A Babá Vendida ao Mafioso
A Babá Vendida ao Mafioso
Por: Laura Ricci
1. Beatrice Moreira

Dizem que os hóspedes da cobertura não gostam de ser vistos. Muito menos ouvidos. E, definitivamente, não gostam que toquem no que é deles. Descobri isso da pior forma possível.

O ar-condicionado do Hotel Áurea soprava um frio artificial e constante, mas nada era capaz de vencer completamente o calor úmido do Rio de Janeiro, que parecia infiltrar-se por cada fresta das janelas panorâmicas. Ajustei o lenço azul-marinho que prendia meus cachos rebeldes e parei por um instante diante da porta da suíte mais cara do hotel, tentando ignorar a sensação de que estava prestes a invadir um mundo que não me pertencia. Meu salário inteiro não pagaria uma única diária ali — talvez nem duas horas.

— Tá nervosa, Bia? — sussurrou Raquel atrás de mim, empurrando o carrinho de limpeza com cuidado para não fazer barulho no corredor silencioso.

— Só pensando que qualquer coisa aqui custa mais que tudo o que eu já tive na vida — respondi em voz baixa, girando a chave mestra.

A porta se abriu para um silêncio opulento, quase intimidador. A suíte era enorme, minimalista e perfeita demais, como se ninguém realmente vivesse ali. Tons de cinza elegante se misturavam à madeira escura e ao brilho polido do mármore, tudo impecavelmente organizado, sem um único objeto fora do lugar. Não havia fotografias, livros esquecidos ou qualquer sinal de humanidade — apenas controle. Um perfume discreto de bergamota e couro novo pairava no ar, sofisticado e frio, combinando perfeitamente com o ambiente.

— Parece cenário de filme — murmurou Raquel, passando os dedos pela superfície lisa de uma mesa antes de começar a limpá-la.

Italianos, pensei. A gerência havia nos alertado: três irmãos, extremamente reservados. E os seguranças no corredor do décimo oitavo andar não eram homens fáceis de ignorar. Tinham olhos vazios, postura rígida e uma atenção inquietante a cada movimento ao redor. Não pareciam estar ali apenas para proteger hóspedes; pareciam existir para impedir problemas — ou criá-los, se necessário.

Enquanto recolhia os lençóis de algodão egípcio, senti aquela pontada familiar no braço. O hematoma ainda doía sob o tecido do uniforme. Puxei a manga discretamente para baixo antes que Raquel percebesse. Dinheiro. Sempre acabava sendo sobre dinheiro. Meu pai já tinha sido muitas coisas — trabalhador, carinhoso, presente — mas agora era apenas um homem desesperado, consumido pelas drogas e por dívidas que eu nem ousava imaginar.

Raquel abriu uma gaveta da mesa de cabeceira e soltou um pequeno suspiro.

— Gorjeta.

Dentro havia três notas de cem reais, perfeitamente alinhadas. Não era gentileza; era silêncio comprado. Peguei o envelope e o guardei no bolso do avental sem comentar nada. Aquele dinheiro ajudaria nas contas, como sempre.

Terminamos a limpeza rápido demais, como sempre acontecia naquela suíte, onde parecia errado permanecer por muito tempo. Eu já empurrava o carrinho para fora quando a porta se abriu de repente.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Três homens entraram, conversando em italiano baixo e rápido, suas vozes cortando o ar com naturalidade. Não precisaram falar alto para dominar o ambiente; a presença deles bastou. O primeiro que me notou tinha olhos verdes calculistas e um sorriso fino demais para ser simpático, daqueles que não alcançam o olhar. O segundo passou direto, como se fôssemos invisíveis. Mas foi o terceiro que fez o ar mudar.

Ele levantou os olhos do celular e, por um segundo absolutamente ridículo, esqueci como respirar. Tinha cabelos escuros salpicados de prata nas têmporas e traços fortes, esculpidos com uma precisão quase cruel. Era um homem perigosamente bonito, do tipo que chamaria atenção em qualquer lugar — mas havia algo nele que afastava qualquer impulso de admiração descuidada. Se sorrisse, talvez parecesse gentil. Mas não sorria.

