Isadora
No jatinho, a mudança de Rafael foi brutal.
Horas antes, ele estava na cozinha dos meus pais, de camiseta polo, virando panquecas com a naturalidade de quem parecia ter nascido ali. O homem que brincava com minha mãe, resolvia um problema impossível e depois me possuía na cama de solteiro era o mesmo que agora mantinha três assentos de distância, o laptop aberto, o rosto fechado, os olhos frios sobre planilhas e números.
Eu não existia.
Observei cada gesto dele com uma mistura de vergonha e raiva. A frieza era deliberada, calculada. Um lembrete cruel de que aquela intimidade tinha sido apenas uma transação. A farsa tinha acabado. A dívida, paga. Mas o controle dele… esse permanecia intacto.
Senti-me uma idiota por ter cedido tão completamente. Por ter esquecido quem eu era por alguns minutos. Ainda assim, a lembrança da urgência no quarto me atravessava o corpo como um eco difícil de silenciar. Meu corpo ainda vibrava, ainda guardava o peso dele sobre mim, a forma como me tomo