Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira semana de Jane Sulvivam na mansão Walter passou de uma forma que nem ela mesma havia conseguido prever, pois aquilo que inicialmente parecia apenas um trabalho necessário para sobreviver em uma cidade estranha acabou se transformando em algo inesperadamente confortável, quase familiar, principalmente por causa da pequena Lilian, que desde o segundo dia passou a demonstrar um apego espontâneo que surpreendeu não apenas Jane, mas também todos que trabalhavam naquela casa.
Lilian era uma criança cheia de energia, curiosa e sensível, e embora tivesse atravessado o silêncio doloroso da perda da mãe, havia nela uma necessidade constante de afeto e presença, algo que Jane parecia oferecer de maneira natural, sem esforço aparente, como se cuidar da menina fosse menos uma obrigação profissional e mais uma extensão de sua própria natureza.
Naquela tarde, por exemplo, o jardim estava tomado pela luz suave do início do outono, e Lilian corria pelo pequeno parquinho construído no fundo da propriedade, enquanto Jane a observava com atenção e as vezes brincava com ela, quando cansava ela se sentava, e sentada em um dos bancos de madeira pintados de branco Lilian pediu para ela empurar o balanço que logo Jane foi empurrar, rindo quando a menina insistia em empurrar o balanço com força demais.
— Mais alto, Jane! — gritava Lilian, segurando as correntes do balanço com entusiasmo. — Eu quero voar!
Jane levantou-se, caminhando até ela com um sorriso divertido.
— Voar é um pouco perigoso, Lili — disse ela, colocando as mãos no balanço e empurrando suavemente. — Mas posso prometer que vamos chegar bem perto disso.
A menina gargalhou, o som leve e livre ecoando pelo jardim.
— Você é a melhor babá do mundo — declarou Lilian, sem qualquer hesitação infantil.
Jane riu, inclinando-se para frente enquanto empurrava o balanço mais uma vez.
— Cuidado com essas declarações, pequena, ou seu pai pode começar a achar que estou subornando você com histórias e chocolate quente.
— Papai não liga para chocolate quente — respondeu Lilian com convicção. — Ele só trabalha.
Jane diminuiu o movimento do balanço lentamente, sentindo um leve aperto no peito ao ouvir aquilo, porque embora a frase tivesse sido dita com a naturalidade de uma criança, havia nela uma verdade silenciosa que não podia ser ignorada.
E não muito longe dali, observando tudo através das amplas janelas do escritório, Aspen Walter permanecia imóvel.
Ele havia se acostumado, nos últimos dias, a pausar o trabalho por alguns minutos apenas para observar aquela cena que se repetia com frequência: Jane e Lilian caminhando pelos corredores, rindo na cozinha com dona Eva, brincando no jardim ou lendo histórias na sala de estar.
Havia algo naquela dinâmica que ele não via havia muito tempo. Leveza. Lilian voltara a sorrir. E Jane era a responsável por isso. Aspen apoiou uma das mãos no vidro da janela, mantendo o olhar atento enquanto a filha finalmente saltava do balanço e corria até Jane para contar algo que, mesmo à distância, parecia extremamente importante.
Ele percebeu, então, que as duas pareciam irmãs.
Não havia distância formal entre babá e criança, nem uma rigidez artificial na relação.
Jane brincava, ria, aconselhava e cuidava de Lilian com uma naturalidade quase fraterna, como se sempre tivesse feito parte daquela casa.
E isso o tranquilizava.
Mas também despertava perguntas.
Porque havia algo em Jane que permanecia oculto, algo que ele não conseguia identificar, mas que se manifestava em pequenos detalhes: na forma educada com que falava, na maneira segura com que se movimentava pela casa, no vocabulário refinado que escapava ocasionalmente durante as conversas.
Ela não parecia alguém comum. E havia outro detalhe que o intrigava ainda mais. Jane não estava dormindo na mansão.
Durante toda aquela semana, mesmo após aceitar o trabalho, ela sempre saía ao final do dia, despedindo-se de Lilian e caminhando em direção ao portão principal com a mesma serenidade com que havia chegado.
Aspen havia oferecido um quarto confortável no segundo andar, um espaço amplo e silencioso que ficava próximo ao quarto da menina.
Mas Jane nunca o utilizara.
Naquela noite, quando o relógio da sala marcava pouco depois das sete, Jane terminava de organizar alguns livros infantis na estante da sala de estar quando dona Eva apareceu na porta, com seu habitual terninho azul impecável e a expressão tranquila de quem administrava aquela casa havia muitos anos.
— Senhorita Jane — disse ela com gentileza — o senhor Walter gostaria de falar com você antes que vá embora.
