-los pelo medo, já que não podiam mata-los.

Octávia tentou puxar a velha senhora que a ajudou, mas a mulher torceu o pé em um buraco e caiu.

— Vá, menina! Siga sem mim!

A senhora ordenou, empurrando-a com força.

Octávia sentiu o dom falhar, seu corpo ficando parcialmente visível, revelando as lágrimas de desespero que atrapalhavam sua concentração.

A senhora segurou seu rosto uma última vez, com carinho.

— Não chore pequena, eu vou segurá-los o quanto eu puder. Agora corra e não olhe para trás! Eu ficarei bem, não se preocupe.

Ela olhou para os olhos roxos da velha senhora e com o coração destruído obedeceu.

Ela se embrenhou na mata fechada, correndo como se os cães do inferno estivessem em seus calcanhares.

Ela não sabia para onde ir, mas sabia que jamais esqueceria da boa senhora que ficou para trás para ajudá-la a fugir.

Não muito longe dali, o carro de Callun cortava a estrada em direção aonde já foram vistos os mercadores de escravos no passado.

 Callun estava no banco de trás com o olhar perdido na paisagem, mergulhado em um silêncio sombrio até que o mundo ao seu redor pareceu entrar em colapso.

Vultos começaram a atravessar a pista freneticamente. Eram lobos e licanos em forma humana que corriam como loucos por todos os lados.

Asher pisou no freio com força, fazendo os pneus cantarem.

— Mas que diabos é isso? Uma debandada? - Yukio exclamou, debruçando-se sobre o painel para enxergar melhor. — São escravos?

— Eu não sei, parece um motim ou uma fuga em massa. - Asher respondeu com os olhos atentos, enquanto suas garras já estavam expostas por reflexo. — Ou... será uma emboscada?

— Emboscada de gente descalça e aparentemente faminta?

Yukio rebateu, confuso.

— Olha o estado deles! Visivelmente estão fugindo de algo... ou de alguém. Asher, se a gente atropelar um desses caras, o Callun vai te matar te transformando em churrasquinho, com certeza.

— O problema é se forem ladrões, Yukio. - Asher retrucou, tenso. — Alfa Callun, o que você deseja fazer? Estão vindo mais deles!

Callun não respondeu, pois seus sentidos haviam acabado de captar algo que tornava aquela confusão toda irrelevante.

Um aroma suave subitamente invadiu seu faro, aroma esse, que ele reconheceria em qualquer lugar, mas para a agonia de seu lobo, agora estava misturado ao cheiro de sangue e medo.

Ele ignorou o debate dos dois na frente e virou o rosto para a janela lateral, varrendo o lugar com os olhos até que ele a viu.

Surgindo por entre os arbustos, e completamente visível sob a luz do luar, estava aquela mesmo morena que o usara e fora embora.

Ela tropeçou nos próprios pés, caindo exausta a poucos metros do carro, bem no momento em que o som de gritos começava a ecoar vindo da mata.

Callun abriu a porta e em dois passos largos, ele alcançou o corpo frágil no chão, pegando-a nos braços e retornando.

— Asher, meta o pé na tábua! Agora!

Asher não discutiu, ele acelerou, deixando os mercadores para trás em uma nuvem de poeira.

Alguns minutos depois, dentro do veículo, a tensão era palpável.

Callun acomodou a mulher em seu colo com delicadeza enquanto Yukio se virava no banco do passageiro, com os olhos arregalados de surpresa.

— É ela, a mulher que fez o nosso Alfa parecer um adolescente perdido?

Callun ignorou a provocação.

Ele olhava para Octávia em seu colo, sentindo o peso leve e frágil de seu corpo contra o peito.

“- Ela está mais magra...”

Os dedos de Callun involuntariamente limpando uma mancha de terra da bochecha dela.

— É, é ela. - Confirmou com a voz baixa e tensa.

Yukio soltou um assobio longo.

— Ora, ora... parece que a nossa futura Luna é realmente mais linda do que parecia na foto. Mas sua aparência... É realmente algo raro. Mas eu confesso que já consigo até ver os filhotes correndo pela mansão.

Um estalo foi ouvido de imediato, quando Asher esticou o braço e deu um tapa certeiro na nuca de Yukio.

— Qual é, Asher!

Resmungou o Gama com um biquinho.

— Vai dizer que não sentiu o cheiro que está impregnando o carro? O carro tá parecendo uma doceria de tanto mel! Ela é a nossa nova Luna, aceite logo!

— Cala a boca, Yukio. - Rebateu Asher, mantendo a postura fria. — Nem sabemos quem ela é. Como você pode chamá-la de Luna se ela estava no meio daquele caos? Ela pode ser uma espiã, uma ladra infiltrada!

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