Sophia atravessou o longo corredor acarpetado do andar da presidência. Não era hora para pensar que um andar com o espaço de uma praça de alimentação de um grande Shopping Center fosse ocupado apenas pela antessala da secretária e o escritório do senhor olhos de lince. No entanto, ultimamente seus pensamentos pareciam ter entrado em uma espécie de liquidificador, mexidos ao extremo.
Foi apenas um pedido, simples e numa voz carinhosa, da mulher que a acolheu em um dos piores momentos da sua vida. O problema, entretanto, não era o pedido ou a pessoa que o fizera, e sim o propósito. Não havia saída para a encrenca em que se metera e, caso se negasse a ajudar a quem — segundo sua “mãe do coração” intercedera a favor — iria parecer que ela, Sophia Otero, não passava de uma ingrata egoísta. Judith era como uma madrinha dos contos de fadas, que, ao oferecer emprego à mãe de Sophia, Pilar, estendeu sua compaixão à filha da empregada de sua mansão. Com o passar do tempo, a Sra. Sommers pagou seus estudos, comprou o seu primeiro automóvel e, mais do que isso, após a morte de Pilar Otero, fez questão de trazê-la para a sua família, como uma filhinha que jamais tivera, levando-se em conta ser mãe de três homens crescidos. Desde os seus 15 anos, Judith Sommers era sua amiga, apesar de às vezes tentar desempenhar o papel de mãe. Porém, por mais que Sophia gostasse dela, se sentia leal ao imenso amor que jamais morreria, por sua mãe Pilar. Por outro lado, não podia negar que Judith também a amava e deixava bem claro tal sentimento a todos os membros de sua família, inclusive ao marido, James, que lhes fazia as vontades sem pestanejar. Ainda mais, agora, aposentado. Largara a presidência da empresa que dirigira por trinta anos, delegando todos os poderes ao filho mais velho, Rafe Sommers. E era por causa de Rafe ― CEO da segunda maior multinacional do mundo no ramo varejista, a Sommers Stores, Inc., uma rede de lojas de departamento que movimentava uma fortuna por ano e estendia seus tentáculos pelos cinco continentes, concorrendo diretamente com a Walmart ― , que Sophia apertava os lábios, sentindo cada músculo do corpo endurecer enquanto se encaminhava à mesa de mogno ocupada pela assistente de Jason Sommers, diretor de operações e irmão mais novo de Rafe. Era ela quem se desdobrava para atender aos dois executivos. E, naquele momento, a secretária de Jason atendia no andar da presidência. Contudo, não havia ninguém de trás da escrivaninha da secretária, e Sophia considerou que deveria se sentar em um dos sofás gigantescos do outro lado da sala. Estava vestida de executiva, para ser mais específica, de alta executiva que entendia de moda. Embora tal roupa tivesse sido escolhida para compor um personagem, e não para que se sentisse à vontade no novo ambiente de trabalho ― que, pela Graça do bom Deus, seria temporário no sentido de muitíssimo breve. Ela estudava Cinema na New York Film Academy, conhecida como NYFA, e, à noite, trabalhava como garçonete numa cantina italiana. Entretanto, somente conseguia pagar seu aluguel, em um apartamentinho próximo ao Central Park, devido à generosa mesada que recebida dos Sommers. Na verdade, de James e Judith. Ajustou o casaquinho à blusa de lã, prendendo o último botão logo abaixo do queixo e aproveitou para se livrar das luvas de couro e do sobretudo escuro comprado num brechó no Soho. Bem, ela sabia como administrar o seu dinheiro e isso somente era possível, porque a mãe a ensinara a lidar com o dinheiro. Além disso, a cada entrada de fundos na sua conta bancária, vinda de depósitos dos Sommers, Sophia anotava o valor para futuramente lhes pagar de volta. Vivia de modo simples, sem ser hipócrita o suficiente para saber que morava bem, comia bem e estudava como alguém que fazia parte do universo restrito dos ricos. Porém, ela nasceu na pobreza e fez parte da batalha de sua mãe pela sobrevivência nos Estados Unidos, desde que entraram no país, vindas da Argentina. Foi lá, na América do Sul, que o pai de Sophia as abandonou. Pilar então juntou dinheiro para recomeçar do outro lado do Atlântico em busca da felicidade. E era esse o