Prólogo O som do monitor cardíaco na Unidade de Terapia Intensiva era um bipe constante, irritante e, ao mesmo tempo, a única música que importava para Ana Clara. Aos 24 anos, ela já conhecia o cheiro de antisséptico melhor do que o perfume de qualquer marca famosa. Ali, sentada em uma cadeira desconfortável de hospital, ela segurava a mão frágil de sua avó, a única família que lhe restava. O relógio de parede marcava seis da tarde. Em duas horas, o jaleco branco e os livros de anatomia seriam substituídos por seda negra, saltos agulha e o anonimato das luzes de neon da Vibe, uma das boates mais exclusivas da capital. — Eu vou conseguir o dinheiro, vó. Eu prometo — sussurrou Ana, a voz embargada pela exaustão. A faculdade de medicina não perdoava atrasos, e o hospital, muito menos. Do outro lado da cidade, no 45º andar de uma torre de vidro que parecia tocar o céu, Matheo Cavalcanti ajustava o nó de sua gravata de seda italiana em frente ao espelho. Aos 26 anos, ele tinha o m
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