Capítulo 3: O Banquete das Cobras

​O vestido pendurado na porta do closet de Ana Clara custava mais do que três anos da sua mensalidade da faculdade. Era um modelo de seda verde-esmeralda, com um corte minimalista que abraçava suas curvas de forma perigosa e elegante. Matheo não perguntara seu tamanho; ele simplesmente enviara uma equipe de estilistas ao seu pequeno apartamento naquela tarde, como se estivesse equipando um acessório para o seu escritório.

​— Eu sou um projeto para ele — murmurou Ana, terminando de prender o cabelo em um coque sofisticado, deixando apenas algumas mechas soltas para emoldurar o rosto.

​Ela olhou para o anel de noivado em seu dedo: um diamante solitário tão grande que parecia pesado. Para o mundo, era um símbolo de amor. Para ela, era uma algema de luxo.

​Às oito em ponto, o SUV preto estacionou em frente ao seu prédio decadente. Matheo estava no banco de trás, revisando documentos em um tablet. Quando ela entrou, ele sequer levantou os olhos de imediato.

​— Você está atrasada três minutos — ele disse, a voz gélida.

​— E você está em um bairro onde carros como esse costumam ser apedrejados. Estamos quites — ela rebateu, acomodando a saia do vestido.

​Matheo finalmente desviou o olhar do tablet. Ele percorreu o corpo dela com uma lentidão calculada. Por um breve segundo, o brilho de desprezo em seus olhos cinzentos vacilou, substituído por uma faísca de surpresa. Ela estava deslumbrante. A máscara de "Lumi" da noite anterior fora substituída por uma beleza aristocrática que ele não esperava encontrar em uma estudante de medicina falida.

​— Mantenha essa língua afiada guardada durante o jantar — ele avisou, voltando à sua postura rígida. — Minha mãe é mestre em ler pessoas. Se ela desconfiar que isso é um arranjo, o contrato acaba, e você volta para o seu hospital público com uma mão na frente e outra atrás.

​— Não se preocupe, Matheo. Eu passei anos fingindo que não estou exausta para os meus professores. Fingir que suporto você será apenas mais um exame de anatomia.

​A mansão Cavalcanti era um monumento ao ego. Tetos altos, mármore importado e o silêncio opressor que só o dinheiro antigo consegue comprar. Ao entrarem no salão de jantar, o olhar de todos se voltou para eles.

​Alberto Cavalcanti, o patriarca, observava com desconfiança. Ao seu lado, Leonor, a mãe de Matheo, sustentava um sorriso que não chegava aos olhos claros.

​— Então esta é a famosa noiva misteriosa? — Leonor aproximou-se, analisando Ana de cima a baixo como se procurasse um defeito na costura do vestido. — Ana Clara, não é? Matheo foi muito vago sobre como se conheceram.

​Matheo envolveu a cintura de Ana com o braço, puxando-a para perto. O toque era possessivo, mas Ana sentiu o frio dos dedos dele através do tecido fino.

​— Nos conhecemos em um evento beneficente da universidade, mamãe — mentiu Matheo, com uma naturalidade assustadora. — Ana é brilhante. Está terminando Medicina. Achei que seria um sopro de vida inteligente nesta família.

​O jantar foi um campo minado. Entre garfadas de foie gras e goles de um vinho que custava uma fortuna, a família de Matheo disparava perguntas passivo-agressivas.

​— Medicina é um curso tão... desgastante — comentou uma prima de Matheo, sentada à mesa. — Como você concilia com a agenda de um homem como o meu primo?

​— O segredo é priorizar o que é vital — respondeu Ana, encarando a mulher com um sorriso doce e letal. — Na medicina, aprendemos a identificar o que está morto e o que ainda pode ser salvo. No meu relacionamento com o Matheo, focamos no que é real.

​Matheo apertou levemente a cintura dela sob a mesa. Foi um sinal de aviso, mas também um reconhecimento involuntário: ela sabia jogar.

​— E onde você mora, querida? — perguntou Leonor. — Gostaríamos de enviar um convite para o chá de caridade da próxima semana.

​— Ela está se mudando para a minha cobertura amanhã — interrompeu Matheo, sua voz não admitindo contestações. — Decidimos que não faz sentido ficarmos separados agora que o noivado é público.

​Ana quase engasgou com o vinho. Mudança? Amanhã? Isso não estava detalhado no contrato que ela leu com pressa.

​— É claro — disse Ana, recuperando o fôlego e olhando fixamente para Matheo. — Mal posso esperar para levar meus livros de patologia para decorar aquela sua sala tão cinza e sem vida, querido.

​O clima pesou. Matheo sustentou o olhar dela, um desafio silencioso brilhando entre os dois.

​Ao final do jantar, no jardim da mansão, longe dos ouvidos dos parentes, Matheo a prensou contra uma coluna de mármore. A proximidade era excessiva. Ela podia sentir o calor que emanava dele, contrastando com a frieza de suas palavras.

​— Você quase passou dos limites lá dentro — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela.

​— Você mudou os termos sem me avisar — ela rebateu, sem recuar. — Eu tenho uma vida, Matheo. Tenho plantões. Não sou uma boneca que você guarda na prateleira da sua cobertura.

​— A partir de agora, você é exatamente o que eu precisar que você seja. Amanhã, ao meio-dia, o caminhão de mudança estará na sua porta. Traga apenas o essencial. O resto, eu comprarei novo. Não quero nada daquela sua vida anterior contaminando a minha casa.

​— Minha vida "contaminada" é a única coisa real que existe entre nós dois, Matheo — ela disse, a voz baixa e carregada de desprezo. — Você pode comprar meu tempo e meu silêncio. Mas nunca vai comprar meu respeito.

​Ela se soltou do aperto dele e caminhou em direção ao carro, deixando o CEO sozinho sob o luar. Pela primeira vez em anos, Matheo Cavalcanti sentiu que havia algo em seu mundo que ele não conseguia dobrar à sua vontade. E isso o irritava tanto quanto o fascinava.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App