02. Sr Montenegro

Laura

O ônibus me deixou três quadras antes do endereço. Vejo um espelho em frente a uma loja chique, confiro novamente a roupa. Um vestido preto social que ia até meus joelhos, um salto preto de aproximadamente três centímetros e os cabelos num coque.

Eu fiquei alguns segundos parada na calçada, olhando o endereço amassado na minha mão como se ele fosse se transformar em outra coisa se eu olhasse o suficiente.

Puta merda. Enquanto eu andava quase me perdia. Casas enormes, jardins perfeitamente podados, carros luxuosos estacionados nas entradas de pedra. Aquela parte da cidade parecia existir em outra realidade, muito distante da minha.

Engoli seco e comecei a caminhar. Cada passo fazia meu estômago apertar mais.

Eu tinha usado o último dinheiro que tinha para pagar aquela passagem de ônibus. Se aquilo fosse alguma espécie de brincadeira cruel…

O papel tremia levemente entre meus dedos quando finalmente parei diante do portão.

Era alto, de ferro preto, com detalhes ornamentados que provavelmente custavam mais do que tudo que eu possuía no mundo.

"Meu Deus, Laura." olhei para mim mesma me sentindo uma coitada.

Por um segundo pensei em ir embora. Como alguém iria me oferecer um emprego assim tão repentinamente?

Mas então lembrei da conta do hospital da minha mãe sobre a mesa. Seja lá o que fosse isso, talvez seria uma intervenção divina. Respirei fundo e apertei o botão do interfone.

Alguns segundos de silêncio. Então uma voz feminina respondeu, a mesma que falou comigo por telefone.

"Senhorita Laura Mendes?"

"Sim… sou eu."

"Pode entrar."

O portão começou a se abrir lentamente, então eu atravessei o caminho de pedra sentindo como se estivesse invadindo um lugar que não era para mim. A porta principal se abriu antes que eu pudesse bater.

A mulher elegante me observou por um momento antes de dizer algo.

"Entre."

O interior da casa era ainda mais impressionante.O chão de mármore refletia a luz do enorme lustre que pendia do teto. As paredes eram decoradas com quadros que pareciam obras de arte originais. Eu segui a mulher pelo corredor tentando não triscar em nada.

Depois de alguns passos, não consegui mais segurar a pergunta.

"Desculpe…"

Ela virou levemente a cabeça. "Sim?"

"Como vocês me encontraram?" gaguejei nervosa." Eu não me inscrevi em vaga nenhuma..."

Ela continuou caminhando com a mesma postura impecável.

"Encontrar pessoas quando ele quer não é um problema para o meu chefe, senhorita Mendes."

Franzi a testa."Mas eu nunca me candidatei a esse trabalho."

Ela parou e virou-se para mim.

"O desembargador já está vindo."

Eu quase me entalei com minha própria saliva.

DESEMBARGADOR?

Meu Senhor Jesus. Eu estava em uma entrevista na casa de um desembargador. Um homem poderoso que poderia destruir qualquer um em um piscar de olhos.

Foi então que ouvi passos correndo pelo corredor.

Um menino apareceu. Cabelo bagunçado.

Olhos azuis brilhantes, eu... reconhecia aqueles olhos. Ele me encarou por dois segundos antes de abrir um sorriso enorme.

"Você pequeno!" Eu ri, surpresa.

Ele correu até mim.

"Você é a moça bonita do restaurante!"

A mulher ao meu lado pareceu surpresa.

"Vocês se conhecem?"

"Ela me ajudou ontem Raquel", ele disse rapidamente. "Eu derrubei suco na mesa e um moço ruim brigou com o papai."

Eu me abaixei um pouco.

"Oi."

Ele inclinou a cabeça me observando com curiosidade.

"Você trabalha aqui agora?"

"Eu… não sei ainda."

Ele pareceu pensar por um segundo.

"Meu pai precisa de alguém que não grite comigo."

