Noah Taylor

Havia meses que eu e Olga estávamos distantes. Frios. Vivendo quase como dois estranhos dentro da mesma casa. Ainda assim, naquele dia específico, ela havia explodido como um vulcão em erupção. Sorri sozinho com a lembrança amarga enquanto me levantava da cadeira e juntava os papéis que precisava revisar em casa, guardando tudo com cuidado dentro da pasta.

Minha sala era a única no último andar da TBA. Um privilégio que, naquela noite, parecia mais um peso. O prédio estava silencioso. Todos já haviam ido embora, restavam apenas os funcionários da segurança, circulando pelos corredores com passos discretos.

Caminhei até o elevador e, quando as portas se abriram, apertei o botão da garagem. Olhei para o relógio de pulso, impaciente, contando mentalmente os minutos. Foi então que meu celular começou a tocar. Atendi no mesmo instante ao ver no visor a palavra CASA.

— Alô.

— Noah, cadê você? Olivia não para de chorar. Ela está com febre.

A voz de Inês soava aflita do outro lado da linha. Meu coração disparou.

— Calma, Inês. Estou saindo do prédio agora. Você já deu remédio? Já mediu a temperatura?

Entrei no carro, coloquei o cinto de segurança e respirei fundo, tentando manter a calma. Dirigir nervoso não ajudaria em nada.

— Sim, senhor. Dei o remédio mais cedo, mas a febre não cedeu. Ela está vermelhinha de tanto chorar, a pobrezinha. Está com trinta e oito e três.

Liguei o carro e saí da garagem, sentindo minhas mãos suarem no volante. Meu plano de manter a calma foi por água abaixo.

— Você vai ligar para o pediatra dela. O número está na agenda ao lado do telefone. Diga que é urgente. Eu já saí do prédio, mas estou preso no trânsito e preciso desligar agora. Em quinze minutos estou aí, está bem?

Ela não precisava saber que o trajeto levaria pelo menos meia hora. Naquele momento, pisei fundo. Não iria mais perder momentos importantes por causa do trabalho. Não dessa vez.

Desliguei o telefone com o peito apertado, a mente tomada por um único pensamento. O que será que minha filha tinha?

Quando cheguei à minha cobertura, no East Lake Shore Drive, larguei o carro como pude e subi correndo. Fui direto para o quarto da Olivia. O som do choro fraco atravessava o corredor e cada passo meu parecia mais pesado.

Inês estava em um canto do quarto, enxugando as lágrimas em silêncio. Aproximei-me e beijei sua testa com carinho. O médico já estava lá. Tinha sido mais rápido do que eu. Ele examinava minha pequena quando entrei.

— Então, doutor, o que ela tem? Por que está com febre?

Minha voz saiu exasperada enquanto eu pegava Olivia em meus braços assim que ele terminou o exame. Ela estava tão cansada de chorar que apenas pequenos soluços escapavam de seus lábios.

— Senhor Taylor, Olivia está com uma infecção na garganta. É algo comum nessa idade, já que o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. No caso dela, existe um fator a mais. Ela não pôde ser amamentada pela mãe, o que costuma ser uma das primeiras barreiras de defesa do recém-nascido.

Assenti em silêncio, passando minha mão grande e desajeitada pelos cabelinhos finos da minha filha. Acariciei sua bochecha rosada com o polegar e ela agarrou meu dedo com força surpreendente.

— Fique tranquilo. Já prescrevi um antibiótico e dei a primeira dose. Ela deve tomar de oito em oito horas, durante quinze dias. É muito importante seguir os horários corretamente e não interromper o tratamento antes do prazo, mesmo que ela apresente melhora. Está claro?

— Está sim, respondi, com a voz baixa.

Ele deu alguns tapinhas em meu ombro, pegou a maleta e saiu do quarto acompanhado por Inês, que ainda me lançou um olhar preocupado antes de fechar a porta.

Fiquei sozinho com minha filha.

Sentei-me na poltrona ao lado do berço. O quarto havia sido todo decorado por Olga. Tons de rosa pastel e branco. Cada detalhe escolhido com carinho. O aperto no peito voltou com força.

Segurando Olivia com um braço, afrouxei a gravata com a outra mão. Tirei o celular do bolso, ativei o bluetooth e conectei ao aparelho de som do quarto. Coloquei um ruído brando. O som suave de chuva caindo. Minha pequena amava aquilo. Sempre se acalmava quase instantaneamente.

Balancei-a com cuidado, sentindo seu corpinho relaxar aos poucos. O choro cessou. Sua respiração ficou mais tranquila.

Naquele momento, com minha filha nos braços, me senti o homem mais abençoado do mundo.

— Minha princesinha, eu prometo que não vamos mais passar tanto tempo longe um do outro.

Beijei sua testinha ainda quente e fechei os olhos.

— Confia em mim, está bem?

Ao som do barulho suave da chuva, embalados pelo cansaço e pelo amor, nós dois acabamos adormecendo ali mesmo.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu soube que precisava mudar.

Por ela.

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