Mundo de ficçãoIniciar sessãoA porta da suíte fechou-se atrás de nós com um clique que ecoou na espessa quietude do quarto. Vittorio não me soltou — suas mãos ainda cingiam minhas coxas, meus tornozelos ainda cruzados atrás de suas costas, meu corpo colado ao dele como uma segunda pele. Na penumbra, seu rosto era uma escultura de sombras e ângulos afiados, seus olhos escuros fixos nos meus com uma intensidade que roubou o ar dos meus pulmões.
Ele me carregou até a cama como se eu não pesasse mais que um casaco. Quando minhas costas tocaram o colchão macio, um suspiro escapou-me — parte surpresa, parte antecipação. Ele ficou sobre mim, seus joelhos pressionando a maciez do edredom, seus quadris se encaixando entre minhas pernas com uma naturalidade que fez meu estômago contrair.
Ninguém nunca me beijara daquele jeito.
Não com essa mistura de fúria e reverência. Seus lábios moveram-se contra os meus devagar primeiro, explorando, testando. Sua língua tocou a minha, e um arrepio percorreu-me da nuca até a base da coluna. Minhas mãos subiram seus braços, sentindo os músculos tensos sob o tecido da camisa, até agarrarem seus ombros.
Ele aprofundou o beijo, e eu respondi — minha boca se abrindo para a dele, meus dedos enterrando-se em seus cabelos escuros. Um som baixo, quase um rosnado, vibrou em sua garganta, e suas mãos começaram a se mover.
Uma deslizou para minha coxa, encontrando a barra da minha saia. Seus dedos subiram por baixo do tecido, tocaram minha pele nua, e eu me arquei contra ele. O calor do seu toque parecia queimar através de cada camada do meu ser, dissolvendo o bom senso, a razão, o medo.
Ele quebrou o beijo, sua respiração quente contra minha bochecha.
— Quero ouvir você gemer — sussurrou, a voz rouca, carregada de uma promessa que fez algo profundo dentro de mim estremecer. — Quero te foder até você esquecer tudo, até só lembrar do meu nome.
Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. Seus lábios encontraram meu pescoço, beijando, mordiscando levemente o ponto onde meu pulso acelerado batia contra a pele. Um gemido escapou-me então — baixo, rouco, completamente involuntário.
Ele riu, o som vibrante contra minha pele.
— Isso — murmurou. — Assim mesmo.
Suas mãos subiram mais, encontrando a borda das minhas calcinhas. Seus dedos tocaram o tecido fino, e eu me contraí, uma onda de puro desejo subindo-me pelo ventre. Meu corpo estava respondendo a ele com uma honestidade assustadora — cada toque, cada palavra, cada sopro quente contra minha pele acendia algo primitivo que eu nem sabia existir.
Ele ergueu a cabeça, seus olhos encontrando os meus na penumbra. Havia algo lá — não apenas desejo, mas algo mais profundo, mais voraz. Como se ele não quisesse apenas meu corpo, mas minha rendição completa.
— Fica comigo esta noite — disse, sua voz mais suave agora, quase suplicante, mas ainda com aquela borda de comando que nunca desaparecia completamente.
Eu balancei a cabeça, não em negação, mas porque as palavras não chegavam. Meu cérebro lutava para formar pensamentos através do nevoeiro de sensações.
Ele tocou meu rosto, seu polegar passando sobre meu lábio inferior inchado do beijo.
— Toda a noite — repetiu, seus olhos escaneando meu rosto como se lessem cada emoção que passava por ele. — Quanto você quer?
Por um instante, o significado não penetrou. Fiquei ali, sob ele, respirando o mesmo ar carregado do desejo, meu corpo ainda pulsando com o toque das suas mãos.
— O quê? — a palavra saiu em um sopro.
Seus olhos não se afastaram dos meus.
— Quanto você cobra para ficar a noite toda? — perguntou, como se estivesse perguntando o preço de uma garrafa de vinho.
O mundo desabou.
Ou melhor, o mundo que existia dentro daquele quarto — o mundo de calor e toques e gemidos abafados — desintegrou-se, deixando apenas um vácuo gelado no seu lugar.
