2. Vittório Moretti

O maître me reconheceu antes mesmo que eu cruzasse completamente as portas de vidro do restaurante. Foi apenas uma mudança quase imperceptível em sua postura — os ombros se alinhando, o sorriso treinado vacilando por um segundo —, mas eu estava acostumado a observar o efeito que minha presença provocava nos ambientes. Especialmente naqueles onde riqueza e influência tentavam se disfarçar de elegância.

O restaurante era um dos mais exclusivos de São Paulo, um templo moderno erguido para adorar o luxo. Lustres de cristal desciam do teto como constelações artificiais, espalhando reflexos dourados sobre mesas impecavelmente postas, enquanto o som suave de um piano preenchia o espaço sem jamais se tornar invasivo. Era o tipo de lugar onde o silêncio também custava caro.

Ainda assim, quando entrei, algo mudou.

Não foi uma interrupção evidente — ninguém ousaria tanto —, mas os olhares surgiram. Um casal interrompeu a conversa. Um garçom ajustou a gravata com pressa demais. Duas mesas foram discretamente reorganizadas para ampliar o espaço de circulação. Nada ali era coincidência.

Dinheiro abre portas.

O medo garante que elas permaneçam abertas.

— Signor Moretti… — cumprimentou o maître, inclinando levemente a cabeça. — Sua mesa já está preparada.

Claro que estava.

Sempre estava.

Dois garçons se apressaram em puxar a cadeira antes mesmo que eu alcançasse a mesa ao fundo do salão — uma posição estratégica, protegida, com visão ampla de todo o restaurante. Meus olhos percorreram o ambiente por instinto, registrando saídas, pontos cegos, possíveis ameaças. Um hábito impossível de abandonar quando se nasce dentro de uma guerra que nunca termina.

Massimo foi o primeiro a me notar. Levantou-se imediatamente, sua presença dominando o espaço com a mesma facilidade com que dominava um campo de batalha. Meu irmão carregava no corpo cada traço do que éramos: ombros largos, expressão dura, a energia contida de alguém que precisava de muito pouco para se tornar letal.

Algumas famílias herdavam vinhedos.

Os Moretti herdavam violência.

Nos cumprimentamos com um abraço breve, firme, daqueles que dispensam demonstrações exageradas.

— Está atrasado — murmurou ele.

— Cinco minutos não é atraso. É controle — respondi, acomodando-me na cadeira.

Lorenzo não se levantou. Nunca se levantava. Limitou-se a erguer os olhos do tablet, analisando-me com aquela frieza quase cirúrgica que fazia dele o conselheiro perfeito para o nosso império. Se Massimo era o braço armado da família, Lorenzo era a mente que transformava caos em estratégia.

— O trânsito… ou alguma mulher? — perguntou, sem alterar o tom.

— Negócios.

Ele assentiu uma única vez, como se qualquer explicação além daquela fosse irrelevante.

Um garçom surgiu para servir o vinho, tentando parecer natural enquanto sua mão tremia levemente ao inclinar a garrafa. Observei o gesto com interesse silencioso. Era curioso como atravessar um oceano não diminuía a reputação dos Moretti — pelo contrário, parecia ampliá-la.

— Nosso contato chega em instantes — informou Lorenzo.

Como se obedecesse a um roteiro, o homem apareceu logo depois, guiado pelo maître. Usava um terno claro, sorriso profissional e a postura de quem passaria despercebido em qualquer reunião de empresários. Justamente por isso era útil. Homens verdadeiramente perigosos raramente pareciam perigosos.

— Senhores, é uma honra. Renato Ferraz — apresentou-se, estendendo a mão.

Apertei-a sem pressa, avaliando cada detalhe: o pulso tenso, a respiração controlada, o brilho atento no olhar. Medo suficiente para ser cauteloso, coragem suficiente para ser funcional.

— Sente-se — indiquei.

As primeiras taças foram erguidas sob o disfarce de uma conversa banal sobre turismo de luxo, expansão hoteleira e o crescimento promissor do mercado brasileiro. Era quase divertido como o mundo legal oferecia tantas portas para quem sabia transformá-las em passagens para algo muito maior.

Lorenzo foi o primeiro a abandonar o teatro.

— Vamos aos números.

Renato respirou fundo antes de responder.

— Os hotéis superaram nossas projeções. A ocupação ultrapassou noventa por cento na última temporada.

Massimo girou lentamente a taça entre os dedos.

— E o fluxo?

Renato hesitou apenas o suficiente para demonstrar respeito pela pergunta.

— Estável… e limpo.

Um sorriso curto surgiu nos lábios de Massimo.

— Nada é limpo. A questão é se parece limpo.

Lorenzo apoiou os antebraços na mesa.

— As reformas continuam sendo o principal canal?

— Sim. Obras constantes justificam entradas elevadas de capital. Ninguém questiona quando o mármore vem da Itália e os arquitetos acumulam prêmios internacionais.

Claro que não questionavam. Os ricos nunca interrogavam o luxo — competiam por ele.

— E as importações? — perguntei.

— Containers declarados como equipamentos gastronômicos. Passam pelo porto sem dificuldade.

— E chegam vazios? — Massimo perguntou.

Renato sustentou o olhar dele.

— Nunca.

Gostei da resposta.

— Também avançamos com o projeto do cassino — acrescentou Renato. — Oficialmente será um clube cultural de alto padrão. Extraoficialmente…

— Uma máquina de dinheiro — concluiu Lorenzo.

O jantar prosseguiu entre territórios, rotas financeiras e alianças silenciosas, enquanto garçons circulavam ao redor sem imaginar que, naquela mesa, discutíamos cifras capazes de alterar economias inteiras. Para o restante do salão, éramos apenas três italianos ricos aproveitando a noite paulista.

Uma ilusão conveniente.

Meu telefone vibrou contra a madeira da mesa, discreto, mas impossível de ignorar. Bastou um olhar para reconhecer o código criptografado — apenas três pessoas no mundo possuíam aquele nível de acesso.

Abri a mensagem.

“Encontramos o homem que traiu seu pai.”

O tempo não parou, mas algo dentro de mim ficou perigosamente imóvel. O piano pareceu distante, as vozes ao redor perderam nitidez, e até o vinho que levei aos lábios tinha, de repente, gosto de nada.

Massimo percebeu primeiro. Sempre percebia.

Seu corpo ficou alerta, como o de um predador captando o cheiro de sangue.

— O que aconteceu?

Travei a tela do celular com calma, embora uma antiga e conhecida sensação começasse a se espalhar pelo meu peito — não era raiva exatamente, mas algo mais frio, mais paciente.

Expectativa.

— Ao que parece… — falei, guardando o telefone no bolso interno do paletó — o passado decidiu nos alcançar.

Lorenzo inclinou levemente a cabeça.

— Temos um nome?

— Ainda não.

O sorriso de Massimo surgiu devagar, perigoso.

— Então vamos descobrir.

Observei o salão mais uma vez — os brindes, as risadas, a falsa sensação de segurança que pairava sobre todos ali — e tive a nítida impressão de que alguém, em algum lugar daquela cidade, ainda respirava sem saber que sua vida acabara de entrar em contagem regressiva.

Quem traiu um Moretti não comete apenas um erro.

Assina uma sentença.

E, desta vez, eu mesmo faria questão de executá-la.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App