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Capítulo 8: Vittório Moretti

A casa cheirava a pobreza, álcool e medo. Um cheiro que eu conhecia bem, das vielas de Reggio Calabria, dos cortiços onde homens fracos morriam por ambições pequenas. Permiti que meu olhar percorresse o ambiente — móveis quebrados, paredes manchadas, uma garrafa vazia rolando no chão — antes de finalmente pousar nela.

Beatrice.

Encostada na parede, pálida, os olhos arregalados de compreensão tardia. Via os fragmentos se encaixarem na mente dela: o homem do hotel, o roubo do pai, a invasão. Era quase divertido, esse momento de iluminação, quando a presa entende que já estava na armadilha muito antes de ouvir o estalo do aço.

Ignorei-a.

A arte do poder não está no que se mostra, mas no que se escolhe não ver. E naquele momento, ela era invisível.

Meu foco era o homem ajoelhado no centro da sala, sangrando pela boca onde Lorenzo o atingira com um soco seco. José Oliveira. Pequeno. Desesperado. O tipo de rato que acha que pode roubar do leão e sair ileso.

— O produto — disse, em português arrastado pelo sotaque calabrês. — Onde está?

— Não tenho… já vendi parte… — o homem gaguejou, os olhos saltando entre mim e meus homens.

Lorenzo, sem precisar de ordens, aplicou outro golpe. Um chute nas costelas que fez o ar sair dos pulmões do homem em um gemido úmido. Meu irmão sempre foi o mais eficiente na dor. Não por sadismo, mas por pragmatismo. A dor é uma língua universal; até os mais burros aprendem rápido seu vocabulário.

— Os nomes dos outros — continuei, cruzando os braços. — E o que sobrou da mercadoria.

O homem cuspiu sangue e dentes quebrados no chão sujo.

— Tico… e Marco… o resto está com eles… eu juro!

Lorenzo olhou para mim.

Um leve aceno.

Ele se abaixou, pegou o homem pelo cabelo, forçando-o a olhar para cima.

— Na Calábria — disse Lorenzo, suave como seda cortante —, roubo se paga com sangue. Você roubou da família errada.

O terror no rosto de José foi quase palpável. Sua respiração acelerou, os olhos se arregalaram como os de um animal encurralado. Ele olhou para a filha, encolhida contra a parede.

— Por favor… não tenho dinheiro… não tenho nada para pagar…

Lorenzo soltou-o. O homem caiu de lado, chorando agora, soluços infantis que ecoavam na sala miserável.

— Então paga com a vida — disse Lorenzo, tirando a pistola da coldé.

Foi então que o rato mostrou sua natureza.

— Esperem! — ele gritou, arrastando-se de joelhos. — Levem ela! Levem minha filha! Ela vale… pode trabalhar, pode servir!

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer grito. Até meus homens, endurecidos por anos de violência, pareceram parar por uma fração de segundo. Vendi a própria filha por uns quilos de cocaína roubada. Era patético. Era humano.

Meus olhos finalmente encontraram os dela.

Beatriz não chorava. Não gritava. Estava paralisada, os olhos fixos no pai, como se visse pela primeira vez o monstro que sempre esteve ali. Havia algo naquela expressão — uma desilusão tão profunda que beirava o vazio — que me irritou. Esperava luta. Esperada fogo. Não essa rendição silenciosa.

— Ela? — perguntei, como se estivesse avaliando gado.

— Sim! Sim! É jovem, é forte… faz qualquer coisa! Só me deixem viver!

Lorenzo olhou para mim, uma sobrancelha levemente arqueada. Massimo, que permanecera na porta, sorriu a expressão predatória de um lobo que fareja carne fresca.

Caminhei até o homem, me abaixei até ficar no seu nível.

Seu cheiro — suor, medo, álcool — era repulsivo.

— Aceito — disse.

Seus olhos brilharam com alívio imediato, egoísta. Não um pingo de remorso. Apena salvação própria.

— Obrigado… obrigado, senhor…

— Mas — interrompi, erguendo um dedo —, na Calábria, traição também tem preço.

Fiz um gesto para Massimo. Meu irmão mais novo avançou, os nós dos dedos já sangrando de antecipação. Os primeiros socos foram metódicos, precisos. Depois, quando o homem começou a gritar, tornaram-se mais brutais. Não o mataria. A ordem era clara: deixá-lo vivo, mas quebrado. Que ele fosse um exemplo ambulante do que acontece quando se rouba dos Grimaldi.

Virei as costas para a cena e caminhei até Beatriz.

Ela não recuou. Surpreendentemente, manteve a postura, embora seus olhos estivessem fixos em mim com uma mistura de ódio e terror.

— Você — sussurrou.

Dois dos meus homens a agarraram pelos braços. Ela lutou então, finalmente, com uma fúria que quase a fez escapar. Boa. Preferia uma leoa a um cordeiro.

— Soltem! — ela gritou, chutando. — Seu monstro!

Sorri. Monstro. Era o menor dos meus títulos.

Ela foi arrastada para fora, os gritos ecoando na rua silenciosa. Segui, deixando Lorenzo para supervisionar o resto do “trabalho”.

No carro — um sedan preto, vidros escurecidos —, ela continuou a lutar. Arranhou o rosto de um dos homens, cuspiu, tentou abrir a porta em movimento. Eu apenas observei, sentado ao lado dela, imóvel.

— Me soltem! Vou gritar! Vou chamar a polícia!

— Grite — disse, calmamente. — Ninguém virá.

Ela parou, ofegante, os cabelos despenteados cobrindo parte do rosto. Seus olhos, aqueles olhos castanhos que me haviam desafiado no hotel, agora cintilavam com lágrimas de raiva.

— Quem… quem é você? — a pergunta saiu em um sussurro rouco, como se ela já soubesse a resposta, mas precisasse ouvi-la para acreditar.

Virei-me completamente para encará-la. Deixei que ela visse tudo — a frieza, a falta de remorso, a absoluta certeza do meu poder.

— Vittorio Grimaldi. Don da Ndrangheta. — Fiz uma pausa, deixando as palavras pesarem. — E sua vida, a partir deste momento, pertence a mim.

Seu queixo tremeu, mas ela não desviou o olhar. Coragem. Ou estupidez. Ainda não decidira.

O carro acelerou, deixando a favela para trás. Ela encolheu-se no canto, abraçando os joelhos, uma imagem de derrota que, por algum motivo, me desagradou. Lembrei-me então do chocolate no bolso do meu casaco, o mesmo que ela quase roubara, o mesmo que eu lhe dera depois.

Tirei-o. A embalagem vermelha e dourada brilhava sob a luz fraca do carro.

Estendi-o para ela.

Ela olhou como se fosse uma arma.

— Tome — ordenei.

Hesitou, então pegou com dedos trêmulos.

— Guarde — disse, mantendo a voz neutra. — Vai precisar.

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