Noah Taylor

Eu estava sozinho na minha sala, cercado por contratos espalhados sobre a mesa, números que já não faziam sentido e decisões que pareciam se multiplicar quanto mais eu tentava resolvê-las. Minha cabeça latejava. Já havia tomado três analgésicos ao longo do dia e nenhum deles parecia surtir efeito.

Olivia estava em casa com Inês e a simples ideia de não estar com ela me deixava inquieto. Olhei a hora no relógio de pulso e percebi que meu expediente havia terminado fazia mais de uma hora. Era sempre assim comigo. Eu sempre passava do limite.

Workaholic.

Essa palavra nunca me incomodou. Pelo contrário. Durante muito tempo, foi quase um elogio. Agora, soava como uma acusação.

Tenho tentado diminuir esse ritmo, passar mais tempo ao lado da minha filha, mas não confio em ninguém para dirigir a TBA no meu lugar. As pessoas são ambiciosas, astutas e nem sempre jogam limpo. Foi justamente por assumir tudo sozinho que cheguei onde cheguei, muito mais rápido do que outros homens da minha idade.

Girei a cadeira lentamente e observei a cidade lá embaixo através da parede de vidro. Nova York nunca dorme. Eram nove da noite e as ruas continuavam movimentadas, cheias de luzes, carros e pessoas andando apressadas como se ainda fosse horário de pico.

Apoiei o cotovelo no braço da cadeira e segurei o queixo entre o polegar e o indicador, perdido em pensamentos que eu evitava encarar havia tempo demais.

Eu perdi muito com Olga.

Durante os cinco anos em que fomos casados, raramente cheguei cedo em casa. Quase nunca apareci com flores. Estava sempre cansado demais para um jantar a dois. Quando a levava para sair, era quase sempre para eventos ligados aos meus negócios, ambientes que ela achava entediantes e frios.

Ela reclamava. E com razão.

Nossas discussões, muitas vezes, tomavam proporções absurdas. Olga tinha um temperamento explosivo. Quando se irritava, qualquer coisa que estivesse ao alcance de suas mãos virava munição.

— Seu estúpido, eu me recuso a acreditar que você está praticamente me obrigando a ir a mais um desses jantares idiotas.

Lembro perfeitamente do vaso sendo arremessado contra a parede, passando perigosamente perto da minha cabeça, depois que anunciei que teria uma reunião com investidores europeus naquela noite. Eles levariam as esposas e, por isso, eu precisava que ela estivesse comigo.

Olga estava furiosa.

— Por que você não pode tirar um dia pra ficar comigo, Noah?

Eu tentei manter a calma, mesmo com o coração acelerado.

— Meu amor, por favor, tenta me entender. Esse é o meu trabalho. Como você quer que eu te sustente? Como quer manter o padrão de vida que temos?

Fui me aproximando dela, que estava de braços cruzados e de costas para mim.

— Eu só queria um tempo para nós dois. Um tempo de casal.

Ela se afastou, entrando no banheiro.

— Desde que você abriu essa empresa, é só nisso que você pensa. Dinheiro.

Coloquei o pé na porta antes que ela conseguisse fechá-la.

— Olga, princesa, não fala assim. Você sabe que eu quero te dar o melhor. Faço tudo isso pela nossa família, pelo nosso futuro.

Entrei no banheiro, diminuindo a distância entre nós.

— Eu preciso de você comigo hoje. Prometo que vamos viajar depois. Ter férias perfeitas. Só nós dois. Pra onde você quiser.

Ela me olhou em silêncio por alguns segundos. O olhar ainda carregado de irritação, mas também de algo mais profundo. Algo que sempre nos puxava de volta um para o outro.

— Está bem, ela suspirou. Mas se você não cumprir essa promessa, Noah, eu coloco essa casa abaixo. Você está me ouvindo?

Assenti, aproximando-me ainda mais, sentindo a tensão entre nós se transformar em algo diferente. Algo intenso, carregado de desejo e necessidade. A discussão se dissolveu em toques, olhares e palavras sussurradas que não precisavam ser ditas em voz alta.

Naquela noite, nos entregamos um ao outro como há muito tempo não fazíamos.

E foi naquela noite que Olivia foi concebida.

O pensamento me atravessou como um golpe silencioso.

Fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o peso da culpa, do arrependimento e da saudade se misturarem no peito. Eu daria tudo para voltar atrás e ter feito diferente. Para ter amado Olga do jeito que ela merecia enquanto ainda havia tempo.

Abri os olhos e encarei novamente a cidade.

Agora, tudo o que eu podia fazer era não cometer o mesmo erro com a nossa filha.

E proteger Olivia se tornara o meu maior compromisso.

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