Ema Thompson

Aquela noite estava prometendo ser um saco.

Desde o momento em que acordei, já sentia aquele peso familiar no peito. A sensação de estar indo para mais um compromisso que não me pertencia, vestindo uma versão de mim que eu mesma tinha criado para sobreviver. Passei o resto do dia me preparando para o meu próximo cliente, tentando ignorar o incômodo que insistia em crescer dentro de mim.

Ele havia mandado o vestido.

Perfeito, como sempre.

Branco, justo no corpo, abraçando minha cintura fina e descendo em um decote profundo em formato de pico que deixava meus seios à mostra na medida exata do que eles esperavam ver. O comprimento terminava logo acima dos joelhos e as mangas longas davam um ar elegante, quase contraditório para a realidade daquela noite.

Os acessórios vieram juntos. Uma clutch pesada, incrustada de cristais Swarovski que refletiam a luz de todos os ângulos. Pequenos brincos de diamantes, delicados, caros demais para alguém como eu comprar por conta própria. Nos pés, um par nude de Louboutin. Meu cabelo estava clássico, com ondas bem marcadas, jogadas por cima de um ombro só.

Eu estava impecável.

Joyce estava sentada na minha cama, folheando uma revista enquanto me observava ajustar o último detalhe da maquiagem. O silêncio entre nós carregava aquele assunto que sempre voltava, mesmo quando nenhuma das duas queria.

— Você está perfeita, Ema. Não sei por que precisa se arrumar tanto para um velho asqueroso.

Observei seu reflexo pelo espelho e mostrei a língua de forma infantil, tentando quebrar o clima.

— Você sabe que esse é o meu trabalho, Joyce. E outra, eu sei me cuidar sozinha.

Sentei ao seu lado e segurei suas mãos com firmeza, tentando passar uma segurança que nem eu sentia.

— Amiga, eu preciso de dinheiro. Eu não sou inteligente como você para arrumar um emprego de jornalista, escrever matérias e ser levada a sério.

Ela fechou a revista e a abraçou contra o peito, como se estivesse se protegendo.

— Para de se menosprezar. Essa história de novo não. Você pode ser quem você quiser, Ema. Você sabe disso. E sabe que eu posso te ajudar por um tempo.

Suspirei fundo, sentindo o nó se formar na garganta.

— Eu já pensei nisso, Joyce. Pensei demais. E olha pra mim. Eu nem comecei o serviço ainda e já estou vestida assim. Quando eu poderia comprar um vestido desses, sapatos de marca, joias caras? Nunca. Você sabe que eu gosto de coisas boas. Eu gosto de conforto. Eu gosto de luxo. Esse é o preço.

Levantei da cama e me olhei uma última vez no espelho.

Perfeita por fora. Cansada por dentro.

— Preciso ir. Fica bem, ok?

Beijei sua testa com carinho e segui em direção à porta.

— Não esquece de trancar.

Gritei do corredor.

Eu sabia que ela ainda estaria chateada quando eu voltasse. Pelo menos uma vez por semana tínhamos essa mesma conversa. Às vezes era irritante ter alguém que se importava de verdade comigo. Eu nunca tinha sido acostumada com isso.

Meus pais só queriam saber se eu estava por perto para pagar as contas, comprar remédios e resolver problemas. Joyce queria saber se eu estava me alimentando bem, se voltava inteira de cada trabalho, se não me faltava nada dentro de casa. Ela era mais do que uma amiga. Era a irmã que o destino decidiu me dar.

Desci as escadas do prédio com cuidado. Ainda bem que eu morava no terceiro andar, porque subir ou descer escadas com aqueles saltos era quase um esporte radical. A limusine já me esperava na calçada. O motorista abriu a porta com educação, e antes de entrar ouvi Joyce me chamar da janela.

— Vai com Deus, Ema. E eu coloquei um spray de pimenta na sua bolsa.

Levantei o rosto, soprei um beijo e entrei no carro.

