Mundo de ficçãoIniciar sessãoA cobertura de Matheo Cavalcanti era exatamente como ele: fria, vasta e desprovida de qualquer rastro de humanidade. O chão de mármore branco refletia as luzes da cidade através das imensas paredes de vidro, e o silêncio era tão absoluto que chegava a ser ensurdecedor.
Ana Clara entrou carregando apenas três caixas de papelão e sua mochila de couro gasta, cheia de livros de medicina. Ela se sentia um vírus infiltrado em um sistema operacional perfeito. — Onde eu coloco as minhas coisas? — perguntou ela, a voz ecoando no pé-direito duplo. Matheo estava de pé junto ao bar, servindo-se de um uísque puro. Ele não usava paletó, e as mangas da camisa branca estavam dobradas, revelando antebraços fortes que Ana não tinha notado antes. — A governanta, Sra. Odete, já preparou a suíte de hóspedes na ala leste — ele respondeu, sem se virar. — Meus aposentos ficam na ala oeste. Temos um corredor inteiro de distância. Espero que isso seja o suficiente para mantermos a civilidade. — Por mim, poderia ser um oceano — Ana rebateu, pegando suas caixas. — Eu não pretendo cruzar o seu caminho mais do que o estritamente necessário para as fotos de família. Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou ao ver a Sra. Odete, uma mulher de semblante severo e olhos observadores, parada no corredor. — Boa noite, senhorita. Posso ajudar com as caixas? — a governanta perguntou, mas seus olhos estavam fixos na mochila de Ana, onde um estetoscópio aparecia discretamente. — Não precisa, obrigada — Ana respondeu rápido demais, empurrando o instrumento para o fundo da bolsa. Naquela casa, ela precisava ser a "noiva troféu", não a estudante de medicina que passava noites em claro. Matheo fora claro: a vida dela antes dele deveria ser apagada. Duas horas depois, Ana estava exausta, mas o sono não vinha. O colchão de mil fios parecia duro demais comparado ao seu sofá velho. Ela precisava estudar para a prova de Farmacologia, mas a luz do quarto era suave demais para leitura técnica. Com fome e inquieta, ela resolveu ir até a cozinha. Estava vestindo uma camiseta de algodão gigante e um short de pijama, o cabelo bagunçado em um coque frouxo. No meio do caminho, no grande salão, ela viu Matheo. Ele não estava dormindo. Estava sentado diante de três monitores, analisando gráficos de ações que brilhavam no escuro. A luz azulada dava a ele um ar fantasmagórico. — Você nunca desliga? — Ana perguntou, encostada no batente da porta. Matheo se sobressaltou levemente, algo raro para ele. Ele a mediu de cima a baixo, e pela primeira vez, não havia desprezo nos olhos dele, apenas uma curiosidade cansada. — O mercado não dorme, Ana Clara. E o conselho da empresa está esperando que eu cometa um erro para me destituir amanhã cedo. Minha vida é manter esse gráfico no verde. — Que existência miserável — ela comentou, caminhando até a geladeira de aço escovado. — Viver em função de números que nem sequer são palpáveis. — E a sua é melhor? — ele retrucou, levantando-se e caminhando até ela. — Dançar para bêbados à noite e abrir cadáveres de dia? Você vive no necrotério ou no inferno, escolha um. Ana parou com a mão na porta da geladeira. Ela se virou, os olhos faiscando. — Eu danço porque é o único jeito de salvar a vida da única pessoa que me amou de verdade. E estudo medicina porque quero salvar outras. Você faz tudo isso por quê? Por ego? Por um sobrenome que seu pai usa para te chicotear? A tensão entre eles subiu como uma febre. Matheo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. O cheiro de uísque e sândalo era inebriante. — Você não sabe nada sobre mim — ele sibilou. — Sei o suficiente. Sei que você é tão solitário quanto essa cobertura de vidro. Matheo segurou o braço dela. Não com força, mas com uma urgência que o surpreendeu. Por um instante, o ódio que ambos nutriam pareceu se transformar em algo mais denso, uma eletricidade perigosa que vibrava no ar. Ele olhou para os lábios dela, e Ana sentiu seu coração martelar contra as costelas. O telefone de Matheo vibrou sobre a mesa, quebrando o feitiço. Ele soltou o braço dela como se tivesse se queimado. — Vá dormir, Ana. Amanhã temos uma coletiva de imprensa. E tente não parecer tão... você mesma. Use a máscara que eu comprei para você. Ana engoliu em seco, a garganta seca. — A máscara de prata já caiu faz tempo, Matheo. Só você ainda não percebeu. Ela saiu da cozinha sem levar nada, deixando Matheo sozinho com seus gráficos e o silêncio frio de sua fortuna. Ele olhou para a própria mão, ainda sentindo o calor da pele dela, e amaldiçoou o momento em que decidiu que ela seria sua salvação.






