04. Pesadelos
Laura Mendes
Meu rosto queimava, mas não era só vergonha — era aquela sensação sufocante de estar sendo colocada contra a parede, sem uma saída real, como se qualquer resposta que eu desse já estivesse decidida antes mesmo de eu abrir a boca.
Eu queria recusar aquele emprego, mas tinha vinte e quatro anos, apenas trinta dólares na carteira e uma porrada de dívidas e uma vida problemática.
Queria manter o pouco de dignidade que ainda me restava, virar as costas e sair dali com a cabeça erguida… mas a imagem da minha mãe, imóvel naquela cama de hospital, respirando com ajuda de aparelhos, esmagou qualquer impulso de rebeldia que ainda existia em mim.
Eu engoli seco e abaixei a cabeça sem conseguir olhar nos olhos daquele maldito desembargador. "Eu aceito o trabalho."
Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria, mas firme o suficiente para não soar como um pedido.Ele não demonstrou surpresa, nem satisfação. Apenas assentiu, como se aquilo fosse inevitável.
"Como imaginei."
Aquilo me irritou mais do que deveria, mas eu não disse nada. Não podia.
"Você começa hoje", continuou ele, voltando para trás da mesa com a mesma frieza controlada. "E ah… terá que morar aqui. Facilita a rotina."
Meu coração deu um pequeno salto com a imposição, mas eu não discordei. Não tinha esse luxo. Eu estava nas mãos daquele homem frio.
"Um motorista vai buscar suas coisas."
Por um segundo, pensei no meu trailer apertado, nos poucos móveis antigos, nas roupas que cabiam em duas malas pequenas. Não havia exatamente uma vida inteira para levar.
"Não tenho muita coisa", murmurei.
Ele apenas assentiu, já distraído com papéis sobre a mesa, como se eu já tivesse sido resolvida, encaixada, arquivada nos seus termos. E foi assim que eu fui dispensada. Sem boas-vindas. Sem explicações. Sem espaço.
Saí daquele escritório com a sensação estranha de que tinha acabado de atravessar uma porta que não se fechava mais atrás de mim. Observei a porta de um lavabo ao lado do escritório, entrei e a fechei, me apoiando na pia sem nem conseguir endireitar a postura. Deslizei as mãos pelo cabelo e me encarei no espelho.
As coisas deveriam ser diferentes… Eu tinha sonhos... do passado que eu tanto precisava esquecer. Mas, diante da minha mãe paralisada numa cama com uma doença maldita, a minha única opção foi trabalhar para comer — agradecendo a Deus por pelo menos não ter que vender meu corpo para isso.
"Senhorita."
Duas batidas na porta me fizeram sair do transe.
"Venha comigo. Irei apresentar seu quarto."
Respirei fundo e saí, seguindo a mulher de expressão dura como se ela já estivesse acostumada a fazer isso sempre.
Subi as enormes escadas me perguntando, a cada degrau, como aquele homem podia ser tão rico… e tão infeliz.
"Esse é seu quarto. O café é servido sempre às 07:00, as roupas são lavadas às 09:00, o menino precisa estar pontualmente na escola pela manhã. Enfim… aí estão suas tarefas."
Ela me entregou a lista e virou as costas.
Fiquei olhando para a porta, incrédula.
Meu Deus. Até a empregada desse homem era insuportável.
Observei ao redor. A cama parecia não ter fim, os lençóis eram impecavelmente brancos, as janelas altas deixando entrar uma luz suave que tornava tudo quase irreal. Aquilo não parecia um lugar onde alguém vivia… parecia um lugar onde alguém apenas existia.
Deixei minha bolsa sobre a cama e caminhei devagar pelo corredor, tentando me situar naquele espaço que agora, de alguma forma, também era meu.
A casa inteira carregava um silêncio estranho. Foi quando meus olhos pararam nas fotos. Algumas delas com outras pessoas importantes, juízes e advogados.
Mas a minha atenção parou para uma mulher.
Linda de um jeito leve, natural, com um sorriso que parecia aquecer o ambiente mesmo presa em uma moldura. Os cabelos loiros, iguais aos de Theo, chamaram minha atenção. Em algumas fotos, ela estava ao lado de Adrian — com uma expressão mais suave do que qualquer uma que eu tinha visto até agora. Em outras, segurava um bebê.
Theo. Meu peito apertou sem aviso.
Aquilo não aliviou nada. Só tornou tudo mais difícil de respirar.
Mas os olhos dela…
Me lembraram alguém que eu passei anos tentando apagar da minha vida.
Afastei o olhar imediatamente, como se estivesse tocando em algo que não me pertencia.