Jane ergueu o olhar, surpresa.
— Agora?
Eva assentiu.
— Sim. Ele está no escritório.
Jane respirou fundo.
Não havia motivo para preocupação, ela sabia disso.
Ainda assim, algo dentro dela se contraiu levemente.
— Claro — respondeu, tentando manter a naturalidade.
Alguns minutos depois, ela caminhava pelo corredor silencioso da mansão, seguindo Eva até a porta do escritório, onde a governanta parou e abriu a porta com um gesto discreto.
— Senhor Walter, a senhorita Jane está aqui.
— Obrigado, Eva — respondeu a voz grave do interior do cômodo.
Jane entrou.
Eva fechou a porta.
E então ficaram apenas os dois.
Aspen estava sentado atrás da mesa, revisando alguns documentos, mas levantou os olhos assim que ela se aproximou, Jane:
— Boa noite, senhor Walter — disse Jane com educação.
— Boa noite, senhorita Sulvivam — respondeu ele, apoiando a caneta sobre a mesa. — Pode se sentar.
Ela ocupou a cadeira à frente dele, mantendo a postura calma que sempre demonstrava, embora estivesse curiosa.
Aspen cruzou os dedos sobre a mesa, observando-a por alguns segundos antes de falar.
— Notei que a senhorita não está utilizando o quarto que ofereci na casa.
Jane piscou, surpresa pela pergunta direta.
— Ah… sim.
Ela respirou fundo antes de explicar.
— Antes de vir para Londres eu reservei um mês em um hotel, porque não sabia quanto tempo levaria para encontrar trabalho — disse ela com tranquilidade. — Já paguei esse período antecipadamente, então achei que seria mais sensato terminar esse mês lá antes de me mudar definitivamente.
Aspen inclinou levemente a cabeça.
— Entendo.
A explicação era lógica.
Ainda assim, algo nele continuava inquieto.
— A senhorita não mencionou muito sobre sua família — comentou ele com naturalidade calculada.
Jane manteve o olhar firme.
— Eles estão na Espanha.
— Pais?
— Sim.
Aspen esperou por mais detalhes.
Mas eles não vieram.
Ela permanecia educada, respeitosa… e extremamente reservada.
— E o que a trouxe exatamente para Londres? — ele perguntou.
Jane respondeu sem hesitar.
— Estudar.
Aspen arqueou levemente uma sobrancelha.
— E decidiu trabalhar como babá?
Jane sustentou o olhar dele por um momento.
— Eu estudo no turno da noite. Os planos mudam.
A resposta era verdadeira.
Mas incompleta. Aspen percebeu.
E pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu uma curiosidade genuína sobre alguém que não fazia parte do mundo corporativo que dominava sua rotina.
Jane Sulvivam era uma incógnita. Educada demais para alguém comum. Reservada demais para alguém sem passado. Firme demais para alguém tão jovem. Depois de alguns segundos de silêncio, Aspen finalmente assentiu.
— Bem… devo dizer que Lilian parece extremamente feliz com você.
Jane sorriu suavemente.
— Ela é uma menina incrível.
— Ela não sorria assim há muito tempo — acrescentou ele.
Aquilo não era exatamente um elogio.
Era quase uma confissão.
Jane sentiu algo se mover dentro do peito, mas apenas respondeu com delicadeza:
— Fico feliz em poder ajudar.
Aspen observou-a por mais alguns segundos antes de encerrar a conversa.
— Não vou tomar mais do seu tempo. Pode ir descansar.
Jane levantou-se.
— Boa noite, senhor Walter.
— Boa noite, senhorita Sulvivam.
Ela saiu do escritório sem perceber que, no momento em que a porta se fechou, Aspen permaneceu imóvel por alguns instantes, olhando para o espaço vazio à frente da mesa.
Algo naquela jovem não fazia sentido.
E quanto mais ele pensava nisso, mais queria entender.
Alguns minutos depois, ele pegou o telefone que estava sobre a mesa e discou um número específico, aguardando até que a ligação fosse atendida.
— Carter — disse uma voz masculina do outro lado da linha.
Aspen falou em tom calmo.
— Preciso que investigue alguém para mim.
— Nome?
Ele respondeu sem hesitar.
— Jane Sulvivam.
Houve um breve silêncio.
— O que exatamente o senhor quer saber?
Aspen olhou novamente pela janela do escritório, onde Lilian e Jane haviam brincado mais cedo.
— Tudo.
Ele desligou.
Sem saber que, naquele momento, havia iniciado uma investigação que revelaria muito mais do que ele imaginava.







