Capitulo 4 - Descartada como Lixo

Octávia entrou pela janela de seu quarto como uma sombra, o coração martelando contra as costelas. Cada centímetro de seu corpo doía, mas a vergonha ardia mais que qualquer ferimento em seu corpo. Ela se despiu freneticamente, jogando o vestido verde, agora um trapo de lembranças amargas, em um canto escuro.

No banho, ela esfregou a pele até ficar vermelha, tentando arrancar o cheiro de sexo e... ele. O homem de cabelos platinados cujo toque ainda parecia queimar em sua pele.

Ela mal terminou de vestir um vestido simples quando um estrondo a fez sobressaltar. A porta de seu quarto foi arrancada das dobradiças dando lugar a três homens que ela nunca vira, que invadiram o recinto.

— O que é isso? Saiam daqui! — gritou Octávia, a voz rouca. Ela pegou um abajur de cerâmica, os dedos trêmulos, mas o olhar carregado de um desespero feroz. — Quem deu permissão para entrarem no meu quarto? – Tudo bem que ela vivia em um porão, mas ainda era o quarto dela.

— Nós damos as ordens aqui, ômega — um deles rosnou, avançando para prendê-la.

O homem a olhou de cima a baixo, gostando visivelmente do que via.

- Perfeita. Levem-na!

Octávia lutou. Ela chutou e arranhou, se contorcendo loucamente, movida por um instinto de sobrevivência que nem sabia que possuía.

— Me soltem! Eu sou a companheira do Alfa! O Alfa Axel vai acabar com vocês!

— O Alfa Axel não vai fazer nada, senhorita Knight.

A voz fria e cortante fez o ar congelar. Os guardas se afastaram imediatamente quando o Alfa Axel entrou no quarto e se posicionou ao lado do homem que mandou que a pegassem. Em seu olhar não havia nem rastro de carinho, hesitação ou arrependimento, apenas um tédio profundo e cruel.

— Alfa Axel... — ela arquejou, tentando se aproximar. — Por favor, esses homens... eles me atacaram...

— Eu já estava cansado e nem a minha caçada me divertiu. — interrompeu ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Estou cansado de fingir que suporto cuidar de uma desgarrada abandonada como você. Você foi um erro que meu pai acolheu, uma mancha nesta matilha.

— Não diga isso! — Octávia implorou, as lágrimas voltando a cair. — Nós somos família. Somos companheiros, Alfa Axel! A Deusa nos uniu, você sentiu o laço tanto quanto eu! Por favor, não me mande embora... eu faço qualquer coisa!

Axel deu um passo à frente, segurando o queixo dela com uma força dolorosa, forçando-a a olhar em seus olhos desdenhosos.

— Você quer falar de laços? Então vamos acabar com isso de uma vez. Você não é minha família e não é nada para mim. Então ouça com muita atenção. Octávia Knight, eu a rejeito como minha companheira e a exilo como membro da Matilha Lua de Prata.

O mundo de Octávia explodiu. A dor que se seguiu não foi apenas emocional; foi como se um gancho em brasa tivesse sido cravado em seu peito e puxado para fora, rasgando sua conexão com a vida. Ela caiu de joelhos, as mãos apertando o coração, um grito silencioso morrendo em sua garganta enquanto sentia a própria alma murchar.

— Levem-na embora — ordenou Axel aos homens, virando as costas como se ela fosse lixo. — Já estou cansado de olhar para essa coisa fedida, feia e fraca. Isso fere os meus sentidos. Sumam com essa coisa da minha frente.

As palavras foram como o golpe de misericórdia. Octávia não lutou mais. Enquanto os homens a agarravam pelos braços e a arrastavam para fora do único lar que conhecia, ela era apenas uma casca vazia, perdida na escuridão de uma dor que parecia não ter fim.

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Enquanto isso, o silêncio do escritório na matilha Lobo Negro era absoluto, quebrado apenas pelo tique-taque baixo de um relógio de parede. Callun estava inclinado sobre sua mesa de carvalho, a cabeça apoiada na mão. O cansaço da viagem e a adrenalina da noite anterior finalmente cobraram seu preço, mergulhando-o em um sono pesado e traiçoeiro.

Em seu sonho, o ar estava gelado.

— Pan? — Callun chamou no meio da floresta escura, sua voz ecoando no vazio.

O silêncio foi a resposta até que o laço de matilha, aquela conexão mental que unia todos os lobos de uma matilha, ao seu Alfa, vibrou com uma agonia insuportável. Era Yukio, seu Ômega e um de seus amigos de infância. A mensagem não veio em palavras, mas em uma dor crua.

“- Alfa Callun... eu a encontrei. Oh, Deusa... eu a encontrei.”