Seus olhos pousaram em mim por menos de dois segundos, e ainda assim tive a sensação desconcertante de ter sido completamente avaliada, classificada e arquivada.

Scusate il disturbo — disse ele, a voz baixa, carregada de um sotaque que deslizou pela minha pele como veludo… ou uma lâmina.

Não havia um pedido real de desculpas naquela frase; apenas constatação.

Quando a porta do quarto principal se fechou, Raquel soltou o ar devagar.

— Aquele homem me deu um calafrio.

Concordei em silêncio. Não era exatamente medo — era instinto. Aquela percepção primitiva que um animal deve sentir ao reconhecer um predador.

No corredor, Raquel tocou meu braço com cuidado.

— Seu pai de novo?

Mostrei o hematoma, e os olhos dela se encheram de indignação.

— Você precisa sair daquela casa, Bia. Ele está cada vez pior.

Eu sabia. Mais cedo, tinha ouvido meu pai gritar ao telefone com uma voz que mal reconheci: “Eles vão me matar.” Ele tinha roubado alguém — disso eu não tinha mais dúvida — e não parecia ser alguém que aceitasse desculpas ou atrasos.

Raquel me ofereceu um quarto na casa da avó. Quase aceitei. Quase. Mas abandonar meu pai ainda parecia um tipo diferente de morte, uma culpa que eu não sabia se conseguiria carregar.

Nos separamos no décimo andar, e só quando cheguei ao depósito percebi que havia esquecido as toalhas extras da cobertura. Voltar sozinha até lá fez um arrepio subir pela minha coluna. O corredor estava silencioso demais, como se o andar inteiro prendesse a respiração.

Bati na porta e esperei. Nada. Girei a maçaneta com cuidado e ela cedeu.

— Com licença? — chamei, entrando.

O pôr do sol tingia tudo de âmbar, alongando sombras pelo chão impecável. A suíte parecia ainda maior vazia. Deixei as toalhas dobradas na poltrona e já me virava para sair quando algo chamou minha atenção.

Uma bandeja de prata repousava sobre o buffet, e nela havia chocolates importados embrulhados como pequenas joias coloridas. Meu estômago apertou imediatamente. Não comia um chocolate inteiro havia meses — talvez desde o último Natal.

Olhei para a porta do banheiro. Fechada. Nenhum som.

Só um, pensei. Ninguém vai notar.

Peguei o vermelho, de avelã, sentindo meus dedos tremerem enquanto o papel fazia um ruído metálico suave. Eu estava tão concentrada no meu pequeno crime que não ouvi a porta do banheiro abrir.

Ti piace il cioccolato?

A voz grave surgiu atrás de mim, baixa e inesperada.

Meu coração bateu tão forte que doeu. Virei devagar — e parei.

O homem estava a poucos passos, usando apenas uma toalha branca presa na cintura. Gotas de água escorriam por seu peito marcado por cicatrizes finas, algumas antigas, outras claras demais para serem esquecidas. Não tinham aparência de acidentes. O vapor do banho ainda o envolvia, misturando-se ao cheiro de bergamota.

Seus olhos não demonstravam surpresa nem irritação — apenas interesse. Como se eu fosse um fenômeno improvável.

O chocolate começou a derreter na minha mão suada enquanto o silêncio entre nós se esticava, fino e cortante. Ele deu um passo, depois outro, cada movimento calmo demais, controlado demais.

Não era vergonha que me paralisava.

Era a certeza instintiva de estar diante de algo capaz de me destruir… se quisesse.

Seu olhar desceu para o chocolate, depois para o crachá preso ao meu avental, e então voltou aos meus olhos.

— Na minha casa — disse ele, a voz baixa — ninguém pega o que é meu sem permissão.

Meu pulso disparou. Eu devia pedir desculpa, explicar, correr — qualquer coisa. Mas minha boca não obedecia.

Ele inclinou levemente a cabeça, observando cada reação minha com uma atenção quase científica. Então sorriu.

Não foi um sorriso gentil.

Foi o tipo de sorriso que nasce segundos antes de algo irreversível acontecer.

— Agora que roubou algo meu — continuou — vai ter que aceitar a consequência.

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