A mulher pigarreou levemente.

"O desembargador está esperando no escritório, espere aqui Theo."

O menino fez uma careta dramática. "Ele está sempre trabalhando."

Ela ignorou o comentário."Por aqui"

Seguimos pelo corredor até uma porta grande de madeira escura. Ela bateu duas vezes, até que uma voz masculina respondeu de dentro da sala.

"Entre."

Quando entrei no escritório, a primeira coisa que notei foi a janela enorme atrás da mesa. Boston se estendia diante dela. Ou eu era muito pobre, ou aquele homem era muito rico. Bom, acho que os dois.

Mas o homem sentado na cadeira chamava muito mais atenção. Ele levantou os olhos quando eu entrei e eu quase perdi o fôlego. No restaurante eu não havia notado o quanto ele era absurdamente bonito. E eu deveria ficar longe de homens bonitos assim.

Ele me analisou em silêncio por alguns segundos antes de falar.

"Laura Mendes."

Assenti.

"Sim... senhor "

Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa.

"Eu pesquisei sobre você antes de chamá-la."

Aquilo fez meu estômago apertar.

"Pesquisou?"

"Sim."

Ele falou como se fosse a coisa mais normal do mundo.

"Seu histórico é simples. Sem antecedentes, sem problemas legais. Dois anos trabalhando no Bellmont… Bom, farei aquele restaurante fechar em breve. Ninguém fala daquele jeito comigo.

Eu arregalei os olhos. O que esse homem queria comigo afinal?

Ele inclinou levemente a cabeça. "Meu filho gostou de você."

Olhei para a porta por onde Theo tinha saído.

Um pequeno sorriso escapou antes que eu pudesse impedir."Ele parece uma criança muito doce, senhor..."

O homem soltou uma respiração curta.

"Adrian Montenegro." disse sem me encarar. "E ele também é extremamente inteligente."

Houve uma pausa. Observei as fotos na mesa dele. Ele não tinha esposa?

"Inteligente e complicado o suficiente para expulsar cinco babás em três meses."

Eu pisquei.

"Cinco?"

"Sim."

Ele se levantou. Era ainda mais alto do que eu tinha imaginado. Começou a caminhar lentamente pelo escritório.

"Eu estou cansado de contratar e despedir babás."Ele parou diante de mim."Então vou ser direto. As regras são simples." Ele começou a enumerar nos dedos." Primeiro: meu filho vem antes de qualquer coisa. Segundo: disciplina é importante, mas gritar não é permitido. Terceiro: você nunca mente para ele, ou para mim. "

Ele fez uma pequena pausa.

"Quarto: você nunca invade a privacidade desta casa." Eu assenti lentamente.Ele continuou. "E quinto…Os olhos dele ficaram mais frios." Preciso saber se está disposta a ficar mesmo."

Eu estava tentando processar tudo. Ele se afastou um passo.

"Você pode recusar."

Aquilo me pegou desprevenida.

"O quê?"

"Se não quiser o trabalho."

Ele deu de ombros levemente.

"Não sou obrigado a convencê-la."

Respirei fundo.

"Eu só…"

Ele me interrompeu.

"Mas duvido que você recuse."

Meu corpo ficou rígido.

"Como assim?"

Ele me olhou diretamente e friamente.

"Porque eu sei que você não tem onde cair morta."

Meu rosto esquentou.

"Como ousa."

"O salário é generoso", ele continuou calmamente. "Moradia incluída."

Ele inclinou levemente a cabeça.

"Mas se não quiser…"Deu de ombros."Existem outras candidatas mais qualificadas."

Meu coração batia forte no peito.

Aquilo era humilhante.

Mas também…

Era uma oportunidade.

Ele se aproximou um pouco mais.

"Então, senhorita Mendes." A voz dele ficou baixa."Você aceita…"

Ele fez uma pausa.

"Ou prefere voltar para o trailer sujo onde mora?"

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