Callun correu com Asher a reboque. As árvores passavam como vultos borrados enquanto eles atravessavam o matagal, o coração de Callun martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. E quando ele chegou à clareira, seu mundo parou.

Yukio estava de joelhos, o rosto escondido nas mãos, os ombros sacudindo. E no centro da clareira, sobre o solo úmido e as folhas mortas, estava Pan.

Sua irmãzinha de quinze anos. A pequena loba que ele jurara proteger com a sua vida.

Ela estava nua. Sua pele, outrora cor de porcelana, estava coberta de manchas roxas e cortes profundos. As marcas de violência sexual e abuso eram gritos silenciosos gravados em seu corpo frágil. Os olhos dela, que sempre brilhavam com vida, estavam abertos e opacos, encarando o nada.

Callun sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O grito que saiu de sua garganta não foi humano; foi um uivo de agonia que pareceu rasgar o céu. Naquele momento, o homem justo, gentil e diplomático morreu. O que restou foi uma criatura feita de gelo, ódio e uma sede de vingança que não seria saciada mesmo com a morte do desgraçado que fez isso a sua doce irmãzinha.

- Vou matar cada um deles, Pan... - ele sussurrou sobre o corpo frio da irmã, fechando os olhos vazios com delicadeza. – E vou queimar o mundo todo se for preciso.

O choque de sua própria fúria no sonho o arrancou da inconsciência.

Callun abriu os olhos bruscamente, a respiração pesada e curta. Seus pulmões ardiam. Ele sentiu uma umidade estranha nos cantos dos olhos e a ponta do nariz ardendo. Ele ainda conseguia sentir o cheiro de sangue e terra daquele dia, como se ele ainda estivesse naquele lugar. Mesmo que já tivesse se passado cinco anos desde aquela noite.

Toc, toc.

A batida na porta foi como um estalo de chicote o trazendo de volta a realidade. Callun reagiu instantaneamente, girando a cadeira de couro, ficando de costas para a entrada. Ele passou as costas da mão nos olhos com força, limpando qualquer rastro de sua fraqueza, e forçou o peito a se expandir para estabilizar a voz.

— Entre — ordenou ele. A voz saiu rouca, mas autoritária, camuflando a dor que ainda vibrava em seus ossos.

Seu Beta Asher, entrou, trazendo consigo o cheiro de papel e café, mas parou assim que sentiu a tensão elétrica que emanava de seu Alfa. Ele sabia que seu Alfa vinha tendo pesadelos constantes desde a morte da pequena Pam.

Asher se aproximou da mesa com movimentos calmos e precisos. Ele serviu uma xícara de café fumegante, colocando-a ao alcance da mão de Callun antes de pigarrear para chamar sua atenção.

— Alfa, o rastro da mulher que pediu, na floresta estava confuso, mas conseguimos uma imagem de uma câmera de segurança próximo à estrada de terra — informou Asher, mantendo o tom de voz baixo.

Callun soltou um longo suspiro, fechando os olhos por um segundo. Ele passou a mão, adornada por seus anéis de prata que brilharam sob a luz do escritório, pelos cabelos platinados, desalinhando-os ainda mais em um gesto de pura frustração.

— E então? — Callun perguntou, a voz ainda rouca. — Dá para ver algo que preste?

— Apenas por alto, a qualidade não é das melhores — respondeu o Beta, deslizando uma impressão fotográfica sobre a mesa. — Mas podemos notar os cabelos negros, muito longos, que parecem ir até o quadril. Ela tem olhos escuros...

-Roxos. – Confirmou Callun.

- Roxos marcantes e um corpo esguio. Não há muitas fêmeas como ela pelo país. E pelas roupas... — Asher hesitou. — Ela parecia ter uma vida simples. Talvez uma escrava fugitiva? Ou uma empregada que se meteu em problemas?

Callun fixou os olhos na imagem borrada. O instinto em seu peito rosnou; o que ele vira no carro não parecia uma escrava, mas infelizmente, sugeria alguém que não tinha nada a perder.

— Investigue tudo, Asher. Não quero que sobre pedra sobre pedra, naquela região. — ordenou Callun.

— Com certeza, Alfa. — Asher concordou com um aceno.

Nesse momento, a porta se abriu e Yukio, o Gama da matilha, entrou no escritório com sua energia habitual. Ele percebeu o clima e se aproximou da mesa, esticando o pescoço para olhar a foto que Callun segurava com tanta intensidade.

— Quem é a beldade? — perguntou Yukio, curioso. — E o que ela aprontou para ter a atenção do nosso amado Alfa?

Callun jogou a foto sobre a mesa e encostou-se na cadeira com a mandíbula travada.

— É a mulher que me usou e me descartou como se eu não fosse nada. — disparou Callun, com a voz carregada de um orgulho ferido.

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