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Uma noite sozinha

A noite caiu sobre Londres com uma rapidez que Jane ainda não havia aprendido a prever, como se o céu tivesse decidido fechar as cortinas antes que ela pudesse se preparar emocionalmente para o silêncio que viria depois do movimento do dia, e quando saiu do hotel com o casaco apertado contra o corpo e o celular nas mãos, percebeu que o frio parecia mais intenso não apenas pela temperatura, mas porque agora ele atravessava também suas certezas.

O carrinho de hot dog ficava a quase cinco quilômetros dali, distância que em sua antiga realidade teria sido percorrida dentro de um carro confortável, com motorista e música ambiente suave, mas que agora representava uma caminhada longa demais para quem estava economizando até mesmo o valor do transporte, e por isso ela decidiu ir a pé, atravessando ruas iluminadas por postes antigos, observando vitrines elegantes que refletiam sua imagem de maneira quase irônica, como se a cidade a testasse a cada esquina.

Enquanto caminhava, pensamentos se acumulavam como nuvens carregadas antes de uma tempestade inevitável, e entre eles o mais insistente era o anúncio da vaga de babá, aquele pequeno pedaço de papel que agora parecia maior do que qualquer outro plano que tivesse traçado para sobreviver ali.

Cuidar de uma criança.

Ela já havia cuidado da sobrinha algumas vezes, é verdade, embalando-a nos braços durante festas familiares enquanto os adultos discutiam negócios ao redor de mesas longas demais, trocando fraldas com o auxílio de empregadas experientes, distraindo a menina com histórias inventadas enquanto a mãe resolvia compromissos urgentes.

Mas aquilo era diferente.

Ali não haveria tias por perto, nem segurança conhecida, nem paredes familiares protegendo-a de qualquer erro.

Ali ela seria responsável por uma criança desconhecida, em uma casa desconhecida, para pessoas que não faziam ideia de que estavam contratando uma herdeira fugitiva disfarçada de candidata comum.

— Você enlouqueceu — murmurou para si mesma enquanto atravessava uma rua mais movimentada, sentindo o vento bater contra seu rosto. — Você mal consegue cuidar de si agora.

Quando finalmente avistou o carrinho de hot dog, com sua pequena luz amarelada iluminando o vapor que subia da chapa quente, sentiu um alívio estranho, como se aquele ponto fixo na cidade representasse uma espécie de porto improvisado em meio à instabilidade.

Sentou-se em uma das cadeiras de plástico que compunham a mesa de rua em frente ao carrinho, apoiou a bolsa ao lado e pediu o lanche mais simples, calculando mentalmente quanto ainda restaria depois daquela refeição.

Cinquenta euros.

Ela contara novamente pouco antes de sair do hotel, organizando as notas sobre a cama como fizera na primeira noite, e a diminuição do valor parecia acontecer mais rápido do que os dias passavam.

Talvez dois dias.

No máximo três, se economizasse ao extremo.

O homem do carrinho colocou o hot dog à sua frente com um gesto automático, e ela agradeceu com um leve sorriso, segurando o celular como se ele fosse a única ponte concreta entre ela e alguma possibilidade de estabilidade.

O número da vaga de babá estava salvo na tela, e o pequeno círculo verde do W******p parecia, naquele instante, maior do que deveria.

Ela respirou fundo.

— Se não for agora, quando? — sussurrou, mais para se convencer do que para questionar.

Digitou.

“Olá, vi o anúncio da vaga de babá e gostaria de saber se ainda está disponível.”

Olhou para o relógio na tela.

19:02.

Talvez fosse tarde demais para enviar mensagem.

Talvez parecesse desesperada.

Talvez fosse exatamente isso que estava.

Antes que pudesse reconsiderar, a confirmação de envio apareceu, seguida dos dois pequenos traços que indicavam que a mensagem havia sido entregue.

Ela colocou o celular sobre a mesa por alguns segundos, tentando concentrar-se no lanche, mas a ansiedade era uma presença constante que tornava impossível qualquer distração completa.

O celular vibrou.

Ela quase derrubou o copo de refrigerante ao pegá-lo rapidamente.

“Olá, boa noite. A vaga está aberta, sim. Você tem experiência com crianças?”

O coração acelerou com uma intensidade que não combinava com a simplicidade da pergunta, porque naquela frase estava condensada a diferença entre continuar lutando ali ou admitir derrota.

Ela olhou para a própria resposta por alguns segundos antes de enviá-la, consciente de que a verdade completa talvez não fosse suficiente.

“Sim, tenho.”

Não era uma mentira absoluta, mas também não era a verdade inteira.

Os segundos que se seguiram pareceram mais longos do que deveriam, e ela percebeu que prendia a respiração sem perceber.

A resposta veio logo.

“Ótimo. Precisaremos marcar um dia de experiência com a criança. Você estaria disponível amanhã?”

