Capítulo 5: O Clarão da Verdade

​O saguão da Cavalcanti Tech estava transformado. Onde antes imperava o silêncio corporativo, agora fervilhava um enxame de jornalistas, flashes de câmeras e o murmúrio incessante de fofocas. No andar de cima, em uma sala privada, Matheo observava o movimento pelas câmeras de segurança.

​— Você está pálida — ele disse, sem desviar os olhos do monitor.

​Ana Clara, sentada em uma poltrona de couro, apertava as mãos no colo. Ela usava um vestido tubinho creme, pérolas discretas e uma maquiagem que escondia as olheiras de quem havia passado a madrugada revisando Farmacologia.

​— Eu não fui treinada para mentir para uma nação, Matheo. Eu fui treinada para suturar feridas e identificar patógenos — ela respondeu, a voz levemente trêmula.

​Matheo caminhou até ela. Para surpresa de Ana, ele se inclinou e segurou suas mãos. O toque era firme, quase reconfortante, se não fosse pelo brilho calculista em seus olhos.

​— Escute bem. Lá fora, eles são predadores. Se sentirem seu medo, vão te despedaçar. Você não é a estudante, nem a dançarina. Hoje, você é a mulher que domou o CEO inalcançável. Olhe para eles como se todos estivessem abaixo de você. É o que eu faço.

​— Isso se chama arrogância, não coragem — ela retrucou, mas sentiu que o aperto dele a ajudava a manter os pés no chão.

​— Em São Paulo, são a mesma coisa. Vamos.

​Quando as portas do auditório se abriram, o clarão dos flashes foi cegante. Matheo passou o braço pela cintura de Ana, um gesto que parecia protetor para quem via de longe, mas que para ela parecia o peso de uma corrente de ouro. Eles caminharam até o púlpito sob um bombardeio de perguntas.

​— Sr. Cavalcanti, por que o noivado secreto?

— É verdade que ela é uma herdeira do interior?

— Ana Clara, como se sente entrando para a família mais poderosa do setor tecnológico?

​Matheo assumiu o controle com uma maestria gélida. Ele contou a história fabricada — o encontro em um evento acadêmico, o desejo de manter a privacidade no início — com tamanha convicção que até Ana, por um segundo, quase acreditou.

​— Minha noiva é uma mulher excepcional, focada em sua carreira médica, e peço que a privacidade dela seja respeitada enquanto ela conclui seus estudos — declarou Matheo, finalizando o discurso.

​No entanto, durante a sessão de perguntas, um homem no fundo da sala levantou a mão. Ele não usava o crachá de nenhum grande jornal; usava uma jaqueta de couro surrada e tinha um sorriso cínico. Ana sentiu o sangue fugir do rosto. Era Ricardo, um dos "promoters" da boate Vibe, o homem responsável por recrutar as dançarinas.

​— Uma pergunta para a noiva — disse Ricardo, a voz carregada de segundas intenções. — Ana Clara, o seu rosto me parece familiar. Você não frequenta a noite paulistana? Especificamente a região da Rua Augusta? Eu juraria que já vi você... sob luzes mais coloridas que estas.

​O silêncio que se seguiu foi sufocante. Matheo sentiu o corpo de Ana enrijecer sob seu braço. Os jornalistas começaram a sussurrar, os celulares foram apontados para ela, esperando a reação.

​Ana sentiu o pânico subir pela garganta. Se Ricardo dissesse o nome "Lumi", tudo acabaria. A faculdade, a honra da sua avó, o contrato.

​Matheo percebeu o abismo à frente. Antes que o silêncio se tornasse uma confissão, ele deu um passo à frente, estreitando os olhos para o homem.

​— Minha noiva faz residência e plantões em hospitais públicos naquela região, cavalheiro — a voz de Matheo saiu como um trovão de autoridade. — Lugares onde pessoas como o senhor provavelmente não durariam cinco minutos. Se você está confundindo o rosto de uma futura médica com o de outra pessoa, sugiro que marque uma consulta oftalmológica. Ou talvez eu deva pedir ao meu departamento jurídico para verificar suas credenciais de imprensa?

​O tom de ameaça foi tão direto que Ricardo recuou, perdendo a coragem diante do poder de fogo de Matheo. O segurança da empresa discretamente se posicionou ao lado do homem, escoltando-o para fora da sala sob o pretexto de "falta de identificação".

​Matheo não esperou por mais perguntas. Ele guiou Ana para fora do palco com passos largos. Assim que as portas se fecharam e eles estavam no elevador privativo, ele a soltou.

​Ana desabou contra a parede de metal, respirando com dificuldade.

— Ele me reconheceu. Matheo, ele sabe quem eu sou.

​Matheo socou a parede do elevador, a máscara de calma finalmente caindo.

— Eu avisei que você tinha que apagar sua vida anterior! Se aquele sujeito vender essa história para um tabloide amanhã, meu tio vai usar isso para me enterrar vivo na reunião do conselho!

​— Eu não tive escolha! — ela gritou de volta, as lágrimas de raiva e medo finalmente transbordando. — Você acha que eu gosto de viver assim? Escondida? Fingindo ser essa boneca de porcelana para a sua família de cobras? Eu sou uma médica, Matheo! Ou quase isso. E eu danço para não deixar minha avó morrer!

​Matheo parou, a respiração pesada. Ele olhou para Ana e, pela primeira vez, viu além do contrato. Viu a fragilidade de uma mulher que estava sendo esmagada pelo peso de dois mundos que não a queriam por completo.

​— Ele não vai falar — Matheo disse, a voz agora mais baixa, quase um sussurro sombrio. — Eu vou cuidar do Ricardo. Ele vai receber uma oferta que não poderá recusar para desaparecer da cidade.

​— Você vai comprá-lo? Como fez comigo?

​Matheo deu um passo em direção a ela, o espaço no elevador parecendo minúsculo.

— Eu vou fazer o que for preciso para proteger o que é meu. E, por enquanto, Ana Clara... você é minha. Noiva, investimento ou problema... não importa. Eu não perco o que me pertence.

​O elevador chegou à cobertura. Ana saiu sem olhar para trás, mas as palavras dele ecoaram: "Você é minha". Ela não sabia se aquilo era uma promessa de proteção ou uma sentença de prisão.

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