Mundo de ficçãoIniciar sessãoO helicóptero da família Cavalcanti pousou no heliponto da mansão em Ilhabela com a precisão de um relógio suíço. O vento forte das hélices bagunçou o cabelo de Ana Clara, que apertava sua bolsa contra o corpo, sentindo-se um peixe fora d'água naquele cenário de cartão-postal.
— Por que estamos aqui, Matheo? — ela perguntou, tentando manter o equilíbrio enquanto desciam. — Eu tenho um seminário de Ética Médica na segunda-feira. Eu deveria estar estudando, não em um refúgio de bilionários. Matheo, usando óculos escuros e uma camisa de linho azul-marinho entreaberta, nem sequer diminuiu o passo. — Minha mãe decidiu que um "final de semana romântico" oficializaria nossa união para o círculo íntimo dela. Há fotógrafos de revistas de luxo convidados para o jantar de amanhã. Considere isso um estágio de atuação, Ana. Se você passar por isso, eu dobro o bônus do seu contrato. Ana parou abruptamente na grama esmeralda. — Você acha que tudo se resolve com dinheiro, não é? Acha que pode comprar o meu tempo, o meu silêncio e agora o meu descanso. Ele se virou, retirando os óculos. Os olhos cinzentos pareciam refletir o azul profundo do oceano ao fundo. — Eu compro o que é necessário para vencer. E agora, o que eu preciso é que você pareça a mulher mais apaixonada do mundo. Tente não olhar para mim como se eu fosse um cadáver no seu necrotério, pelo menos na frente das câmeras. A casa de praia era uma obra de arte de vidro e madeira nobre, encravada em um penhasco. O som das ondas batendo nas rochas lá embaixo era a única coisa que preenchia o vazio do lugar. Para o azar de Ana, a Sra. Leonor havia dado ordens específicas: "O casal de noivos deve compartilhar a suíte master". Ao entrarem no quarto imenso, com uma cama king size voltada para o mar, o silêncio se tornou pesado. Ana jogou sua mochila em uma poltrona de design. — Eu fico com o sofá — ela declarou imediatamente. — Não seja ridícula. O sofá é decorativo e duro como pedra — Matheo respondeu, jogando as chaves sobre a cômoda. — A cama é grande o suficiente para dois estranhos que se odeiam não se tocarem. Eu não vou morder você, Ana Clara. Eu tenho padrões. — Seus padrões incluem chantagem e manipulação, então perdoe-me se eu não me sinto segura — ela rebateu, começando a tirar os livros da bolsa para estudar. A tarde passou em uma trégua armada. Matheo trabalhava no notebook na varanda, e Ana se afundou em gráficos de farmacologia na cama. O contraste era irônico: o homem que controlava algoritmos e a mulher que queria controlar a vida e a morte, separados por apenas alguns metros e um abismo de ressentimento. Ao cair da noite, a temperatura caiu e uma brisa úmida entrou pelas portas de vidro abertas. Ana, exausta, acabou pegando no sono sobre os livros. Matheo entrou no quarto para pegar um casaco e parou. A luz do abajur iluminava o rosto dela de forma suave. Sem a máscara de "Lumi" ou a armadura de futura médica, ela parecia... jovem. E vulnerável. Ele notou a cicatriz pequena perto da sobrancelha dela e a forma como ela abraçava um dos livros de medicina como se fosse um escudo. Por um impulso que ele não soube explicar, Matheo se aproximou e puxou o edredom para cobri-la. Quando o fez, sua mão roçou acidentalmente no ombro dela. Ana despertou em um sobressalto, os olhos arregalados de susto. Em um reflexo defensivo, ela segurou o pulso dele com força. — O que você está fazendo? — ela sibilou, a voz rouca de sono. — Você estava tremendo de frio — ele disse, a voz mais baixa do que o normal. Ele não recuou. Pelo contrário, inclinou-se um pouco mais. — E estava falando dormindo. "Vovó", você disse. Ana soltou o pulso dele como se estivesse queimada. A menção à avó a desarmou completamente. — Não toque em mim. E não tente agir como se se importasse. — Talvez eu não me importe com você, mas me importo com o meu investimento — ele mentiu, a mandíbula travada. — Se você ficar doente, não haverá fotos amanhã. Ele se virou para sair, mas a voz de Ana o deteve. — Por que você é assim, Matheo? Por que nada é real para você além de poder e imagem? Matheo parou à porta, de costas para ela. A silhueta dele era um recorte sombrio contra o luar. — Porque a realidade é o que destrói as pessoas, Ana. Eu aprendi cedo que se você não controlar a narrativa, a narrativa controla você. Durma. Amanhã começa o verdadeiro show. Ele saiu, fechando a porta com um clique seco. Ana deitou-se novamente, mas o cheiro do perfume dele havia ficado no edredom. Era uma mistura de sândalo e algo oceânico, perigosamente atraente. Ela fechou os olhos, odiando o fato de que, naquele castelo de vidro isolado do mundo, o homem que ela mais detestava era a única coisa que a impedia de desmoronar.