Jane sentiu um frio diferente percorrer-lhe a espinha, não o frio do clima londrino, mas o frio do desconhecido, porque aceitar significava dar um passo definitivo para dentro de uma realidade que não controlava.

“Amanhã está perfeito para mim.”

Enviou antes que o medo pudesse formular objeções mais elaboradas.

“Envio o endereço e horário em seguida.”

Ela apoiou o celular sobre a mesa novamente, deixando que o ar escapasse lentamente de seus pulmões, como se tivesse acabado de atravessar uma ponte frágil suspensa sobre um abismo invisível.

O endereço chegou minutos depois.

Kensington.

Mesmo para alguém que conhecia pouco de Londres, o nome soava imponente, elegante, distante da simplicidade do hotel onde estava hospedada e ainda mais distante do carrinho de hot dog onde agora jantava.

— Claro que é Kensington — murmurou, quase rindo da ironia.

Um bairro nobre.

Uma residência provavelmente luxuosa.

Uma família que não fazia ideia de que a garota sentada ali, contando moedas sob a luz amarelada de um poste, vinha de uma ilha espanhola onde sua família comandava um império de porcelana fina.

Ela mordeu o lanche devagar, sentindo o contraste entre a simplicidade da refeição e a complexidade dos pensamentos que se acumulavam.

E se não gostassem dela?

E se a criança fosse difícil?

E se descobrissem quem ela realmente era?

E se perguntassem sobre sua família?

Ali ninguém sabia quem ela era.

Ali seu sobrenome não abria portas nem fechava acordos.

Ali ela era apenas Jane.

E talvez isso fosse, ao mesmo tempo, assustador e libertador.

O celular vibrou novamente.

“Endereço confirmado. Chegue às 10h. Pergunte por Aspen Walter.”

Ela leu o nome duas vezes.

Aspen Walter.

Havia algo nele que soava familiar, mas ela não conseguiu identificar de imediato de onde vinha a lembrança, e naquele momento a preocupação maior era simplesmente conseguir chegar lá no horário, com postura firme e palavras seguras o suficiente para convencer alguém de que ela podia cuidar do que lhe fosse confiado.

Cinquenta euros.

Talvez dois dias.

Ela olhou para as próprias mãos, apoiadas sobre a mesa de plástico, e percebeu que estavam levemente trêmulas, não apenas pelo frio, mas pelo peso da responsabilidade que começava a tomar forma.

— Você queria independência — murmurou para si mesma. — Agora precisa sustentá-la.

Quando terminou o lanche, levantou-se devagar, ajustou o casaco e iniciou a longa caminhada de volta ao hotel, deixando para trás a pequena luz do carrinho de hot dog que, naquela noite, parecia ter sido testemunha silenciosa de uma decisão importante demais para ser ignorada.

O trajeto de volta foi mais silencioso, como se a cidade respeitasse a intensidade dos pensamentos que a acompanhavam, e cada passo parecia aproximá-la não apenas do hotel simples onde passaria a noite, mas do encontro que poderia redefinir completamente sua permanência em Londres.

Ao entrar no quarto, fechou a porta com cuidado, apoiou-se por alguns segundos contra a madeira fria e deixou que o silêncio a envolvesse.

Amanhã.

A palavra ecoava com uma força quase solene.

Amanhã ela pisaria em uma casa que não conhecia, diante de pessoas que não sabiam nada sobre sua verdadeira identidade, tentando provar que era capaz de assumir uma responsabilidade que, até poucos dias atrás, jamais imaginara buscar.

Ela sentou-se na cama, abriu a bolsa e contou novamente as notas restantes, como se o gesto repetitivo pudesse trazer algum tipo de controle sobre o que estava por vir.

Cinquenta euros.

Talvez dois dias.

No máximo.

Mas agora havia uma entrevista.

Havia uma chance.

E enquanto deitava na cama estreita, encarando o teto branco que parecia refletir suas inseguranças, Jane percebeu que a primeira noite verdadeiramente sozinha não era apenas sobre a falta de dinheiro ou a ausência do conforto familiar, mas sobre o momento exato em que alguém entende que não há mais para onde voltar sem admitir fracasso.

Ela fechou os olhos devagar, abraçando o travesseiro como se ele pudesse oferecer algum tipo de proteção invisível, e permitiu que um pensamento se instalasse com firmeza suficiente para atravessar o medo:

Se aquela vaga fosse sua, talvez Londres deixasse de ser apenas uma cidade fria e distante, e começasse a se tornar o cenário onde ela provaria, para o pai e para si mesma, que era capaz de sobreviver — e vencer — sem o peso do sobrenome que aprendera a carregar desde o nascimento.

E, naquela noite, pela primeira vez, o desespero dividiu espaço com algo que se parecia muito com esperança.

 

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