Mundo de ficçãoIniciar sessãoO primeiro mês em Londres havia passado de maneira tão intensa e cheia de mudanças que, quando Jane Sulvivam finalmente percebeu que já não era mais uma recém-chegada tentando sobreviver em uma cidade estranha, mas sim alguém que começava a construir uma rotina verdadeira, ela sentiu uma mistura curiosa de alívio e surpresa, pois jamais teria imaginado, quando desembarcou com apenas cem euros e uma dose enorme de orgulho ferido, que acabaria encontrando estabilidade justamente dentro da casa de um homem cuja presença ainda a deixava inquieta de maneiras que ela não esperava, Walter vinha ganhando espaço em seu coração.
Durante o dia, sua vida girava em torno da pequena Lilian Walter, que rapidamente passou a ocupar um espaço especial em seu coração, não apenas como a criança que precisava de cuidados, mas como uma companhia constante, alegre e curiosa, cuja energia parecia preencher os corredores silenciosos da mansão com uma leveza que havia muito tempo não existia naquele lugar.
À noite, porém, Jane atravessava a cidade para frequentar suas aulas de artes plásticas, onde finalmente podia respirar o mundo que sempre desejara, um espaço cheio de telas espalhadas, pincéis esquecidos em copos de vidro, esculturas inacabadas e jovens artistas que discutiam cores, luz, emoção e expressão como se cada conversa fosse uma tentativa sincera de compreender o mundo através da arte.
Conciliar os estudos com o trabalho não era simples, mas Jane fazia aquilo com a mesma determinação silenciosa que a trouxera até Londres, organizando seus horários com cuidado, revisando anotações no metrô enquanto voltava para a mansão e aproveitando qualquer momento livre para desenhar em um pequeno caderno que carregava sempre consigo, como se cada traço fosse uma pequena prova de que sua decisão de deixar a ilha e enfrentar o pai não havia sido um erro.
E então, quase sem perceber, um mês inteiro se passou.
Naquela manhã em especial, Jane terminava de organizar algumas de suas poucas malas no pequeno quarto do hotel onde havia passado as últimas semanas, olhando ao redor para o espaço que, embora simples, havia sido seu refúgio durante um período de incerteza e adaptação, pois foi ali que ela chorou na primeira noite, contou suas economias pela décima vez e tentou convencer a si mesma de que ainda era capaz de seguir em frente sem o dinheiro e a proteção da família.
Agora, porém, era hora de partir.
Ela fechou a última mala com um clique decidido, respirando fundo antes de pegar o telefone e chamar o táxi que a levaria até a mansão Walter, onde começaria oficialmente uma nova fase de sua vida.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Lilian praticamente pulava de excitação.
— Eva! Eva! — a menina gritava enquanto corria pelo corredor da casa, os pequenos passos ecoando pelo chão de madeira polida.
A governanta apareceu na porta da cozinha com a calma habitual de quem já havia visto muitas situações inesperadas naquela casa.
— O que foi agora, senhorita Lilian? — perguntou ela, ajustando discretamente o blazer azul do terninho que sempre usava.
A menina abriu os braços como se estivesse anunciando a notícia mais importante do mundo.
— A Ane vai morar com a gente!
Eva sorriu discretamente, pois aquela notícia já era conhecida, mas a empolgação da criança era contagiante.
— Sim, eu sei.
— Eu já contei para todo mundo — continuou Lilian, empolgada, girando pelo corredor como se estivesse dançando. — Contei para o jardineiro, para o cozinheiro e até para o moço da manutenção!
Eva ergueu uma sobrancelha divertida.
— Imagino que o senhor Walter também já saiba.
— Claro que sabe! — respondeu Lilian com convicção absoluta. — Foi ele que deixou!
Jane chegou pouco depois, carregando suas malas enquanto o segurança do portão ajudava a trazê-las até o interior da casa, pois apesar de não serem muitas, ainda eram pesadas para alguém que havia se acostumado a caminhar pela cidade apenas com uma bolsa.
Assim que atravessou o hall de entrada, Lilian apareceu correndo com a velocidade típica de uma criança de cinco anos que acabara de receber exatamente aquilo que queria.
— Ane!
Jane mal teve tempo de largar a bolsa antes de ser abraçada pela menina, que se agarrou à sua cintura com entusiasmo.
— Olha só quem parece feliz — disse Jane, rindo enquanto se inclinava para abraçar Lilian.
— Agora você mora aqui! — declarou Lilian com a convicção alegre de quem acreditava que aquela era a melhor notícia possível.
Jane inclinou-se para abraçá-la com carinho.
— Sim, Lili… agora eu moro aqui.
O apelido havia surgido poucos dias antes, quando Lilian decidiu que "Jane" era um nome sério demais para alguém que desenhava unicórnios, inventava histórias antes de dormir e fingia ser uma princesa perdida em castelos imaginários durante as brincadeiras no jardim.
— Eu vou te chamar de Ane — anunciou a menina naquele dia, com a naturalidade de quem cria novas regras para o mundo.
— Ane? — Jane havia perguntado, divertida.
— Porque Jane parece nome de professora — explicou Lilian com toda a lógica infantil possível.
Jane riu e aceitou.
— Então está combinado… você é Lili e eu sou Ane.
Desde então, os apelidos haviam se tornado parte natural da convivência entre as duas.
