Mundo de ficçãoIniciar sessãoO táxi desacelerou de maneira quase solene diante da propriedade, como se até mesmo o motorista tivesse sentido a mudança quase imperceptível na atmosfera ao cruzar o limite invisível que separava a cidade vibrante e ruidosa do espaço silencioso e imponente que se erguia diante de Jane, e quando o carro finalmente parou, ela permaneceu imóvel por alguns segundos, com as mãos repousadas sobre a pequena bolsa que trazia no colo, como se estivesse reunindo coragem suficiente para atravessar não apenas aquela entrada monumental, mas também o abismo que separava a jovem orgulhosa que deixara a Espanha da mulher que agora precisava implorar por uma oportunidade.
— Chegamos, senhorita — disse o motorista, olhando-a pelo retrovisor com um misto de curiosidade e neutralidade profissional.
Jane piscou algumas vezes, como se despertasse de um transe, e respondeu com um leve sorriso que não alcançou os olhos.
— Obrigada.
Ela pagou a corrida contando as notas com cuidado excessivo, porque cada euro agora tinha peso, tinha prazo, tinha urgência, e ao fechar a porta do táxi sentiu o vento suave tocar seu rosto, levantando algumas mechas de seu cabelo castanho, enquanto o veículo se afastava lentamente, deixando-a sozinha diante da mansão.
Sozinha.
A palavra ecoou dentro dela com uma força inesperada.
À sua frente não havia grades, não havia muros opressivos, não havia portões dourados como os que cercavam a propriedade de sua família na ilha espanhola, mas havia algo ainda mais imponente: espaço, grandiosidade e segurança implícita. No centro de um canteiro circular perfeitamente desenhado erguia-se um chafariz elegante, cuja água cristalina dançava em arcos suaves sob a luz do final da manhã, criando um som constante e delicado que contrastava com o silêncio quase absoluto do restante da propriedade. O gramado ao redor era de um verde tão uniforme e bem cuidado que parecia ter sido pintado à mão, e o caminho de pedras avermelhadas, alinhadas com precisão geométrica, conduzia até quatro degraus largos que levavam à porta principal da mansão, uma porta de madeira escura trabalhada com detalhes entalhados que revelavam tradição e poder.
Jane engoliu em seco.
— Você consegue — murmurou para si mesma, quase em tom de advertência, como se precisasse ouvir a própria voz para acreditar que ainda tinha controle sobre o que estava acontecendo.
Ela começou a caminhar pelo caminho de pedras, sentindo o som discreto de seus passos ecoar de maneira que lhe pareceu exagerada demais, como se o ambiente inteiro estivesse atento à sua presença, e quando estava a poucos metros dos degraus, percebeu um movimento à sua esquerda.
Um homem alto, vestido com um terno escuro impecável e postura rígida, aproximava-se com passos firmes, o olhar atento e avaliador, típico de alguém treinado para identificar ameaças antes mesmo que elas se materializassem.
— Bom dia — disse ele, parando a uma distância respeitosa, mas suficiente para impor autoridade. — Posso ajudá-la?
Jane endireitou os ombros instintivamente, como sempre fazia quando precisava sustentar um papel que ainda estava aprendendo a desempenhar.
— Bom dia — respondeu, tentando manter a voz estável. — Meu nome é Jane Sulvivam. Vim para o teste da vaga de babá.
O homem inclinou levemente a cabeça, analisando-a com mais atenção, como se cada detalhe — desde o corte simples do vestido que ela escolhera usar até a forma como segurava a bolsa — estivesse sendo registrado em um relatório invisível.
— Documento, por favor.
Ela abriu a bolsa com dedos que se esforçavam para não tremer, retirou o documento e entregou a ele, observando-o examinar a identidade com minúcia quase cirúrgica.
A espera pareceu longa demais.
O som da água do chafariz tornou-se mais evidente, o vento mais frio, o silêncio mais pesado.
Finalmente, ele devolveu o documento.
— A senhorita está sendo aguardada. Pode entrar.
Jane soltou o ar que nem havia percebido que estava prendendo.
— Obrigada.
Ela subiu os quatro degraus com cuidado e, ao atravessar a porta, foi imediatamente envolvida por uma atmosfera completamente diferente da que deixara do lado de fora.
O hall de entrada era amplo, alto, iluminado por um lustre de cristal que descia do teto como uma cascata congelada no tempo, refletindo a luz natural que entrava pelas janelas laterais, e o piso de mármore claro contrastava com os detalhes em madeira escura que ornamentavam as paredes, onde estavam pendurados quadros de antigos moradores — retratos formais, pinturas clássicas, cenas que pareciam carregar histórias silenciosas sobre gerações que haviam passado por ali.







