6. Vittório Moreti

A dor pulsava atrás dos meus olhos antes mesmo de eu despertá-los por completo, uma pressão ritmada e irritante que parecia acompanhar cada batida do meu coração. Permaneci imóvel por alguns segundos, encarando o teto alto da suíte enquanto tentava reunir os fragmentos da noite anterior — o brilho exagerado dos lustres do restaurante, o tilintar insistente de copos que nunca ficavam vazios, a voz grave de Massimo brindando pela terceira vez e Lorenzo observando tudo com aquela calma cirúrgica de quem jamais perde o controle.

Eu raramente bebia além do necessário, mas o noivado do meu primo exigia uma demonstração pública de união, e na nossa família até a felicidade era tratada como estratégia.

O celular começou a vibrar sobre o criado-mudo, o som seco cortando o silêncio da manhã. Não precisei olhar para saber que não era uma ligação trivial; ninguém que me conhecia se atreveria a telefonar naquele horário sem um motivo sólido. Atendi ainda com a voz rouca.

— Fale.

— Temos um problema — disse Massimo do outro lado, direto como sempre, sem desperdício de palavras.

Aquela frase tinha o poder de eliminar qualquer resquício de sono. Sentei-me na cama, passando a mão pelo rosto.

— Onde você está?

— Lá embaixo. Lorenzo também. Cinco minutos.

Desliguei antes que ele acrescentasse algo. Se havia um problema, eu já estava atrasado.

Levantei-me e caminhei até o banheiro, ignorando o leve protesto dos músculos. Disciplina sempre foi mais útil que conforto. Girei o registro do chuveiro e deixei a água fria cair sem piedade sobre minha cabeça, sentindo o choque atravessar minha pele e expulsar o torpor do álcool. Apoiei uma das mãos na parede de mármore e fechei os olhos, permitindo que apenas o som contínuo da água ocupasse o espaço da minha mente.

Não funcionou.

Ela apareceu.

Não como uma lembrança distante, mas com uma nitidez quase irritante — os olhos grandes sustentando os meus sem submissão, o corpo tenso contra o meu, a forma como sua respiração falhou quando a beijei. Beatrice tinha gosto de surpresa, de algo não planejado, e talvez fosse exatamente isso que ainda me incomodava. Mulheres geralmente sabiam o que esperar de mim; havia sempre uma negociação silenciosa, um entendimento implícito. Com ela, não. Houve hesitação, conflito… e depois uma entrega que não parecia ensaiada.

E então, o mais absurdo de tudo: ela foi embora.

Soltou-se de mim como se pudesse, como se homens como eu fossem opcionais.

Ninguém simplesmente me dava as costas.

Senti a mandíbula se contrair enquanto a água escorria pelo meu rosto. Não era desejo o que me perturbava — era a quebra de um padrão que sempre funcionara. Eu estava acostumado a controlar finais, não a ser abandonado no meio deles.

Girei o registro com força.

Assunto encerrado.

Problemas reais exigiam espaço, e não havia lugar para pensamentos inúteis.

Quando atravessei o saguão do hotel, já vestido e completamente desperto, notei discretamente como as conversas diminuíam de volume à minha passagem. Não era algo que me esforçasse para provocar; respeito, quando construído corretamente, se tornava um hábito nas outras pessoas. O carro nos aguardava na entrada, motor ligado, como se também soubesse que atrasos não eram tolerados.

Massimo fumava ao lado da porta, a impaciência evidente na forma como seu maxilar se movia. Lorenzo já estava no banco traseiro, digitando algo no celular com a concentração de um cirurgião.

Entrei sem dizer nada. O carro arrancou quase imediatamente.

— Santos — disse Lorenzo, guardando o aparelho. — Um dos nossos armazéns foi comprometido esta madrugada.

O resto ele não precisou explicar.

Meses de logística. Rotas compradas. Autoridades silenciosamente pagas. Um único erro podia custar milhões — mas, pior do que o dinheiro, era a mensagem que aquilo enviava. Fraqueza atraía predadores.

— Quanto levaram? — perguntei.

— Ainda estamos calculando. Não foi tudo… mas foi o suficiente para alguém achar que podia tentar.

