Capítulo 7: O Veneno em Taças de Cristal

​O vestido escolhido por Leonor para aquela noite era um escândalo de sofisticação: um modelo longo de seda prateada que parecia metal líquido sobre a pele de Ana Clara. As costas eram totalmente nuas, revelando a curvatura delicada de sua coluna e a postura ereta de quem estava acostumada a lutar por espaço.

​— Não se afaste de mim nem por um segundo — Matheo ordenou enquanto terminava de ajustar os abotoaduras de ouro. Ele a olhou pelo espelho e, por um momento, o ar pareceu faltar em seus pulmões. — E tente sorrir. Você parece estar indo para um julgamento por assassinato.

​— Talvez eu esteja, Matheo. O assassinato da minha dignidade — ela rebateu, calçando as sandálias de tiras finas.

​O terraço da mansão estava iluminado por tochas de fogo e cordões de luzes que refletiam na piscina de borda infinita. A elite paulistana circulava com taças de champanhe vintage, e o som de um quarteto de cordas tentava camuflar o som das ondas.

​Assim que o casal desceu a escadaria, o burburinho começou. Matheo exibia Ana como um troféu de guerra, a mão espalmada em suas costas nuas em um gesto que exalava uma posse que o próprio contrato não previa.

​— Matheo, querido! Achei que você tinha se esquecido do caminho para a ilha — uma voz feminina, aguda e carregada de uma falsa doçura, cortou o ar.

​Uma mulher loira, de beleza plástica e impecável, aproximou-se. Era Isabella Viana, filha de um dos maiores acionistas da Cavalcanti Tech e a mulher que todos esperavam que fosse a futura Sra. Cavalcanti até o escândalo estourar.

​— Isabella — Matheo respondeu, a voz mantendo a neutralidade profissional. — Esta é Ana Clara, minha noiva.

​Isabella mediu Ana com um olhar que ia do desprezo à curiosidade mórbida.

— Encantada. Onde foi mesmo que Matheo te encontrou? Ele sempre foi tão... seletivo. Deve ser uma linhagem muito discreta, porque nunca ouvi seu sobrenome nos círculos de caridade.

​— Sou de uma linhagem de pessoas que trabalham para viver, Isabella — Ana respondeu, sustentando o olhar. — Estudo Medicina. Meus "círculos de caridade" costumam ser hospitais públicos, não jantares com lagosta.

​Matheo sentiu um calafrio. Ana não estava apenas se defendendo; ela estava atacando. Ele apertou levemente a cintura dela, um aviso silencioso.

​— Medicina? Que fascinante — ironizou Isabella, tomando um gole de seu drink. — Uma rotina tão... noturna, não é? Ouvi dizer que estudantes passam noites inteiras fora de casa. Às vezes em lugares bem pouco recomendáveis.

​O coração de Ana falhou uma batida. Ela sabe de algo? Ou está apenas jogando verde?

​— O foco da Ana é o que eu mais admiro nela — interveio Matheo, puxando Ana para mais perto, o corpo dela colado ao dele. — Ela tem uma disciplina que poucas pessoas nesta festa entenderiam.

​O jantar foi uma tortura psicológica. Isabella sentou-se à frente deles e passou o tempo todo desenterrando memórias com Matheo, tentando excluir Ana da conversa. Mas o que realmente incomodava Ana não era a loira venenosa; era o calor da perna de Matheo pressionando a sua sob a mesa. Era um contato necessário para a "atuação", mas que estava enviando sinais confusos para o seu sistema nervoso.

​Após o jantar, Ana escapou para o jardim escuro, precisando de ar puro. O cheiro do mar era forte ali. Ela se apoiou na amurada de pedra, fechando os olhos por um segundo.

​— Você foi bem lá dentro — a voz de Matheo surgiu das sombras. Ele caminhou até ela, desfazendo o nó da gravata. — Mas quase entregou o jogo com aquele comentário sobre hospitais públicos.

​— Eu não aguento essas pessoas, Matheo. Elas são vazias. Aquela Isabella olha para mim como se eu fosse um inseto sob um microscópio.

​— Ela é perigosa — Matheo admitiu, parando ao lado dela. — Ela quer o meu lugar e o seu. Se ela descobrir um fio solto na sua história, ela vai puxar até tudo desmoronar.

​Ana virou-se para ele, a luz da lua dando um brilho espectral à sua pele.

— E por que você se importa tanto? É só dinheiro, não é? Se o contrato for quebrado, você continua sendo o Matheo Cavalcanti.

​Matheo deu um passo à frente, encurralando-a contra a amurada. A brisa do mar soprava o cabelo dela contra o rosto dele.

— Não é só dinheiro. É o legado da minha família. É a única coisa que eu tenho. Se eu falhar, eu não sou nada.

​— Você tem a si mesmo. Mas você tem tanto medo de ser humano que prefere ser um algoritmo — ela sussurrou, a voz carregada de uma súbita melancolia.

​Os olhos de Matheo desceram para os lábios de Ana. O ódio que os unia parecia ter se transformado em uma tensão gravitacional. Ele não pensou. Ele simplesmente agiu. Suas mãos subiram para o pescoço dela, e ele a beijou.

​Não foi um beijo de contrato. Não havia câmeras ali. Foi um beijo faminto, agressivo e carregado de meses de repressão. Ana, em vez de empurrá-lo, soltou um gemido baixo e enterrou as mãos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto. O choque térmico entre a frieza do mármore da amurada e o calor do corpo de Matheo a fez perder o fôlego.

​Eles se separaram bruscamente, ambos ofegantes, os olhos arregalados com a percepção do que acabara de acontecer.

​— Isso... — Ana começou, a voz trêmula.

​— Foi um erro — Matheo cortou, a máscara de gelo voltando instantaneamente, embora seus olhos ainda estivessem dilatados. — A proximidade está afetando nosso julgamento. Amanhã voltamos para São Paulo.

​Ele deu as costas e caminhou em direção à casa, deixando Ana sozinha com o gosto dele em seus lábios e a certeza de que o ódio, a partir daquele momento, seria a única coisa que poderia salvá-los um do outro.

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