Naquele momento, enquanto Lilian arrastava Jane pela mão para mostrar o quarto que agora seria dela, Aspen Walter observava a cena do alto da escadaria, pois havia acabado de voltar de uma reunião na empresa e ainda carregava o paletó sobre o braço, mas parou por alguns segundos ao ver a filha praticamente saltando de alegria ao redor da nova moradora da casa.
Havia algo naquela imagem que aquecia silenciosamente o ambiente da mansão.
Jane se movia pelo espaço com respeito, sem exageros e sem demonstrar a menor pretensão de pertencer àquele mundo luxuoso.
E ainda assim… ela parecia se encaixar ali.
Nos dias que se seguiram, a nova rotina se estabeleceu de maneira quase natural, pois Jane passava as manhãs e tardes com Lilian, organizando atividades, ajudando com desenhos, inventando jogos no jardim e às vezes apenas conversando com a menina enquanto caminhavam pelos corredores da casa.
Aspen continuava trabalhando a maior parte do tempo.
Cerca de setenta por cento de suas atividades profissionais eram realizadas no escritório da própria mansão, onde ele passava horas revisando contratos, participando de reuniões virtuais ou analisando relatórios da empresa.
Às vezes, no entanto, precisava sair para compromissos presenciais. E era nesses momentos que Jane percebia algo curioso. A rotina dele era muito parecida com a de seu pai. Mesma disciplina. Mesma intensidade. Mesma dedicação quase obsessiva ao trabalho. Mas havia uma diferença fundamental. Walter tinha coração. Talvez ele o escondesse sob uma camada de frieza e postura firme, mas estava ali, visível sempre que ele olhava para a filha, e Jane poderia jurar que algo estava nascendo entre eles, entre olhares.
Jane já havia presenciado momentos em que Aspen interrompia reuniões para atender um chamado de Lilian, ou deixava documentos de lado apenas para ouvir a menina contar sobre um desenho novo.
Ele não demonstrava afeto de maneira expansiva. Mas o cuidado existia. E isso fazia Jane respeitá-lo de uma maneira que ela nunca havia conseguido com o próprio pai, ela sentia uma leve inveja de Lilian por ter um pai assim.
Certa noite quando não tinha aula , enquanto ajudava Lilian a organizar alguns brinquedos na sala de estar, Jane ouviu passos no corredor e ergueu o olhar no momento em que Aspen entrou no ambiente com a expressão cansada de quem havia passado o dia inteiro resolvendo problemas e tomando decisões importantes.
Lilian levantou a cabeça imediatamente.
— Papai!
Ele abriu um pequeno sorriso.
— Boa noite, pequena.
Lilian correu até ele e o abraçou com a naturalidade de quem sabia que aquele era seu lugar.
Jane observou a cena em silêncio.
Aspen então ergueu os olhos na direção dela.
— Senhorita Sulvivam.
— Boa noite, senhor Walter.
Houve um breve silêncio antes que ele falasse novamente.
— Já jantaram?
Jane hesitou por um momento.
— Ainda não.
Aspen pensou por alguns segundos antes de responder.
— Então jantem comigo.
Jane piscou, surpresa.
— Não quero atrapalhar…
— Não está atrapalhando — respondeu ele com simplicidade.
Lilian imediatamente comemorou.
— Jantar juntos!
A partir daquela noite, algo mudou.
Os jantares passaram a se tornar um hábito quando Jane não tinha aula. No início eram formais, quase protocolares, com conversas educadas e pausas silenciosas entre um prato e outro. Mas aos poucos a conversa começou a fluir. Jane falava sobre suas aulas de arte, Aspen parecia dar muita atenção sem julgr o amor dela pelas obras, ele parecia curioso e isso a conquistava.
— Bom eu tentei lapidar um vaso bem simples uma vez mas meu cachorro acabou destruindo , já que ele queria muito brincar.
— Interessante você tem um estudio em casa? Gosta de cachorros?
— Sim - Ela fala pausadamente como se tivesse falado muito sobre si mesma, nisso Lilian interrompe falando soebre seu desenho, o que mentalmente Jane agradece, ela ainda não se sentia segura de revelar quem é.
O olhar de Aspen estava sobre si e ela o sustenta de forma intensa por um tempo, ela via intensidade e desejo no olhar dele, algo que crescia em silêncio e ele também via o mesmo no olhar dela.
Lilian contava histórias exageradas sobre seu dia. E Aspen escutava. Às vezes fazia perguntas. Às vezes apenas observava.
Mas, com o passar das semanas, aqueles momentos começaram a se tornar algo mais íntimo do que simples refeições.
Jane aceitava os convites sem resistência, em parte porque estava sem dinheiro, mas também porque havia algo reconfortante naquelas noites. Aspen, por sua vez, começava a perceber algo que o surpreendia. Ele gostava da presença dela. Não apenas pela forma como cuidava de Lilian.
Mas pela maneira educada com que falava, pela inteligência que aparecia em comentários discretos e pela calma que parecia envolver o ambiente sempre que ela estava por perto. E havia também a beleza dela.
Uma beleza natural, sem esforço, que ele tentava ignorar… mas não conseguia completamente.
À mesa de jantar, às vezes aconteciam pequenos momentos silenciosos.
Olhares que se cruzavam. Segundos que pareciam durar mais do que deveriam. Jane desviava primeiro. Aspen voltava a atenção para o prato. E Lilian continuava falando sobre qualquer assunto infantil sem perceber absolutamente nada. Mas aqueles instantes, quase imperceptíveis, alimentavam algo novo entre eles. Um sentimento silencioso. Recente. E perigosamente mútuo.