Massimo soltou a fumaça pela fresta da janela.

— Amadores — murmurou. — Ou suicidas.

A estrada começou a se alongar diante de nós enquanto o motorista aumentava a velocidade, o Rio desaparecendo lentamente pelo retrovisor. O céu ainda tinha aquele tom pálido das primeiras horas da manhã, mas dentro do carro o clima já era de guerra contida.

— Quero nomes — falei. — E quero entender como chegaram perto o suficiente.

— Um soldado distraiu-se — respondeu Lorenzo. — Negligência, ao que tudo indica.

Negligência.

A palavra soava pior que traição.

Traidores ao menos faziam uma escolha; negligentes apenas provavam que eram fracos demais para carregar responsabilidade.

O restante da viagem foi consumido por cenários possíveis, rotas alternativas, medidas de contenção. Quando finalmente cruzamos os portões do porto, o cheiro de sal e metal tomou o ar, misturado ao diesel dos cargueiros. Homens trabalhavam em silêncio excessivo — outro sinal de que o medo já havia chegado antes de nós.

Nosso representante local veio ao nosso encontro com passos rápidos demais para parecerem naturais. O suor na testa não combinava com a brisa marítima.

Ele começou a explicar antes mesmo de pararmos completamente.

— Foi um descuido, senhor. Alguns viciados da região aproveitaram uma troca de turno… levaram parte da carga antes que percebessem.

Massimo nem esperou que ele terminasse.

— Chame o soldado responsável.

O homem hesitou por menos de um segundo — tempo suficiente para selar o próprio destino profissional — e fez um gesto para que trouxessem o rapaz. Ele parecia jovem demais para aquele tipo de trabalho, os olhos saltando de um rosto ao outro como um animal acuado.

— Senhor, eu só me afastei por um instante… — começou, a voz falhando.

O tiro ecoou seco.

Gaivotas levantaram voo num sobressalto branco.

O corpo caiu antes que o som morresse completamente no ar.

Massimo abaixou a arma com tranquilidade quase entediante.

— É assim que as coisas funcionam na Itália — disse ao representante, que agora parecia lutar para continuar respirando. — Está na hora de aprenderem que aqui não será diferente.

Observei a cena sem interferir. Liderança não era sobre apertar o gatilho todas as vezes — era sobre garantir que, quando alguém o fizesse, todos entendessem o motivo.

Voltei-me para o homem.

— O que temos sobre os ladrões?

Ele engoliu em seco e estendeu uma pasta. Dentro, algumas fotos granuladas, endereços rabiscados, informações colhidas às pressas.

— Dois já foram encontrados. Estamos interrogando. O terceiro ainda não… mas conseguimos localizá-lo esta manhã.

Peguei a fotografia.

Um rosto comum. Esquecível. Exatamente o tipo de homem que acredita que pequenos roubos passam despercebidos.

Ao lado, um endereço.

Senti algo dentro de mim se alinhar — aquela clareza fria que sempre antecedia uma decisão.

Fechei a pasta.

— Eu mesmo vou resolver isso.

Massimo sorriu de leve; Lorenzo apenas assentiu, como se já esperasse minha escolha.

Entrei novamente no carro e informei o destino ao motorista. O motor rugiu, e logo o porto ficou para trás.

Enquanto avançávamos pelas ruas cada vez mais estreitas da cidade, observei as casas se multiplicarem nas encostas, a tinta descascada, os fios elétricos emaranhados como cicatrizes no céu. Lugares assim costumavam produzir homens desesperados — e homens desesperados eram perigosos porque confundiam imprudência com coragem.

Apoiei o cotovelo na janela.

O carro desacelerou.

— É aqui, senhor.

Ergui os olhos para a casa simples atrás do portão gasto, completamente alheio ao fato de que, naquele exato momento, o destino fazia um movimento silencioso daqueles que mudam tudo antes mesmo que alguém perceba.

Desci, ajustei meu paletó, meus irmãos olharam para a casa, descendo do outro carro. 

Ajustei a arma na cintura e sem pensar, dei a ordem para meus soldados entrarem.

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