Durante o trajeto, fiquei olhando as luzes da cidade passarem pela janela, tentando me preparar mentalmente para o que viria. Repetia para mim mesma que era só mais uma noite. Só mais algumas horas.

Mas aquela noite conseguiu ser pior do que eu imaginava.

Era para ser chata, mas conseguiu se superar. Risadas altas demais, mulheres com corpos exageradamente moldados, gargalhando de piadas sem graça de homens que se achavam irresistíveis. Eu nunca fiz plástica, sempre me considerei alguém com um mínimo de cérebro, e aquela encenação toda me cansava profundamente.

Respirei fundo quando senti a mão de Rubens apertar minha cintura, possessiva demais para alguém que mal me conhecia. Eles conversavam ao fundo, mas minha mente estava a quilômetros dali.

— Não é verdade, minha doce Ema?

Ele perguntou, esperando confirmação. Assenti automaticamente, oferecendo meu melhor sorriso. Eu não fazia ideia do que estavam falando. Essa era a parte mais difícil do meu trabalho. Fingir interesse. Sorrir. Concordar. Engolir conversas vazias noite após noite.

Graças a Deus, nenhum deles jamais me forçou a nada. Mas quase todos já haviam feito propostas indecentes. Sempre recusei com educação. Nunca se sabe quando eles vão ligar novamente.

No começo, aquilo me ofendia. Hoje, eu entendia que, quando você diz que é acompanhante, as pessoas automaticamente pensam em outra coisa. Isso não muda. Nunca muda.

O jantar passou arrastado. A comida estava realmente deliciosa, mas eu comia no automático. Quando chegou a sobremesa, recusei. Já tinha ido longe demais.

— Rubens, vou ao toalete e já volto.

Beijei sua bochecha com carinho exagerado. Ele adorava se exibir para os amigos. Era sempre o mesmo jogo. Quem tinha mais dinheiro. Quem estava com a companhia mais jovem.

Perguntei ao garçom onde ficava o banheiro e segui pelo corredor elegante. Quando entrei, estava vazio. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até um dos boxes.

Fazia uma semana que aquilo tinha voltado.

A compulsão.

Não importava o nome que dessem. Doença, hábito, descontrole. Aquilo estava me dominando outra vez. E eu obedecia, mesmo sabendo o quanto aquilo me destruía por dentro.

Me ajoelhei diante do vaso, sentindo o corpo reagir antes mesmo da mente acompanhar. Suava frio, tremia. Quando terminou, dei descarga e apoiei a testa na parede, respirando com dificuldade.

— Olá, tem alguém aí? Você precisa de ajuda? Está passando mal?

A voz feminina me atingiu em cheio. Vi os passos por baixo da porta.

Meu coração disparou.

Levantei rápido demais, tonta, e saí do box indo direto para a pia. Lavei a boca, peguei uma escova, uma pasta. Banheiro de gente rica sempre tinha de tudo.

— Ei, você está bem?

Ela insistiu.

— Meu Deus, você está muito pálida. Melhor se sentar.

— Eu sou Eliete. E você?

As perguntas vinham rápido demais.

— Eu sou Ema. Obrigada por se preocupar. Acho que foi algo que comi no jantar. Já estou melhor.

Sorri, tentando parecer convincente.

Ela não parecia uma acompanhante. Tinha postura de mulher de negócios. Eu não perguntaria.

Sentou-se em um puff elegante enquanto eu escovava os dentes, tentando tirar o gosto amargo da boca e da culpa.

— Olha, fica tranquila. Eu juro que estou bem.

Lavei a boca, retoquei o batom e respirei fundo.

— Toma.

Ela abriu minha mão e colocou um cartão.

— Se precisar de alguma coisa algum dia, me ligue.

Sorriu e saiu do banheiro.

Guardei o cartão na bolsa sem nem mesmo olhar.

Naquela noite, eu ainda não sabia, mas aquele pequeno gesto seria o começo de algo que mudaria completamente o rumo da minha vida..

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