Olhei a lista.
Hora de buscar Theo na escola.
Quando me aproximei da cozinha, ouvi vozes baixas.
"Você viu a nova babá?"
"Coitada. Mais uma que não dura. Ninguém aguenta a noite nessa casa."
"Ninguém dura. Depois que a esposa morreu no acidente."
Respirei fundo. Aquela casa parecia engolir as pessoas.
Dei um G****e: Adrian Montenegro. Desembargador e pelo visto um CEO milionário, Um homem absurdamente rico. Alguém que parecia ter controle absoluto sobre tudo… menos sobre aquilo que realmente importava.
Não havia nada falando sobre o acidente de sua esposa, que estranho.
Buscar Theo na escola foi a primeira coisa que realmente me tirou do eixo.
O carro já era mais do que eu esperava, mas não era só isso.
Havia seguranças.
Dois homens atentos, posicionados próximos ao portão, observando tudo com um cuidado que não combinava com a rotina de uma criança.
Franzi levemente a testa.
Do que exatamente Adrian Montenegro precisava se proteger?
Ou de quem?
Entrei no carro com um aperto no peito.
Ao chegar ao portão da escola, o sorriso leve e os cabelos da cor do sol me puxaram de volta.
"Laura!"
Ele já vinha correndo na minha direção.
"Você voltou!"
Sorri, me abaixando um pouco para recebê-lo.
"Eu disse que voltaria, não disse?"
Ele segurou minha mão como se aquilo fosse natural… como se eu já tivesse feito parte da vida dele antes.
E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa, algo dentro de mim cedeu.
O resto da tarde foi surpreendentemente leve.
Theo falava sem parar, pulava de assunto em assunto, fazia perguntas que às vezes não tinham resposta — e outras vezes tinham significado demais para alguém tão pequeno.
Ainda assim, não houve gritos. Nem crises.
Só uma calma estranha… quase frágil.
Foi no jantar que a tensão voltou.
A mesa era grande demais. Formal demais. Fria demais para três pessoas.
Ajudei Theo com a comida, cortando em pedaços menores enquanto ele falava sobre a escola, tentando manter aquele pequeno espaço seguro para ele.
Foi quando senti a presença dele.
Levantei o olhar.
Adrian estava sentado à mesa, em silêncio, observando.
Ele não perguntou como foi o dia do filho.
Não disse nada.
Apenas comeu, como se estivesse distante de tudo, mesmo estando ali.
Como aquela criança suportava tanta ausência?
Depois do jantar, eu não consegui dormir.
Me revirei nos lençóis por horas… até que o grito rasgou o silêncio da casa.
Eu não pensei. Só corri.
Quando entrei no quarto, Theo se debatia na cama, preso em algo que só existia dentro da mente dele. A respiração descompassada, o rosto tomado por um medo que nenhuma criança deveria conhecer.
"Não… não…"
Meu coração apertou.
"Theo…" Me aproximei devagar, sentando ao lado dele. "Ei… tá tudo bem… você tá seguro…"
Ele continuava se debatendo, como se não conseguisse me ouvir.
"Ela… ela… MAMÃE!"
O grito veio mais forte, desesperado.
Eu não sabia o que fazer.
Mas minha mão encontrou a dele.
"Eu tô aqui, meu amor."
As palavras saíram sem esforço… como se não fossem novas. Como se fossem memória. Como se eu já tivesse dito aquilo antes — e falhado.
Demorou.
Mais do que eu gostaria.
Mas, aos poucos, o corpo dele foi relaxando, a respiração diminuindo, até que os olhos se abriram, ainda confusos.
"Laura…?"
Ele se agarrou em mim com força, como se eu fosse a única coisa impedindo tudo de desmoronar.
Eu o abracei sem pensar, sentindo uma lágrima escorrer.
Agora eu entendia.
Era por isso que ninguém ficava.
Theo era uma criança assombrada pela morte da própria mãe.
Seis anos.
Só seis anos.
Quando ergui o olhar, encontrei Adrian parado na porta.
Observando.
O silêncio entre nós se estendeu, pesado.
"Isso acontece toda noite."
A voz dele saiu baixa. Controlada.
"Já levei a terapias. Médicos. Especialistas que você nem imagina. Nada adianta."
Eu ainda estava com Theo agarrado a mim quando respondi, sem desviar o olhar:
"Talvez ele precise só de amor."
Os olhos azuis dele escureceram, como se eu tivesse ultrapassado um limite invisível.
E, naquele momento…
Eu tive certeza de que tinha acabado de arrumar um problema.