05. Uma Promessa

Laura Mendes

Theo ainda estava agarrado a mim, a respiração finalmente tranquila, como se todo o caos tivesse sido drenado do corpinho dele. Minha mão continuava em seus cabelos, em um movimento lento, quase automático, como se parar significasse que tudo poderia voltar. Mas não era nele que eu estava focada.

Era na presença parada na porta.

Levantei os olhos devagar.

Adrian não tinha se aproximado, não tinha dito nada, apenas observava, com aquela expressão fechada que parecia esconder mais do que mostrava, como se sentir fosse algo que ele tivesse aprendido a evitar.

Com cuidado, me afastei de Theo, ajeitando-o na cama, soltando seus dedos dos meus aos poucos.

"Ele dormiu", falei baixo, mais para quebrar o silêncio do que por qualquer outra coisa.

Adrian entrou no quarto sem responder. Seus passos eram firmes, controlados, e por um segundo achei que ele diria algo… qualquer coisa. Mas não. Ele apenas se inclinou, beijou a testa do filho e saiu logo em seguida, como se eu não estivesse ali.

Meu corpo enrijeceu.

Eu devia ter ficado quieta. Sabia disso.

Mas alguma coisa em mim simplesmente não aceitava aquilo. Não aceitava a forma como ele tratava tudo como se pudesse ser resolvido com distância, com controle, com silêncio.

Fiquei parada no meio do quarto por alguns segundos, tentando entender por que aquilo me incomodava tanto.

Talvez porque eu já tivesse visto o que o silêncio fazia com as pessoas.

Na manhã seguinte, a casa parecia ainda mais vazia. Desci as escadas sentindo um desconforto estranho, como se estivesse ocupando um lugar que não me pertencia, e encontrei a cozinha impecável, o café já servido, funcionários circulando em silêncio, evitando contato direto.

Peguei uma xícara, mais pelo hábito do que por vontade.

"Você dormiu bem?"

A voz pequena me fez virar.

Theo.

Sorri automaticamente, me aproximando.

"Dormi melhor sabendo que você também dormiu."

Ele subiu na cadeira, fazendo uma careta leve, como se a resposta não fosse exatamente o que ele queria ouvir.

"Eu não gosto da noite, Laura."

Meu peito apertou.

Ele disse aquilo com uma naturalidade que não combinava com a idade, como se o medo já fosse parte dele.

"Você vai embora?"

A pergunta veio de repente, me pegando desprevenida.

"Por que acha isso?"

Ele deu de ombros, evitando meu olhar.

"Porque todo mundo vai… até a minha mãmãe foi."

O ar ficou pesado dentro de mim.

Por um segundo, não soube o que dizer.

Me agachei na frente dele, tentando manter a voz firme.

"Ei… não pensa assim. Você é muito amado, Theo. E nada disso é sua culpa."

Ele não pareceu convencido.

E aquilo doeu mais do que deveria.

"Você tem filho?"

Meu corpo travou por um instante.

Memórias vieram rápido demais, fortes demais, mas eu as empurrei de volta para onde sempre deixava.

"Não", respondi, forçando naturalidade.

O caminho até a escola foi silencioso, mas, dessa vez, não foi só por causa de Theo. Eu comecei a prestar atenção em coisas que antes tinham passado despercebidas.

O carro.

Os homens.

Os olhares atentos demais.

Um deles falou algo no rádio, baixo o suficiente para eu não entender, enquanto outro observava o retrovisor com frequência, como se esperasse que algo acontecesse a qualquer momento.

Meu estômago revirou.

"Isso é sempre assim?", perguntei, tentando parecer casual.

O motorista demorou um segundo antes de responder.

"Procedimento padrão."

Aquilo não parecia padrão para mim.

Deixei Theo na escola com um beijo demorado, querendo que ele levasse um pouco de segurança comigo, mesmo sabendo que não era tão simples assim.

Meu telefone tocou, eu não conhecia aquele número. Mas atendi prontamente com medo de ser algo sobre a minha mãe.

"Alô" sussurrei.

"Laura." era a voz de Marcos o maldito gerente do restaurante."

Esqueci que esse idiota tinha meu número.

"O que você quer? "

"Eu liguei para dizer que aquele maldito advogado, ou seja lá o que ele é, fez com quem fechassem o restaurante. O que você fez sua vadia?"

Fiquei incrédula. Adrian Montenegro era poderoso o suficiente para fazer com que fechassem u restaurante de prestígio.

"Eu não fiz nada. E vai se foder, não trabalho mais para você. " cuspi as palavras".

"Isso não vai ficar assim."

"Que bom que ele fez isso. Agora você entendera como é ficar desempregado. Passar bem!" encerrei a ligação. "

Me sentei sentindo o fôlego sumindo. Porque um homem ocupado se preocuparia em fechar um restaurante.

Meu deus. Afinal, com quem eu estava lidando?

"Senhorita Laura." uma das funcionárias se aproximou me tirando do transe."

"O senhor Montenegro quer falar com você."

Claro que queria. Era só o que faltava.

Respirei fundo antes de subir, tentando afastar a sensação crescente de que eu estava entrando em algo muito maior do que imaginava. Quando parei diante da porta do escritório, hesitei por um segundo, mas bati.

"Entre."

A voz veio firme.

Abri a porta e o encontrei atrás da mesa, mas havia algo diferente nele, algo mais tenso, mais contido.

"Feche a porta, senhorita Mendes."

Obedeci.

Ele se levantou e começou a andar pelo escritório, cada movimento calculado, como se estivesse organizando pensamentos antes de falar. Aquilo me deixou mais nervosa do que se ele simplesmente tivesse gritado.

"Acha que não amo meu filho?"

A pergunta me pegou desprevenida.

"Eu… eu não quis dizer isso."

"Você não devia ter dito aquilo", ele respondeu, parando a poucos passos de mim. "O que você sabe sobre amor?"

Engoli em seco.

Eu sabia mais do que gostaria.

Sustentei o olhar dele mesmo assim.

"Eu quis dizer que seu filho precisa de você."

O maxilar dele travou.

"Você está aqui há dois dias."

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Mas eu não desviei.

Não dessa vez.

Por um segundo, tive a impressão de que ele diria algo mais, algo que realmente importava, mas o telefone tocou, cortando o momento.

Aproveitei aquilo para sair.

O ar do corredor pareceu mais leve, mas meu coração ainda batia rápido demais.

Aquilo não tinha acabado.

Eu sabia.

Dei alguns passos, tentando organizar a cabeça, quando uma voz atravessou o silêncio da casa, forte o suficiente para me fazer parar.

"Você não é capaz de cuidar do meu neto, Adrian."

Meu corpo ficou imóvel.

A porta do escritório estava entreaberta.

A voz continuou, carregada de desprezo.

"Um homem solteiro, que mal fica em casa, cercado de seguranças… isso não é vida para uma criança."

Meu coração começou a acelerar.

Sem perceber, me aproximei um pouco mais.

Foi então que vi o telefone sobre a mesa.

No viva-voz.

"Eu vou tirar ele de você", a voz continuou, firme. "E você sabe que eu consigo."

O ar pareceu faltar.

"Você já perdeu demais, Adrian… e, se continuar assim, vai perder ele também."

Dei um passo para trás.

Eu não devia estar ouvindo aquilo.

Mas já era tarde demais.

Agora eu entendia.

O problema não era só quem Adrian Montenegro era.

Era tudo o que podia ser tirado dele.

E, de alguma forma…

Eu já estava envolvida nisso.

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