Capítulo 2: A Manchete do Dia

​O sol de São Paulo não pedia licença; ele invadia o quarto de Ana Clara através da cortina fina, queimando suas pálpebras cansadas. Ela havia chegado em casa às quatro da manhã, com o corpo doendo e a mente em looping. O rosto daquele homem no beco — o maxilar travado, os olhos cinzentos como uma tempestade de inverno — não saía de sua cabeça.

​“Eu pago suas dívidas. Todas elas.”

​— Idiota prepotente — resmungou Ana, jogando o lençol para o lado. Ela tentou convencer a si mesma de que aquilo fora apenas um delírio do cansaço. Homens como aquele não faziam propostas reais para dançarinas de boate. Faziam?

Ela se levantou, preparou um café forte e ligou o celular. O aparelho quase travou com a enxurrada de notificações. Seu coração disparou. No grupo de W******p da faculdade de medicina, um link do maior portal de fofocas do país circulava com frenesi.

​MANCHETE: "O SOLTEIRO DE OURO CAIU? MATHEO CAVALCANTI É FLAGRADO EM MOMENTO ÍNTIMO COM MULHER MISTERIOSA NA SAÍDA DE BOATE."

​Na foto, a iluminação precária do beco dava um ar de romance clandestino. Matheo a segurava pelos braços, o rosto inclinado sobre o dela. A máscara de prata de Ana brilhava sob o flash, escondendo sua identidade, mas o contraste entre o terno impecável dele e a pele exposta dela era um banquete para os tabloides. Os comentários eram brutais: "Quem é a acompanhante?", "O fim da era Cavalcanti", "Ações da Cavalcanti Tech caem 4% na abertura do pregão".

​Ana sentiu o café revirar em seu estômago. Se alguém na faculdade ou no hospital a reconhecesse por aquela tatuagem de fênix minimalista que ela tinha no pulso — e que aparecia nitidamente na foto — sua carreira médica acabaria antes mesmo de começar. Ética, moralidade, as regras rígidas do conselho... ela seria triturada.

​Na sede da Cavalcanti Tech, o clima era de funeral. Matheo estava em seu escritório, de pé, olhando a cidade através da parede de vidro. Ele não precisava olhar para trás para saber que seu pai, Alberto Cavalcanti, estava parado à porta, exalando decepção.

​— Você tinha uma única tarefa, Matheo — a voz do velho era como um chicote. — Manter o conselho calmo até a assinatura do contrato. Agora, eles estão dizendo que você é instável. Que gasta as noites em lupanares com mulheres de procedência duvidosa.

​— Ela não é uma mulher qualquer — mentiu Matheo, sem se virar. A mentira saiu de sua boca antes que ele pudesse processar. — É minha noiva. Estávamos discutindo um assunto privado e o ângulo da foto foi infeliz.

​— Noiva? — Alberto soltou uma risada seca. — Você não tem noiva. Você mal tem tempo para dormir.

​— O noivado é oficial, pai. Só estávamos esperando o momento certo para o anúncio. Vou apresentá-la hoje.

​Assim que o pai saiu, Matheo socou a mesa de carvalho. Ele tinha poucas horas. Pegou o telefone e ligou para seu chefe de segurança.

​— Localize-a. Agora. Use o reconhecimento facial da boate, os registros de entrada, qualquer coisa. Eu quero o nome, o endereço e a vida dessa mulher na minha mesa em trinta minutos.

​Ana Clara tentava se concentrar na aula de Patologia. Suas mãos tremiam levemente enquanto ela anotava as características de um carcinoma. Ela sentia que todos olhavam para ela, embora soubesse que era apenas paranoia.

​Ao final da aula, enquanto caminhava pelo pátio da universidade carregando seus livros pesados, um carro preto de vidros totalmente escuros parou bruscamente ao seu lado. Dois homens de terno desceram.

​— Senhorita Ana Clara? — um deles perguntou. Não era uma pergunta de cortesia.

​— Quem são vocês? — ela deu um passo atrás, apertando os livros contra o peito.

​— O senhor Cavalcanti deseja vê-la. Agora.

​— Pois digam ao senhor Cavalcanti que eu tenho um plantão de estágio e que não entro em carros de estranhos.

​Ela tentou desviar, mas o homem bloqueou seu caminho.

— Não foi um convite, senhorita. É sobre a foto. E sobre a sua matrícula que, pelo que verificamos, está prestes a ser cancelada por falta de pagamento.

​O sangue de Ana gelou. Eles sabiam.

​Minutos depois, ela estava sentada no banco de couro do SUV, sendo levada em direção ao coração financeiro da cidade. Quando as portas do elevador privativo se abriram na cobertura da Cavalcanti Tech, ela se deparou com o luxo opressor que definia Matheo.

​Ele estava sentado atrás de uma mesa monumental. Não havia um fio de cabelo fora do lugar.

​— Sente-se, Ana Clara — ele disse, a voz fria como metal. — Ou devo chamá-la de Lumi?

​— Como você me achou? — ela perguntou, a voz firme apesar do medo.

​— Eu sou Matheo Cavalcanti. Eu acho qualquer coisa que eu queira comprar. — Ele deslizou uma pasta de couro pela mesa. — Aí está o contrato. Casamento civil imediato. Separação total de bens. Você terá uma mesada generosa, morará na minha cobertura, frequentará os eventos que eu determinar e, acima de tudo, manterá sua boca fechada sobre sua vida noturna.

​Ana abriu a pasta. O valor escrito na cláusula de "compensação" era o suficiente para pagar sua faculdade, a cirurgia cardíaca de sua avó e ainda sobraria para viver com conforto por anos.

​— E se eu disser não? — ela desafiou.

​Matheo inclinou-se para frente. O cheiro do perfume dele, o mesmo da noite anterior, a perturbou.

— Se disser não, eu garanto que a foto original, em alta resolução, chegue à mesa do reitor da sua faculdade amanhã. Uma futura médica dançando em uma boate de luxo? Imagine o escândalo. Você nunca mais pisará em um hospital.

​Ana sentiu uma lágrima de raiva arder em seus olhos.

— Você é um monstro.

​— Eu sou um homem de negócios — ele corrigiu, sem um pingo de remorso. — E você está falida. Temos um acordo ou eu devo chamar a imprensa para dizer que você era apenas uma diversão de uma noite?

​Ana Clara olhou para a caneta-tinteiro sobre a mesa. Ela odiava aquele homem com cada fibra de seu ser. Mas ela amava a medicina e sua avó ainda mais. Com a mão trêmula, ela assinou o papel.

​— Excelente — Matheo se levantou, abotoando o paletó. — Prepare-se. O jantar de noivado é hoje à noite. E tente parecer apaixonada, Ana. Meu futuro depende disso.

​— E o meu futuro depende de eu não te matar enquanto você dorme — ela rebateu, levantando-se com a cabeça erguida.

​Matheo deu um sorriso de lado, curto e gélido.

— O ódio é uma ótima base para uma atuação convincente. Até a noite, "noiva".

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