Por um segundo, fiquei paralisada. Meu corpo ainda estava quente onde ele tocava, meu coração ainda batia rápido, minha boca ainda formigava do beijo. Mas algo dentro de mim quebrou — estalou como vidro sob pressão.
Ele deve ter visto a mudança no meu rosto, porque seus olhos estreitaram levemente.
— Bea? — disse meu nome como se fosse uma palavra estrangeira, uma que ele ainda estava aprendendo a pronunciar.
Minhas mãos, que momentos antes agarravam seus ombros, empurraram-o. Com força. Surpreendendo-nos a ambos.
Ele recuou, não muito, mas o suficiente para eu me esgueirar de debaixo dele, rolando para o lado da cama e caindo de pé com uma descoordenação embaraçosa.
— O que foi? — sua voz tinha perdido a suavidade, voltando àquele tom plano, controlado.
Eu ajustei minha saia com mãos trêmulas, puxando o tecido para baixo como se pudesse cobrir não apenas minhas pernas, mas toda a exposição vergonhosa do momento.
— Acho que… acho que não entendi — minha voz saiu estranha, fina.
Ele sentou-se na beirada da cama, observando-me com aquela calma impenetrável que agora me parecia não mais intrigante, mas repulsiva.
— Você não entendeu o quê? — perguntou, como se estivesse genuinamente curioso. — Estou disposto a pagar bem. Mais do que você ganha em uma semana limpando quartos, aposto.
Cada palavra era uma faca. Cada sílaba, um golpe.
Eu me senti suja. Não pelo beijo — pelo que ele achou que o beijo significava. Pelo que ele achou que eu significava.
— Isso foi um erro — disse, recuando em direção à porta. — Um grande erro.
Ele levantou-se, rápido demais, e antes que eu pudesse reagir, sua mão fechou-se em volta do meu pulso. O toque era firme, não brutal, mas inescapável.
— Solte — ordenei, e pela primeira vez desde que o conheci, minha voz não tremeu.
Ele não soltou. Seus olhos escuros perfuraram os meus.
— Você sabe com quem está falando? — perguntou, e havia uma faísca de algo perigoso naquela pergunta — um aviso velado.
Um riso amargo brotou da minha garganta.
— Não importa — respondi, puxando meu braço com força. — Não importa quem você é. Solte-me.
Por um momento que se alongou em eternidade, ele manteve o aperto. Seus dedos pressionaram meu pulso, seus olhos escaneando meu rosto como se tentassem decifrar um código que de repente parara de fazer sentido. Então, lentamente, seus dedos se abriram.
Virei-me antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, abri a porta e saí para o corredor.
Não corri. Caminhei com passos rápidos e firmes, mantendo a postura ereta como se minha dignidade dependesse da linha reta das minhas costas. Só quando entrei no elevador de serviço e as portas se fecharam, é que meu corpo desabou contra a parede fria de metal.
No vestiário, peguei minha bolsa com mãos que ainda tremiam. Nem me troquei — apenas peguei minhas coisas e saí, o uniforme ainda vestido, o cheiro dele ainda em minha pele.
Do lado de fora, a noite do Rio era quente e viva, cheia de luzes e risos que pareciam de outro planeta. Caminhei até o ponto de ônibus, minhas solas batendo no asfalto com uma regularidade mecânica.
Quando o ônibus chegou, subi, sentei-me no banco da janela e encostei a testa no vidro frio. As luzes da cidade deslizavam como manchas coloridas enquanto o veículo avançava.
E então, no escuro, com estranhos ao meu redor e o cheiro de gasolina e suor enchendo o ar, deixei as lágrimas caírem.
Não apenas pela humilhação. Não apenas pela mão grossa no meu pulso ou pelas palavras que transformaram algo belo em algo transacional.
Chorei porque, por alguns minutos, eu tinha acreditado. Acreditado que um príncipe encantado — mesmo um príncipe sombrio e perigoso — poderia mudar minha vida desgraçada. Que um beijo poderia ser um começo, não apenas mais uma conta a pagar.
Que eu poderia valer mais do que o preço que alguém estava disposto a pagar por uma noite.
O ônibus balançou, levando-me para casa. Para meu pai bêbado. Para meu quarto minúsculo. Para minha vida que, naquela noite, parecia menor e mais cinzenta do que nunca.







