Rafael
O relógio de mármore no escritório indicava que a madrugada já ia avançada, mas o sono era um luxo que minha mente se recusava a conceder. Eu vinha evitando o quarto com uma persistência quase covarde. Estar no mesmo ambiente que Isadora, sentir o calor do seu corpo a poucos centímetros do meu sem poder encurtar a distância, era uma tortura que eu não estava pronto para enfrentar. A mansão, que antes eu considerava o meu império de ordem, agora parecia um labirinto de ecos e culpas. Fui para a varanda, buscando no vento frio que soprava dos jardins algo que dissipasse a névoa de remorso que se instalara em meu peito desde o momento em que vi aquele laudo laboratorial.
Eu olhava para as luzes distantes da cidade, o horizonte de São Paulo piscando como um sistema complexo que eu entendia perfeitamente, ao contrário da mulher que dormia a poucos metros dali. Senti uma presença atrás de mim. Meus ombros ficaram rígidos instantaneamente. Por um segundo, um lapso de esperança irrac