Capítulo 4: Território Inimigo

​A cobertura de Matheo Cavalcanti era exatamente como ele: fria, vasta e desprovida de qualquer rastro de humanidade. O chão de mármore branco refletia as luzes da cidade através das imensas paredes de vidro, e o silêncio era tão absoluto que chegava a ser ensurdecedor.

​Ana Clara entrou carregando apenas três caixas de papelão e sua mochila de couro gasta, cheia de livros de medicina. Ela se sentia um vírus infiltrado em um sistema operacional perfeito.

​— Onde eu coloco as minhas coisas? — perguntou ela, a voz ecoando no pé-direito duplo.

​Matheo estava de pé junto ao bar, servindo-se de um uísque puro. Ele não usava paletó, e as mangas da camisa branca estavam dobradas, revelando antebraços fortes que Ana não tinha notado antes.

​— A governanta, Sra. Odete, já preparou a suíte de hóspedes na ala leste — ele respondeu, sem se virar. — Meus aposentos ficam na ala oeste. Temos um corredor inteiro de distância. Espero que isso seja o suficiente para mantermos a civilidade.

​— Por mim, poderia ser um oceano — Ana rebateu, pegando suas caixas. — Eu não pretendo cruzar o seu caminho mais do que o estritamente necessário para as fotos de família.

​Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou ao ver a Sra. Odete, uma mulher de semblante severo e olhos observadores, parada no corredor.

​— Boa noite, senhorita. Posso ajudar com as caixas? — a governanta perguntou, mas seus olhos estavam fixos na mochila de Ana, onde um estetoscópio aparecia discretamente.

​— Não precisa, obrigada — Ana respondeu rápido demais, empurrando o instrumento para o fundo da bolsa. Naquela casa, ela precisava ser a "noiva troféu", não a estudante de medicina que passava noites em claro. Matheo fora claro: a vida dela antes dele deveria ser apagada.

​Duas horas depois, Ana estava exausta, mas o sono não vinha. O colchão de mil fios parecia duro demais comparado ao seu sofá velho. Ela precisava estudar para a prova de Farmacologia, mas a luz do quarto era suave demais para leitura técnica.

​Com fome e inquieta, ela resolveu ir até a cozinha. Estava vestindo uma camiseta de algodão gigante e um short de pijama, o cabelo bagunçado em um coque frouxo. No meio do caminho, no grande salão, ela viu Matheo.

​Ele não estava dormindo. Estava sentado diante de três monitores, analisando gráficos de ações que brilhavam no escuro. A luz azulada dava a ele um ar fantasmagórico.

​— Você nunca desliga? — Ana perguntou, encostada no batente da porta.

​Matheo se sobressaltou levemente, algo raro para ele. Ele a mediu de cima a baixo, e pela primeira vez, não havia desprezo nos olhos dele, apenas uma curiosidade cansada.

​— O mercado não dorme, Ana Clara. E o conselho da empresa está esperando que eu cometa um erro para me destituir amanhã cedo. Minha vida é manter esse gráfico no verde.

​— Que existência miserável — ela comentou, caminhando até a geladeira de aço escovado. — Viver em função de números que nem sequer são palpáveis.

​— E a sua é melhor? — ele retrucou, levantando-se e caminhando até ela. — Dançar para bêbados à noite e abrir cadáveres de dia? Você vive no necrotério ou no inferno, escolha um.

​Ana parou com a mão na porta da geladeira. Ela se virou, os olhos faiscando.

​— Eu danço porque é o único jeito de salvar a vida da única pessoa que me amou de verdade. E estudo medicina porque quero salvar outras. Você faz tudo isso por quê? Por ego? Por um sobrenome que seu pai usa para te chicotear?

​A tensão entre eles subiu como uma febre. Matheo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. O cheiro de uísque e sândalo era inebriante.

​— Você não sabe nada sobre mim — ele sibilou.

​— Sei o suficiente. Sei que você é tão solitário quanto essa cobertura de vidro.

​Matheo segurou o braço dela. Não com força, mas com uma urgência que o surpreendeu. Por um instante, o ódio que ambos nutriam pareceu se transformar em algo mais denso, uma eletricidade perigosa que vibrava no ar. Ele olhou para os lábios dela, e Ana sentiu seu coração martelar contra as costelas.

​O telefone de Matheo vibrou sobre a mesa, quebrando o feitiço. Ele soltou o braço dela como se tivesse se queimado.

​— Vá dormir, Ana. Amanhã temos uma coletiva de imprensa. E tente não parecer tão... você mesma. Use a máscara que eu comprei para você.

​Ana engoliu em seco, a garganta seca.

— A máscara de prata já caiu faz tempo, Matheo. Só você ainda não percebeu.

​Ela saiu da cozinha sem levar nada, deixando Matheo sozinho com seus gráficos e o silêncio frio de sua fortuna. Ele olhou para a própria mão, ainda sentindo o calor da pele dela, e amaldiçoou o momento em que decidiu que ela seria sua salvação.

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