erro de muitas pessoas: a busca por um sentimento tão abstrato, fugaz e misterioso, talvez até inacessível. Pilar Maria Otero encontrou, sim, a felicidade. E isso, provavelmente, aconteceu no último suspiro antes de ter o corpo esmagado pelas ferragens do automóvel, que o seu jovem noivo americano dirigia. Ele saiu ileso. E ela deixou uma filha de 15 anos, apavorada e deprimida, para ser cuidada por uma família de milionários norte-americanos. Acontecia, contudo, que a adoção informal de Sophia pela matriarca não foi aprovada por todos os membros da família. Eles tinham três filhos, que eram conhecidos por suas personalidades fortes e dominadoras. A secretária apareceu no corredor, interrompendo os seus devaneios, e o rosto dela estava pálido. O corpo tremia debaixo da saia e do casaquinho fechado. Ela precisou de um minuto para se recompor e dar atenção à morena, claramente latina, sentada no sofá com as pernas cruzadas e um olhar castanho bastante simpático e um tanto cúmplice. E esse olhar dizia: Sei o que está passando, o inferno em breve terminará, estou aqui para salvá-la. Logo se livrará desse ogro maldito. Rafe Sommers, o primogênito da família, o ogro maldito. Adjetivos para defini-lo: controlador, mandão, viciado em trabalho com direito à internação em clínica de reabilitação, machista, arrogante e, bem, ficaria a tarde inteira listando os podres do sucessor do fundador da Sommers Stores, de 33 anos e dois divórcios em menos de cinco anos. A vida foi justa não lhe dando filhos. Um homem frio (ah, ela havia esquecido essa característica) e pragmático, mais se parecendo com um androide do que um ser humano de carne e osso e sentimentos, não merecia ter filhos ou qualquer pessoa que o amasse a ponto de colocá-lo em primeiro lugar em sua vida. Até mesmo James e Judith não o tinham como o filho preferido. Era evidente a todos que o xodó da família era Jason. Todos o amavam, e era impossível ser imune ao seu carisma e beleza. Jason era perfeito, considerou Sophia, com um leve sorriso. Até que a secretária conseguiu articular palavra: ― O Sr. Sommers está ao telefone, Srta. Otero. Sophia se ergueu do sofá com um sorriso, já sabia o que teria de ouvir a seguir: “Vou avisá-lo sobre a sua chegada e blá blá blá” e um chá de espera de duas horas. Rafe tinha um legítimo prazer, talvez até fosse um de seus fetiches (isso se robô tivesse fetiche), de deixá-la à sua espera na antessala. E somente na antessala, visto que raramente se encontravam fora do escritório ― quando Judith a pedia para pegar alguma coisa com ele, uma vez que o prédio Tower Sommers se localizava a uma quadra do seu apartamento, ou nas reuniões de família, ainda que ele só aparecesse no Natal e ficasse por lá, na mansão, ouvindo música, sozinho no estúdio, numa franca ostentação de sua personalidade arredia. Bom, ninguém sentia falta dele, e Sophia, então, adorava ser paparicada por Kevin e Jason, enquanto James contava suas aventuras como balconista da primeira loja da Sommers Store, e Judith tentava engordá-la como se cogitasse servi-la à mesa com uma maçã na boca. Os meninos Sommers não levavam suas namoradas em casa no Natal. Assim, era Sophia a menina da casa, a garotinha órfã cercada pelo amor de todos ― e ostensivamente ignorada por Rafe. Sophia fazia jus ao temperamento latino e à obstinação de sua mãe em se manter no mundo, a lutar e a valorizar tudo o que Deus colocava em seu caminho. Perdeu a mãe cedo demais e isso doía muito. Aprendeu também com essa perda, com todas as suas perdas emocionais, e ela era feita desse material, de recomeços e esperança. Por isso, ajeitou a alça de couro da bolsa no ombro e se encaminhou com segurança em direção ao hall da presidência, declarando com um sorriso jovial a outra: ― Ah, entre mim e o Sr. Sommers não há cerimônia, não se preocupe. Além disso, assim que eu entrar naquela sala, querida, você já pode voltar à sua vida. Quero dizer, à sua função. Antes de voltar sua atenção ao propósito de provocar Rafe, percebeu a expiração de alívio da secretária e o seu olhar de gratidão. Era óbvio que ele havia-lhe dado uma bronca daquelas minutos atrás.